O Internacionalista n° 34 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2025


A crise política que surgiu em agosto com denúncias de corrupção envolvendo o entorno do presidente ucraniano Vlodimir Zelensky, retomou no começo de novembro com mais força. Lembremos que à época foi aprovada pela Rada Suprema (Parlamento) a lei que “colocava fim à independência do Órgão Nacional Anticorrupção (NABU) e da Procuradoria Anticorrupção Especializada (SAP)”. A lei contava com o apoio de Yermak (chefe do gabinete) e Budanov (chefe da Inteligência Militar ucraniana). Acusando funcionários da NABU de “agentes russos”, pretendia-se frear os processos “por corrupção contra parlamentares, funcionários e ex-funcionários ligados a Zelensky”, acusados de “enriquecer com fundos europeus para empresas de drones de propriedade de amigos e para compra de propriedades no exterior”. Imediatamente, manifestações se realizaram por todo o país exigindo que se vetasse a lei. O imperialismo, “responsável de aparelhar ao NABU e à SAP”, exigiu do presidente a anulação da lei e dos processos contra agentes da NABU. Sob pressão, a Rada que votou favorável à lei, decidiu rejeitá-la.
Em fevereiro, aconteceu a reunião entre Zelensky e Trump na Casa Branca. Em meio aos ataques contra o ucraniano, Trump exigia que se assinasse a paz com a Rússia aceitando as perdas territoriais. Na agressividade demonstrada por Trump contra Zelensky havia um ultimatum: “sem aceitar a paz russa-estadunidense, Zelensky teria de sair”. A cimeira entre Trump e Putin em Anchorage, Alaska, era parte dessa “solução norte-americana” à guerra. Como afirmamos em anteriores jornais, ficou claro que a eleição de Trump “representava no comando da maior potência imperialista uma mudança tática das frações da burguesia estadunidense”. Mudança essa que é condicionada pela necessidade de os EUA concentrar seus esforços e preparar uma ofensiva completa contra a China. A Ucrânia passaria a ser, em grande parte, um “assunto interno” da Europa que seguiria a guerra contra a Rússia comprando armas aos EUA. Assim, Trump se apresentaria como “pacificador” e se garantiria fazer negócios na Ucrânia.
Quando sua proposta parecia estagnar e a Rússia continuava ganhando terreno na Ucrânia, e se aproximava a derrota ucraniana, foi a vez de Trump ameaçar enviar mísseis para essa para atacar à Rússia. Esta continuava esmagando militarmente a Ucrânia e à OTAN e respondeu à ameaça norte-americana como testes bem sucedidos de mísseis de cruzeiro e torpedos nucleares. A crise econômica e política interna dos EUA, em face da expansão da China e os avanços da Rússia, alertaram Trump de perder a oportunidade de impor sua “paz” antes da Ucrânia colapsar e seu plano cair no buraco. Foi então que surgiram os novos processos por corrupção envolvendo Zelensky e aliados. O NABU e a SAP foram aparelhadas pelos EUA para usar “as denúncias de corrupção para influenciar nas mudanças e trocas de funcionários e nas medidas políticas” na Ucrânia, por intermédio de sua embaixada e da CIA. Nenhum “vazamento” de informações e nenhum processo contra o entorno de Zelensky são acidentais. São operações de coerção que visam a impor a “paz” e os acordos comerciais dos EUA a Zelensky, bem como atrair à Rússia à mesa de negociações.
Não é por acaso que foi justo agora apresentaram-se provas irrefutáveis sobre uma corrupção endêmica que envolve o presidente fantoche e seus funcionários de confiança na apropriação de fundos dos EUA e da UE que estavam destinados para a empresa estatal de energia nuclear: a Energoátom. Zelensky e aliados ficavam com 10% e 15% dos valores dos repasses e dos contratos. Foram mais de US$ 100 milhões os abocanhados por esse esquema. O “operador” da rede de corrupção, Timur Múnich – a “bilheteira” de Zelensky – fugiu do país. Funcionários e empresários foram presos ou noticiados dos processos, dentre eles o ex-ministro de Energia, Galúschenko, o ex-assessor do ministro de Energia e o diretor executivo da Energoátom. Mas, houve “novos vazamentos” de que a soma apropriada por Zelensky e seu entorno poderia ser de vários bilhões de dólares, em contas e imóveis.
