


O Internacionalista n° 34 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2025
EUA – Vitória de Zohran Mamdani em NY
O social-democrata Zohran Mamdani é eleito prefeito de Nova Iorque ao derrotar o candidato apoiado pela cúpula democrata e o próprio Trump
Os explorados terão de experimentar na própria pele que por mais promessas reformistas que se lhes faça, somente avançarão a conquistar suas reivindicações com a luta de classe
No dia 04/11, Zohran Mamdani, muçulmano e filho de imigrantes, membro do DSA (Socialistas Democráticos da América), corrente interna do Partido Democrata, ganhou as eleições para prefeito de Nova Iorque com 50,4% dos votos. Andrew Cuomo, democrata e ex-governador do estado apoiado por Trump, a cúpula democrata e a burguesia obteve 41%. A vitória de Mamdani foi acompanhada pelas vitórias das democratas Mikie Sherrill (Nova Jersey) e Abigail Spanberger (Virginia), vencendo os republicanos Jack Ciattarelli e Winsome Earle-Sears por 56,2% contra 43,2 e 57,5% contra 42,3%, respectivamente. Mais uma derrota trumpista houve na Califórnia, quando aprovada a “Proposição 50” que rejeitou redesenhar os distritos eleitorais como propunham os republicanos.
O primeiro a ser destacado é que as vitórias eleitorais democratas não expressam um crescimento de sua influência: sua aprovação atingiu o nível mais baixo em 30 anos. Mas, acontecem no momento em que a popularidade de Trump despencou para 39% de aprovação. Em todos os estados – com exceção de Idaho – a desaprovação de seu governo é a mais elevada para um presidente da história dos EUA em seu primeiro ano. É nesse quadro mais geral que é possível caracterizar a vitória de Mamdani como uma derrota de Trump, que se viu forçado a apoiar um candidato democrata uma vez que o candidato republicano não alcançou mais de 10% das intenções de votos nas pesquisas pré-eleitorais. Assim, a vitória de Mamdani não apenas foi uma derrota de Trump, como também da política reacionária, belicista e pró-sionista da cúpula democrata. Ficou claro que a grande maioria das bases eleitorais democratas rejeitam o rumo traçado pela cúpula do partido ao mesmo tempo que expressou a revolta dos eleitores de Trump que apoiaram o candidato democrata, ou que não foram a votar.
É nesse quadro que a vitória de Mamdani expressou uma tendência contraposta à manifestada nas eleições de novembro do ano passado que deram a vitória a Donald Trump. Sua candidatura foi lançada dois meses antes do republicano vencer Joe Biden. Avaliava-se que a queda dos democratas nas eleições gerais poderia se refletir na candidatura do social-democrata Mamdani que, contrariamente ao expresso pela cúpula democrata, defendia uma política pró-palestina que, acreditava-se, lhe fecharia as portas ao financiamento de campanha, considerado decisivo para ser eleito. No entanto, ainda assim, venceu apesar do boicote graças ao massivo apoio de mais de 90 mil militantes que fizeram campanha porta a porta por toda a cidade. Isso mostrou que era possível vencer sem contar com o massivo apoio do lobby burguês e que as direções democrata e republicana não compreenderam a importância do massivo movimento contra o genocídio palestino e, particularmente, a rejeição ao abandono pelo Partido Democrata a defender os interesses e reivindicações dos assalariados. Por conseguinte, o que, aos olhos da burguesia, parecia sua fraqueza transformou-se em sua fortaleza ao apoiar-se nas bases democratas e, sobretudo, nos trabalhadores contra o aumento da pobreza e miséria na cidade mais rica do país. De nada serviram as ameaças de Trump sobre os “perigos do comunismo” atribuídos ao democrata.
Durante sua campanha, Mamdani prometeu um aumento do salário mínimo; que impediria a expulsão sumária de imigrantes; que congelaria os aluguéis para quase 1 milhão de pessoas, que avançaria em garantir a gratuidade do transporte e das creches (para crianças de 6 semanas a 5 anos de idade); que promoveria a implantação de supermercados com preços acessíveis etc. Para aplicar esse programa reformista, disse que apresentará um projeto para aumentar em 2% a taxação às grandes fortunas (aos que ganham mais de US$1 milhão por ano). Além disso, defendeu o direito dos palestinos a terem seu Estado e condenou os crimes de guerra do sionismo na Palestina ocupada.
