O Internacionalista n° 34 / NACIONAL / dezembro de 2025


Iniciamos com este texto uma avaliação e debate sobre a relação entre o marxismo, seu programa, seus métodos e princípios (expressão dos interesses de classe do proletariado) em relação ao meio natural em que os homens desenvolvem a produção e reprodução de sua existência natural e social. O avanço dos desastres naturais, a crescente contaminação e poluição, as desgraças sofridas pelas massas no campo e nas cidades sob efeitos da destruição capitalista da natureza, exigem uma elaboração sistemática, além de denunciar e demonstrar a farsa da “transição ecológica” da boca dos capitalistas e da pequena burguesia. Com essa fundamentação, fizemos uma primeira avaliação da COP 30.

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Encerrou a COP 30 e sem qualquer dúvida se pode afirmar que não passou de uma farsa, de um balcão de negócios dos capitalistas, que sob o discurso do “respeito ao meio-ambiente” e “transição energética” se continuará destruindo a natureza em benefício dos lucros monopolistas. Enquanto rolava o teatro da COP, era aprovada a privatização de cursos de rios, meios de vida e sustento de povos originários e comunidades ribeirinhas e quilombolas, para não ter qualquer dúvida dessa caracterização. No apagar das luzes da encenação da COP, fora ainda aprovado o PL da Devastação que retirou quase todas as normativas e leis ambientais em favor da exploração irracional e destruidora da natureza. É nesse quadro real, e não o da edição jornalística burguesa que reproduz (graças a um bilionário investimento em propaganda), que a maioria dos signatários dos Acordos de Paris e participantes da COP, que continua a depredação da natureza em benefício dos lucros dos capitalistas. Demagogia e cinismo acobertam a poluição e degradação da natureza que colocou o planeta à beira de sua destruição, e cujas consequências recaem de modo diferente sobre os países desenvolvidos (imperialistas) e atrasados (semicoloniais), assim como afetam de forma diferente as classes sociais.
Houve na COP 30 uma vitória dos interesses dos monopólios associados à exploração de combustíveis fósseis. O lobby das empresas que dominam o setor foi ostensivo e intensivo. Há uma intensificação na procura pela exploração de jazidas em meio ao agravamento da guerra comercial e de possuir recursos à custa da destruição ambiental das semicolônias e dos altos lucros garantidos. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), “A produção de petróleo deverá atingir uma média de 105,8 milhões de barris de petróleo bruto por dia em 2025, 2,7 milhões de barris a mais do que em 2024. Em 2026, a produção global deverá atingir 107,9 milhões de barris de petróleo por dia, um aumento de 2,1 milhões [em relação ao ano anterior]”. A isso, soma-se o aumento exponencial dos investimentos em novas explorações, além da produção de carvão, gás e recursos minerais cuja extração e exploração agravarão as consequências da crise climática, e preanunciam novos desastres ambientais e contaminações. A COP 30 certificou o peso desses monopólios ao retirar qualquer crítica pela sua responsabilidade na destruição de biomas, rios, mares e biodiversidade animal e vegetal. O governo Lula rendeu assim seu tributo a seus amos ao balizar e aprovar a exploração na bacia do Amazonas onde se encontram 20% das reservas mundiais comprovadas. A cobiça monopolista Lula apresenta seu entreguismo. Apesar que isso significa, como se comprovou, a negação dos direitos dos povos originários e ver ameaçadas suas condições de vida.
Os altos investimentos em produção de energia com métodos e técnicas menos contaminantes elevam os custos de produção dos monopólios. A construção de centros de IA que usam recursos hídricos, devastam a natureza, poluem o ambiente e não se revertem em investimentos sociais de nenhum tipo, esteve ausente dos debates e resoluções. Esteve ausente nas mudanças na legislação ambiental que permite à burguesia agroindustrial, latifundiária, da mineração etc. uma maior taxa de mais-valia, deixando o “passivo” ambiental ao país oprimido; ou seja, carregando sobre os orçamentos do estado e as condições de vida das massas oprimidas todo custo da devastação.