Está aí a explicação de porque a publicitação do novo caso de corrupção precedeu à apresentação do “plano para a paz” de Trump. A sincronia entre a investigação por corrupção contra Zelensky e o “Plano” não podia ser mais deliberada. Está ainda se negociando com Europa e Ucrânia aspectos desse plano. Mas, o que se sabe até agora de seus pontos principais é que: 1) EUA garantirão a “soberania da Ucrânia”; 2) se assinara um pacto de não-agressão; 3) Rússia não atacará países vizinhos e a OTAN não se expandirá; 4) conversações de paz mediadas pelos EUA; 5) em troca das “garantias de segurança”, os EUA exigeme: a) compensação financeira da Ucrânia para os EUA, b) se Ucrânia ataca a Rússia perde a “garantia”, c) se Rússia ataca Ucrânia haverá reposta militar e se restabelecem as sanções; 6) o país consagrará na Constituição que não aderirá à OTAN e essa incluirá em sua Carta que aquela não será admitida no futuro; 7) não haverá tropas estacionadas da OTAN na Ucrânia; 8) Ucrânia poderá aderir a UE; 9) financiamento para recuperação do país que inclui: a) criação de um Fundo de investimentos, b) cooperação para restaurar a economia, c) acesso à exploração de mineiros e recurso naturais; 10) Rússia se reintegra na estrutura econômica mundial e a) se levantam as sanções, b) acordo de cooperação econômica EUA-Rússia, c) reincorporação de Rússia no G8; 11) Rússia consagrará na Constituição sua política de não agressão contra Europa; 12) se prorrogará os tratados de não-proliferação nuclear; 13) Ucrânia será um estado “não-nuclear”; 14) Ucrânia adoptará medidas de tolerância religiosa e proteção de minorias; 15) a ideologia nazista e suas atividades devem ser proibidas no país; 16) Crimeia e Donbass serão reconhecidas de facto como território russo e nos estados de Kersón e Zaporozhje as linhas do front ficarão congeladas e se criará uma “zona desmilitarizada”; 17) se farão eleições em 100 dias na Ucrânia; 18) formação de um “Conselho de Paz” sob presidência de Trump. Está ainda sendo negociado: a) a utilização dos fundos russos congelados na Europa para reconstrução da Ucrânia; b) tamanho e equipamento do exército ucraniano; c) “mecanismos de segurança” da OTAN.
O plano é uma clara manobra apresentada na forma de um presente de grego e adornado com uma farsa de paz. A Rússia nunca quis acabar com o estado ucraniano, apenas respondeu a uma agressão contra o leste ucraniano de maioria russa sob patrocínio da OTAN que visava esmagar a minoria russa que resistir ao golpe de 2014, e assim expandir suas bases militares sobre as fronteiras russas. Se lhe exige ainda reconhecer a expansão da OTAN em outros países, deixando a Ucrânia formalmente fora. Mas, sua adesão à UE a poderia incluir a OTAN sob outra forma. A exigência de a Rússia não invadir países vizinhos procura atar-lhe as mãos contra novas provocações e a expansão da OTAN. Quanto à proibição de “invasão”, deixa-se uma brecha para provocações (ataques com mísseis, terrorismo etc.) que poderiam levar a uma reposta russa e justificar a “resposta militar resolutamente coordenada” da OTAN. Um exército ucraniano de 600 ou 800 mil soldados é, nos fatos, duplicar o número existente antes da guerra (300 mil). O que permitiria durante o “cessar-fogo” que a Ucrânia reforçasse suas capacidades militares, incluindo as brigadas nazistas se integrando ao exército regular, fazendo do exército ucraniano um dos maiores da Europa. Quanto às “garantias”, os EUA seriam generosamente recompensados no controle de recursos, privatizações e compra de equipamento militar etc. Se finalmente se impõe a UCrânia e Europa o reconhecimento do Donbass como russo, apenas se fixaria no papel um fato consumado pela guerra; porém, se preveem “zonas desmilitarizadas” que podem ser reocupadas e reforçadas militarmente pela Ucrânia em resposta a supostos ataques russos (operações de falsa bandeira, como Bucha), enquanto significaria para as tropas russas ceder terrenos já conquistados com sangue. O regime burocrático russo aceitou o rascunho e diz que serve para “iniciar” as conversas. A experiência histórica (somada à mais recente da Síria e Palestina) demonstra que a burocracia sempre busca um acordo com o imperialismo que a livre de um confronto direto.
