O Internacionalista n° 35 / janeiro de 2026

Editorial Internacional


Com o ataque de 3 de janeiro contra a Venezuela, os EUA não apenas declararam a guerra aberta contra toda e qualquer semicolônia que conteste seus ditames, como enterrou definitivamente o direito e legalidade internacional burguesa que ainda se sustentavam retoricamente. O direito à autodeterminação, o respeito à soberania nacional e o devido processo jurídico contra opositores foram jogados no lixo. Nos fatos, EUA deram passos para afundar o mundo na beira de uma guerra em escala mundial entre os estados operários degenerados e os países imperialistas.
O objetivo dos EUA é tomar posse de territórios, dos mercados e fontes de matérias-primas das nações semicoloniais que atingem os interesses dos estados operários degenerados, e lhe permitem parasitar dos lucros das riquezas e recursos roubados e, assim, manter a sobrevida de sua decadente economia. Esgotadas parcialmente as medidas econômicas para afogar à China, que ainda tem acesso a matérias-primas e recursos para seu contínuo desenvolvimento econômico (o que se traduz em mais retrocesso e desindustrialização relativa dos EUA e do imperialismo como um todo), os EUA abandonaram a guerra econômica como via preferencial para derrotar a China, e agora procuram impor uma mudança na correlação de forças pela via militar sobre os países que lhes provêm de recursos e mercados. Como afirma nosso Manifesto publicado neste jornal, “O ataque e golpe de estado contra o regime chavista objetiva enfraquecer a China, que tem interesses estratégicos no petróleo e gás do país, e se apropriar de recursos petrolíferos gigantescos que lhe permitam ter melhores condições para travar a guerra comercial e preparar um choque militar contra esse país”.
A ameaça contra o Irã publicizada pelo fascistizante Trump se enquadra dentro desse plano geral, como é também sua intenção de “tomar” a Groenlândia para enfraquecer o poderio russo nas rotas comerciais do ártico. O fato dos EUA descarregarem sobre a envelhecida e fraca burguesia imperialista europeia o maior custo da guerra travada contra Rússia pelo imperialismo (usando a Ucrânia como peão), não significou que a burguesia estadunidense abandonasse sua pretensão de usar o prolongamento da guerra para derrotar a Rússia. Houve apenas, como referimos em anteriores jornais, uma “mudança tática” deixando à Europa arcar com os maiores custos dessa. Os EUA acreditaram poder enganar todo o mundo com sua retórica da paz, enquanto armava Europa e a Ucrânia contra a Rússia. O recente ataque da Rússia com seus mais novos e avançados mísseis hipersônicos que atingiu e inabilitou a maior reserva de gás subterrâneo (Bilche-Volytsko-Uherske) desde o qual se bastecia de energia à Europa a preços elevados, atingiu duramente um interesse norte-americano na Ucrânia. O reservatório de gás era controlado pelos EUA, que armazenava gás trazido do Oriente Médio e dos EUA para o vender à Europa a preços exorbitantes. A reserva de gás na Ucrânia foi imediatamente ativada e enchida com gás após a explosão pelos EUA e aliados do gasoduto Nord-Stream da Rússia. Os EUA continuavam a lucrar duplamente (vendendo armas e monopolizando o gás à Europa) da guerra enquanto posavam de pacificador. É provável que nos próximos dias, o governo republicano faça uma declaração de “decepção” contra a Rússia por “não acolher” seu plano de paz e tome medidas de retaliação. O que deixará claro que os EUA, como fez com Irã e Venezuela, pretendia enganar à Rússia.
É nesse quadro que ressalta a criminosa atitude das burocracias russa e chinesa perante a ofensiva imperialista que tem por principal objetivo histórico sua derrubada e a transformação dos países que expropriaram à burguesia em simples semicolônias. A casta reacionária que expropriou o proletariado sobrevive e se mantém no poder graças ao controle da propriedade nacionalizada que lhe provê de gigantescos recursos e de sobretrabalho para manter suas economias em relativo crescimento em meio à derrubada da economia capitalista por todas partes. Fieis a sua natureza parasitária e pró-burguesa, acreditam que poderão chegar a um acordo com o imperialismo que as preserve em seus interesses de seguir parasitando de grande parte da riqueza social criada sobre a base dessa propriedade estatizada. Por isso nada fizeram quando da derrubada de Al-Assad, Gaddafi, Hussein e, recentemente, com o sequestro de Maduro. Rússia e China viram crescer suas economias em meio à crise mundial. E acreditam que bastará fazer concessões ou não intervir nas regiões em que o imperialismo e seus aliados desatam sua brutal ofensiva belicista e genocida (como na Palestina ocupada) para serem poupadas. Mas, é o imperialismo que se fortalece e retarda sua desagregação com a paralisia criminosa das burocracias reacionárias. Cada retrocesso dessas permite ao imperialismo se apropriar de recursos e capacidades logísticas para empreender sua ofensiva final contra os estados operários degenerados. Enquanto que as nações oprimidas que se aliaram à Rússia e China, visando sua proteção, passem a ser utilizadas como moeda de troca nas negociações entre esses países com o imperialismo.
O principal fator que favorece as tendências bélicas e a ofensiva intervencionista do capital financeiro e dos monopólios imperialistas é o profundo retrocesso político do proletariado mundial em sua consciência de classe. É a crise da direção revolucionária mundial e a decomposição democratizante e revisionista de suas seções nacionais que facilita a colonização e violenta opressão social e nacional do imperialismo. Um exemplo disso é o genocídio palestino que continua avançando porque apesar das massivas e do maciço apoio operário e popular à luta palestina, suas direções políticas e sindicais continuam subordinadas à democracia e aos governos burgueses, impedindo que essa revolta se transforme em guerra dos explorados contra o sionismo e o imperialismo, desenvolvendo os métodos e estratégia da luta de classes contra suas burguesias e governos cúmplices do genocídio. É essa ausência da direção e estratégia revolucionária como direção dos movimentos que impede às massas venezuelanas e americanas confluírem em medidas e ações coletivas e unitárias coordenadas internacionalmente, para atacar e atingir os interesses dos EUA em todos os países do continente.
Como afirmamos no Manifesto n° 93, “A tendência de uma guerra mundial nasce e se desenvolve, primeiro, através de invasões e ataques em que o imperialismo começa enfraquecendo os apoios políticos e econômicos de suas nações adversárias”. O ataque à Venezuela e os preparativos bélicos contra Irã são elos do objetivo estratégico do imperialismo de destruir a propriedade nacionalizada pelas revoluções que ainda permanecem em pé sob poder e controle das burocracias herdeiras do estalinismo; derrubar a casta reacionária e parasitária do poder político, instaurando no poder as burguesias nacionais domesticadas pelos monopólios imperialistas; fragmentar a Rússia e China e, desse modo, proceder a sua transformação em semicolônias do imperialismo. Não há outra via para o capitalismo sobreviver a sua crise estrutural que afundar à humanidade na completa barbárie.
A etapa imperialista de crises, guerras e contrarrevoluções é também a etapa das revoluções proletárias. A revolução russa e chinesa demonstrou que há como derrubar a burguesia, vencer o imperialismo e dar passos na transição ao socialismo. Mas, para isso é preciso uma direção e um partido mundial firmados nos métodos, tática, programa e estratégia bolcheviques. Frear a barbárie capitalista depende, assim, de construir os partidos revolucionários em cada país, conquistar a direção política das massas e retomar a luta revolucionária do proletariado mundial pela sua libertação e a de todos os povos e nações oprimidas do mundo todo.