Em face da realidade objetiva e da política entreguista de Lula, a Declaração da Cúpula dos Povos não passa de choramingo impotente. Não há como assumir “a tarefa de construir um mundo justo e democrático, com bem viver para todas e todos” no capitalismo. O que deixa claro seu principal objetivo, que era eleitoral sob o espantalho de “combater” a extrema direita e o “fascismo” para pôr os movimentos ao serviço da disputa eleitoral inter-burguesa, subordinando os assinantes ao objetivo eleitoral da reeleição de Lula que é responsável pela privatização dos rios da Amazônia, pela licitação da exploração de petróleo e pelos projetos de rodovias em regiões ambientais naturais protegidas. Trata-se de uma capitulação porque se é verdade que o capitalismo é a “causa principal da crise climática crescente”, não há como por dentro desse resolvê-la. Tampouco há como confiar em suas instituições para a proteção dos povos originários e de seus territórios da depredação dos capitalistas. A manifestação dos povos originários e comunidades ribeirinhas e quilombolas na COP 30 foi negligenciada pelo governo, que até ensaiou com Sônia Guajajara fazer uma “contramanifestação” favorável ao governo que estava sendo denunciado como cúmplice da destruição de suas condições de existência em benefício dos grandes capitalistas. Em síntese: foi uma declaração de fé na possibilidade de humanizar o capitalismo, quando todas as evidências e experiências demonstram quanto nocivas à luta dos explorados são essas ilusões.
Não há como realizar a transição energética por dentro e com os meios e métodos capitalistas. Segundo o novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a temperatura média do planeta continuará subindo. Os desastres naturais continuarão acontecendo – cada vez com mais frequência e intensidade. Veja a entrega da exploração de minerais críticos e terras raras, concedendo ainda isenções fiscais bilionárias a Centros de IA que consomem enormes volumes de energia e água. Não se deve ainda esquecer que a COP 30 se realizou em meio à devastação do genocídio palestino que inutilizou por décadas as terras e aprofundou as tendências climáticas mais instáveis. Genocídio esse do qual Lula é cumplice. Aconteceu ainda em meio ao aumento do uso de componentes contaminantes em todas as atividades rurais (agrícola, mineira, madeireira, etc.). As terras dos povos originários continuam sendo destruídas e seus meios de vida contaminados. O “capitalismo verde” é uma máscara farsesca para a continuidade da devastação do meio natural pelos capitalistas, e uma via para garantir à burguesia a posse de gigantescos recursos naturais atualmente inexplorados. Disso trata a aprovação de um fundo bilionário para a “preservação” da Amazônia e outras áreas naturais.
A COP 30 foi um teatro grotesco no qual os capitalistas continuam barganhando seu direito a destruir a natureza em benefício de um punhado de oligarcas imperialistas. As potências, que imundizaram o planeta, obrigam as semicolônias a se ajoelharem à “transição energética” imposta pelos monopólios, que não passa de manobras visando exportar suas mercadorias e investir capital financeiro para controlar recursos e biomas para possuir seus recursos e obter grandes lucros pela sua exploração. As semicolônias devem continuar obedecendo as metas ditadas pelas potências. Evidentemente, seria progressivo um país atrasado romper com essa paródia da COP, mas a burguesia nacional submetida e sócia minoritária do imperialismo, e os partidos que representam seus interesses de classe, como o PT, nunca tomarão essa decisão. Não há como defender a soberania nacional sem uma ruptura com o imperialismo.
As variações climáticas, decorrentes da ação do homem, afetarão camponeses, povos originários, os assalariados e demais oprimidos. A decomposição do capitalismo se manifesta na acelerada degradação da natureza, cuja defesa efetiva somente será dada nos marcos do socialismo. Assim, o combate à destruição da natureza significa avançar na luta revolucionária. A preservação ambiental e a exploração das riquezas naturais de forma racional (reduzindo ao mínimo a poluição e aplicando todos os processos disponíveis para proteger real e efetivamente o meio-ambiente) somente será possível sobre a base da expropriação dos capitalistas e a transformação da grande propriedade privada burguesa em propriedade estatizada, sobre a qual se erguerá o método da economia planificada e aplicação de tecnologia, o que causará impactos sensivelmente menores na natureza. Portanto, são métodos incompatíveis com o caráter anárquico da produção capitalista e a contenção do desenvolvimento das forças produtivas.