No que diz respeito à Ucrânia, é um plano para sua colonização econômica e para operar uma mudança de governo de forma negociada, colocando no lugar de Zelensky outro títere como presidente “legitimado” pelo voto. Em agosto, tínhamos assinalado que “na Suíça se reuniram diplomatas dos EUA e Reino Unido com Yermak, Budanov e Zaluzhny (ex-comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia) para discutir a possível “substituição” de Zelensky por Zaluzhny (“exiliado” como embaixador na Inglaterra por ser o candidato mais bem cotado a ganhar as eleições do ano passado, que foram suspensas por Zelensky). Com o “voto” dos presentes, houve a indicação de Zaluzhny como presidente cotado pelo imperialismo”. Assim, “quando a situação o exigir, só restaria a Zelensky renunciar ao cargo, ou obrigá-lo a se “exilar”, para logo encenar uma farsa de processo eleitoral para empossar formalmente a Zaluzhny”. A nova investida “anticorrupção” é o método para chegar a esse objetivo, “evitando uma queda do regime por um levante popular ou um golpe de setores nacionalistas e ultranacionalistas descontentes com as derrotas, era melhor preparar antecipadamente a troca no posto do comando de sua colônia”. Eis como “se dirige de forma biônica um país que perdeu todo traço soberano no qual a população não decide nada, nem a continuidade da guerra que as desgraça, nem exercem qualquer soberania com seu voto porque o Congresso faz e desfaz a partir de uma ordem exterior” .
Esse prognóstico confirma-se com cada novo fato que decorre dos processos de corrupção. No dia 28 de novembro, demitiu Yermak após uma revista à procura de informações em sua casa pelos agentes do NABU. Encurralado, Zelensky “aceitou” sua renúncia. Nos fatos, foi obrigado pelos EUA a aceitar a demissão de seu “todo-poderoso” chefe de gabinete, que concentrava em suas mãos o curso das negociações de paz e grande parte do poder político. Assim, os EUA removeu das negociações um dos atores chave da Ucrânia e deu um sinal a Zelensky que não existe muita margem para tentar negociar com o imperialismo mudanças do plano de paz, e que uma vez decidido pelos EUA, terá de ser aceito.
Entretanto, até o “Plano” não ser assinado por todas as partes, Zelensky continuará no poder e irá fazer seu jogo duplo – junto da UE – para continuar a guerra contra Rússia, almejando essa seja obrigada a responder e, dessa forma, que a guerra continue (continuando os fluxos de dinheiro do qual parasitam os burocratas do governo e os oligarcas da Ucrânia) e que o plano nunca se implemente. Zelensky aceitou o “plano” de Trump para poder “ganhar tempo”, e deu um sinal de boa-fé ao demitir ministros e aceitar a renúncia de Yermak ligados à corrupção. Enquanto tenta se aferrar ao poder, procura se apoiar na União Europeia que apresentou seu próprio “Plano de paz” para negociar com os EUA.