Mamdani soube se aproveitar da contradição entre a Nova-Iorque, símbolo da riqueza da burguesia aos bairros operários e pobres nos quais o “sonho americano” não passa de uma farsa para os assalariados, pobres, imigrantes e juventude que apenas conseguem sobreviver dia a dia. Foi entre os estudantes pró-palestina, nos setores da pequena burguesia e dos trabalhadores afundados nas dívidas e que arcam com aluguéis absurdamente caros, além dos profissionais liberais, que Mamdani transformou a revolta das massas em apoio eleitoral massivo a sua campanha. Apoio esse que está longe de expressar uma “alternativa socialista”. Nas eleições burguesas, os explorados não se expressam homogeneamente como uma força social independente, e sim como indivíduos isolados uns dos outros que votam seguindo suas consciências e seu ânimo político sob a pressão de fatores sociais objetivos e concretos. Sem dúvida, a revolta contra a queda nas condições de vida se manifestou em apoio ao programa reformista de Mamdani. Além de fazer desta eleição a de maior participação eleitoral desde 1969: 40% compareceram para votar. Todavia, sendo a mais massiva dos últimos 44 anos é impossível obscurecer que 60% dos habilitados a votar, não o fizeram, porque sai governo, entra governo e a situação econômica piora para a esmagadora maioria dos norte-americanos.
O certo é que o programa de Mamdani não passa de um amontoado de promessas reformistas. Nada tem de socialista, se se entende por isso a defesa de um programa que ataque as bases da grande propriedade privada e abra caminho à revolução social. Trata-se de um programa para abrir negociações com a grande burguesia (Nova Iorque é o centro financeiro dos EUA) para que realizem um maior aporte tributário para subsidiar suas medidas. Em troca, é provável que Mamadani se comprometa a fazer tudo para impedir que as massas que o apoiaram avancem na luta de classes e, sem dúvida, usará sua influência e ascendência para mantê-las sob controle, garantindo os negócios e lucros da burguesia.
Mamdani não é um revolucionário e sim um social-democrata. Não há perigo à burguesia em seu mandato, embora possa inicialmente resistir a que mexa com a especulação financeira em aluguéis e valores dos imóveis (a terra disponível não abunda e a procura por moradias é elevada, o que se reflete em uma elevada renda fundiária e altos preços das moradias), com os negócios criados ao redor da educação privada e, sobretudo, se aumentem os salários muito acima do que considera mais lucrativo para seus negócios. Nesse sentido, haverá uma forte resistência organizada pela burguesia (com apoio de republicanos e democratas) para condicionar as medidas e o programa de governo do social-democrata. Somente uma mobilização de massas e radicalizada seria capaz de impor esse programa mínimo à burguesia, aos partidos e à burocracia estatal que controla as instituições.
Mamdani assumirá o comando de um governo burguês. Como candidato da política burguesa, ainda que com posturas reformistas e retórica radicalizada, o massivo apoio eleitoral conquistado apenas lhe outorga uma maior capacidade de manobra para negociar com a burguesia nova-iorquina algumas migalhas para as massas exploradas e oprimidas. Sabe ainda que essas massas não contam com uma direção classista e revolucionária que lhes permita se manifestar de forma coesa, unitária e organizada para defender esse programa mínimo de reformas progressivas por meio da luta de classes.
A vitória de Mamdani expressa uma tendência instintiva das massas de se opor às brutais consequências do capitalismo sobre suas condições de vida. Mas, estando ausente sua direção revolucionária, essa tendência se diluirá progressivamente na apatia e na decepção quando o social-democrata se mostrar impotente de cumprir seu programa mínimo. É essa compreensão que deve guiar a posição e a política da vanguarda com consciência de classe, que terá de dar saltos na construção do partido revolucionário capaz de organizar as massas no campo de sua independência de classe e da ação direta coletiva. Será desenvolvendo a luta pela imposição desse programa mínimo à burguesia com seus próprios métodos de luta e com sua força coletiva, que será possível romper com suas ilusões democráticas e, finalmente, abrir caminho à luta revolucionária pelo fim do capitalismo.