O Internacionalista n° 34 / MOVIMENTOS / dezembro de 2025


O ato do Dia da Consciência Negra deste ano tinha por marco os 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares e 30 anos da Marcha Zumbi (1995), histórica mobilização que iniciou as manifestações dos movimentos de negras e negros em defesa da “igualdade racial”, “justiça” e “reparação”. A convocatória dos movimentos (Unegro, UNEafro, Frente Periférica por Direitos, MNU etc.), centrais (CTB e CUT) e sindicatos (Apeoesp, Sinpeem, Sinesp etc.) contou com apoio de vereadores e deputados. Em 25 de novembro, foi realizada a Marcha das Mulheres Negras, sob o lema “Por reparação e bom viver”.
É uma constante dos atos de 20 de novembro a defesa da democracia burguesa como principal via para resolver os problemas históricos e estruturais das massas negras exploradas e oprimidas. Há uma posição comum entre os movimentos de que os governos petistas são aliados na luta contra a opressão e discriminação ao aprovarem leis que reconhecem a igualdade e reconhecimento da injúria e discriminação racial como crime, abriram caminho a uma parcela de negras e negros de ingressar às universidades etc. Mas, denunciam que não existe igualdade formal no acesso ao desenvolvimento econômico e que existe um bloqueio à sua participação nas instituições e na política. Eis porque neste ano a principal pauta defendida foi a de “reparação histórica” porque, afirmam, há uma dívida histórica do estado com a população negra e, portanto, exigem medidas de “redistribuição de poder e riqueza”.
Essa bandeira está diretamente atrelada à defesa da PEC 27/2024, que propõe a criação de um Fundo Nacional de Reparação, de autoria do deputado Orlando Silva (PCdoB), em nome da “Bancada Negra”, que foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça e da Cidadania no Congresso, e teve apoio quase unânime dos deputados direitistas e ultradireitistas. Essa convergência na defesa do direito à “reparação histórica” corresponde à demagogia e às necessidades aparelhistas de arrastar por trás das campanhas eleitorais de 2026 às massas negras para votar seus candidatos. Existe também um interesse de todos os partidos e deputados de poder abocanhar uma parte do fundo bilionário que seria criado.
Se de um lado os movimentos de negras e negros – e as organizações que o dirigem – acreditam que essa seja uma maneira para manter projetos nos bairros, movimentos culturais, garantir apoio financeiro etc.; de outro, servirá à disputa aparelhista dos partidos para que lhes seja repassado parte desse fundo para favorecer suas campanhas e financiar projetos e organizações que lhes servem de curral eleitoral. Enquanto que nas fábricas, nos campos, nas favelas, a imensa maioria nacional, que é negra, continuará sendo desgraçada pelos baixos salários, falta de direitos, subemprego, desemprego e chacinas. É essa realidade que demonstra que a burguesia branca e racista continua ditando o que se passa com a vida das massas negras e que, como seus antepassados escravocratas, lucram com suas desgraças e miséria.
A defesa da democracia burguesa e dos governos ditos populares levou a abandonar a defesa das reivindicações das massas negras pela via da luta de classes, trocando-a pela colaboração de classes. A política culturalista, identitária e democratizante que se firmou ao interior dos movimentos rompeu com a unidade baseada na identidade de classe explorada entre negros e brancos, junto dos indígenas, na luta contra a burguesia e seu estado, sob a estratégia da revolução proletária.
Daí a importância de defender o programa proletário no interior dos movimentos, fábricas, no campo e nos bairros, que coloca o fim da discriminação e opressão racial em todas as esferas da vida (econômica, política e civil) pela via da destruição do estado capitalista e a instauração do Estado Operário, que criará as bases materiais para conquistar a plena igualdade de negros e indígenas com os brancos, na economia e na política por meio do controle coletivo sobre a economia nacionalizada, na transição ao socialismo. Essa estratégia foi defendida pelo PPRI no Manifesto que distribuímos no ato.