Em seu “plano de paz”, os governos europeus propõem: 1) eliminar a promessa de não ampliar a OTAN; 2) aumentar o tamanho do exército ucraniano para 800 mil soldados; 3) que a inclusão da Ucrânia na OTAN dependerá do consenso de seus membros; 4) não haverá tropas da OTAN em tempos de paz na Ucrânia; 5) as “garantias” para Ucrânia incluem a aplicação do Artículo 5 da OTAN (resposta militar da organização contra o agressor de um país membro); 6) não proibir Ucrânia atacar Rússia; 7) que ativos congelados russos serão transferidos para Ucrânia; 8) uma compensação de guerra por parte da Rússia; 9) Europa e Ucrânia serão incluídas no “Conselho”; 10) reconhecer o Donbass e Crimeia como regiões ucranianas ocupadas; 11) que as eleições serão convocadas em tempo indefinido. Falando em português claro: a) permanece o quadro de guerra contra Rússia, b) o exército ucraniano será maior para poder retomar hostilidades quando for conveniente, c) Ucrânia pode atacar território russo, d) haverá tropas da OTAN na Ucrânia caso siga a guerra; e) Ucrânia será parte da OTAN por outros meios; f) haverá apenas um “cessar-fogo temporal” para rearmar Ucrânia; g) Ucrânia será reconstruída com dinheiro e ativos russos. Se os EUA aceitarem parte das condições, a Rússia as rejeitará e a guerra prosseguirá.
O que irá finalmente acontecer não depende, evidentemente, do que aconteça nas negociações e sim do curso mais geral da crise e da desagregação capitalista nos EUA e da Europa. Trump poderá a jogar no lixo seu plano caso não consiga os resultados imediatos almejados. O que é líquido e certo é que o desmembramento da Ucrânia já foi realizado sem participação das massas ucranianas. No começo do ano afirmamos: “a possibilidade de um desmembramento da Ucrânia está agora objetivamente colocada”. O que era uma possibilidade assume agora uma forma mais concreta no plano de Trump. Que a partição inclua os atuais territórios ou mais depende da aprovação da Rússia, da Europa e da Ucrânia. Se o plano desabar, a “resposta militar resolutamente coordenada” de Trump apenas reafirmará o objetivo do imperialismo traçado há muito tempo: “a destruição da propriedade nacionalizada pela revolução, derrubando a burocracia herdeira do estalinismo, e assim reconstruir as forças produtivas capitalistas”. Eis porque, a desagregação territorial da Ucrânia e a guerra devem ser entendidas como “uma consequência dos choques entre os países imperialistas e os Estados Operários degenerados”.
O que temos colocado nos permite avaliar os prognósticos que traçamos sobre Ucrânia e os destinos de seu governo e, sobretudo, demonstrar que o “plano de paz” de Trump, as manobras de Zelensky, as contrapropostas da UE e as tentativas da burocracia em negociar uma saída negociada não passam de “episódios na luta de morte entre os Estados capitalistas e os Estados operários (ainda que profundamente degenerados) surgidos das revoluções proletárias”. Ou seja, da luta entre as forças produtivas monopolizadas sob a forma da propriedade privada e as forças produtivas desenvolvidas sobre base da propriedade nacionalizada pelas revoluções proletárias.
Os explorados e oprimidos do mundo todo devem ter por alvo principal de seus ataques a seus governos e burguesias visando pôr fim à guerra que dessangra as forças vitais das economias e do proletariado em benefício de um punhado de monopólios e dos oligarcas das finanças. Conquistar a soberania e autodeterminação nacional na Ucrânia só será possível retomando ao caminho da revolução social, abrindo uma via à confraternização com o proletariado russo cuja tarefa é derrubar a casta parasitária burocrática e, assim, retomar seu controle sobre o estado e a economia da Rússia. A urgência de reconstruir uma direção revolucionária baseada nessa compreensão histórica é decisiva, o que significa ser organizada “sob o programa da revolução social nos países capitalistas, e da revolução política nos estados operários degenerados, defendendo incondicionalmente as economias nacionalizadas e os estados operários, sem compactuar em nada com os interesses das burocracias” .