
O Internacionalista n° 34 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2025
África
Golpe militar em Guiné-Bissau representa mais uma derrota do imperialismo francês na África.
No dia 27/11, o presidente de Guiné-Bissau, Umaru Sissoco Embaló, foi preso por militares, horas antes do anúncio dos resultados da eleição ocorrida no dia 23/11. O atual presidente concorria à reeleição e tanto este quanto o líder da oposição, Fernando Dias, anunciaram sua vitória, mesmo sem os resultados oficiais. O pleito já vinha sendo questionado, visto que o principal partido da oposição e mais tradicional partido do país (PAIGC) não pôde concorrer. O líder do golpe, Denis N’Canha, chefe da guarda presidencial, prendeu também o candidato da oposição, e mais alguns militares de alta patente, dentre eles o comandante em chefe do exército. No dia seguinte, 28/11, o general Horta inta-A é apontado pelos militares como presidente interino em um “governo transicional” previsto para durar um ano. O que de fato representa este golpe? Qual seu conteúdo? A que interesses respondeu? Procuraremos responder de forma sintética a essas perguntas neste artigo.
Guiné-Bissau é um pequeno país na costa ocidental africana e antiga colônia portuguesa. Da mesma forma que Moçambique e Angola, o país passa por uma sangrenta guerra de independência de Portugal na década 1970. O partido que liderou a resistência anticolonial (PAIGC, Partido Africano para Independência de Guiné e Cabo Verde) dominou a política bissau-guineense nas décadas seguintes. Em 2019, o general de exército Embaló concorre às eleições em outro processo polêmico em meio a suspeitas de fraude,e acaba sendo apontado como presidente pela Suprema Corte em setembro do ano seguinte.
O caráter pró-imperialista do governo Embaló foi evidente desde sua posse e até o momento em que foi derrocado. Em 2024, ano em que Guiné-Bissau estava na presidência da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS, instrumento do imperialismo francês de controle econômico dos países da região), Embaló defendeu a intervenção militar no Níger a partir da ECOWAS, após a deposição do governo pró-França neste país por um golpe militar liderado por uma fração nacionalista. Não está claro ainda se o golpe no país lusófono terá a mesma natureza de choque contra o imperialismo francês como nos países do Sahel, ocorridos desde 2020, mas pelas informações disponíveis o que está claro é que não se trata de um “autogolpe” de Embaló, como afirmou categoricamente a LIT-QI, sem qualquer prova e recorrendo apenas a suposições. A queda de Embaló representa sim, ainda que eventualmente pontual, um golpe ao imperialismo ao remover do comando do estado um presidente serviçal desse.
Como Lora já afirmou em seus escritos, governos nacionalistas nos países de capitalismo atrasado e semicoloniais se esgotam no poder, ora sendo derrubados, ora se adaptando à ordem da exploração burguesa, capitulando em última instância ao imperialismo. Da mesma forma que a Frelimo de Moçambique e o MPLA de Angola seguiram por esse caminho, o PAICG jamais conseguiu dar respostas concretas aos anseios das massas, onde décadas de governos deste partido mantiveram o país dentro da estrutura de exploração capitalista e como um dos países mais pobres do mundo. Neste esgotamento, abre-se margem para os mais diversos grupos de aventureiros da direita e da esquerda burguesa tomarem o poder, seja através de eleições, seja através de golpes, e que vão manter a mesma estrutura de dominação.
Serão as medidas econômicas, sua relação com as massas e qual posição adote em relação ao saque imperialista que tome o governo militar que determinará se se trata de um golpe reacionário ou um golpe nacionalista de conteúdo burguês que procura impor uma mudança nas relações com a metrópole imperialista. O que não se deve desconhecer é que os golpes no Sahel têm refletido uma crescente revolta das massas contra o imperialismo. É o curso da luta de classes e da política da ditadura militar que poderão esclarecer qual seu conteúdo e objetivos: preservar a opressão imperialista ou chocar-se com este – ainda que limitada. O que obriga a deixar de lado a lógica maniqueísta pequeno-burguesa da “democracia x ditadura”.
Entendemos que o golpe militar representa uma derrota – ao menos pontual – ao imperialismo, uma vez que derruba um governo vassalo aos seus interesses, contudo, também sabemos que somente as massas unidas, em torno de um programa revolucionário testado historicamente, podem levar à emancipação real da nação oprimida diante do capitalismo decadente. As massas devem confiar em si mesmas apenas e devem, munidas do programa revolucionário, caminhar para o socialismo.
