


O Internacionalista n° 35 / janeiro de 2026
Editorial Nacional
A brutal ofensiva colonialista norte-americana condicionará o fim do mandato de Lula e a disputa inter-burguesa
As violentas mudanças na situação política mundial, que levam a um recrudescimento das tendências bélicas e agravamento da opressão nacional, após invasão norte-americana na Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, exigiram um posicionamento do governo brasileiro, que não poderia ser outro, senão de afirmação do seu papel de submissão ao imperialismo disfarçado de defesa da soberania nacional das semicolônias latino-americanas. Apesar de condenar a invasão a Venezuela como uma flagrante violação do direito internacional, se colocou a disposição para contribuir pela via do diálogo e da cooperação, ou seja, como um conciliador entre o país agressor e a nação agredida, enquanto deveria unir forças políticas com os países que condenaram o ataque norte-americano na América Latina para responder a altura da truculência de Trump, exigindo a imediata libertação de Nicolás Maduro e congelando as relações diplomáticas e os acordos comerciais até EUA libertar o presidente sequestrado, demostrou que assim como fez com o genocídio palestino, o governo burguês de frente ampla de Lula/Alckmin nunca passará da retórica vazia para as medidas concretas.
Lula apesar de afirmar que a ofensiva norte-americana ultrapassou uma “linha inaceitável”, classificando-a como uma afronta gravíssima à soberania venezuelana e uma ruptura da Carta da ONU, é incapaz de defender consequentemente a Maduro, já que fez coro com o imperialismo norte-americano na contestação das últimas eleições na Venezuela, não reconhecendo a reeleição de Maduro e, portanto, se somando à cartilha da fraude eleitoral erguida pelo imperialismo e a direita entreguista venezuelana. Também vetou a entrada da Venezuela nos BRICS. Sobretudo, essa incapacidade de defender de fato a soberania da Venezuela, que passa neste contexto pela necessidade de defesa de seu governo que elegeram as massas contra a opressão imperialista, se dá em função do governo brasileiro não querer comprometer as relações bilaterais com os EUA. E por isso, não somará forças com a Colômbia, Cuba e Nicaragua, mas sim já demonstrou que irá se esconder atrás de desculpas esfarrapadas, como a de que o aumento das lideranças de direita na América do Sul está atrapalhando seus planos de criar uma “frente em defesa da soberania” na região. De forma covarde, Lula se justifica por não tomar medidas reais em defesa da soberania venezuelana porque não haveria um consenso amplo entre todos os países na condenação ao ato de guerra dos EUA.
A explícita demonstração de continuidade da política pró-imperialista do governo de frente ampla Lula/Alckmin será acobertada pelas direções políticas e sindicais que trabalham pela reeleição do caudilho petista, como o fazem com sua cumplicidade no genocídio palestino. Mas, sem dúvida farão uma ampla campanha ao redor do intervencionismo imperialista na América Latina como parte da campanha para a disputa eleitoral em 2026. Apresentarão Lula e sua candidatura com o discurso farsesco da “defesa da soberania nacional” e de combate ao fascismo no Brasil. Para isso, o governo petista contará com o apoio das lideranças sindicais petistas e pcdobistas (reformistas e stalinistas) que controlam os maiores sindicatos e centrais sindicais do país. É provável que a candidatura do petista ganhe uma projeção, produto do intervencionismo norte-americano, sobretudo, pelo desprezo às leis internacionais dos EUA, aliado da direita e ultradireita. Mas, também se fortalecerão as tentativas da consolidação de uma frente ampla entre essas forças para vencer Lula, uma vez que se apresentarão como aliados de Trump. A ausência das autoridades e dos partidos direitistas da base do governo de frente ampla no Congresso, principalmente se tratando de um ato contra os atos de 8 de janeiro de 2023, no qual Lula vetou integralmente o PL da “dosimetria”, indicam que se reforçará a desagregação da base do governo e irá atingir a governabilidade de Lula, permitindo à direita e ultradireita se fortalecer ao se apresentar como única garantia para facilitar os acordos comerciais com Trump e fazer crescer o país.
Outro prognóstico que fazemos é de que as correntes políticas que atuam nestes sindicatos estatizados com uma política revolucionária, classista ou que expresse a posição de independência política do proletariado enfrentarão maior isolamento e ataques caluniosos de que estamos fortalecendo o imperialismo ao não apoiar a reeleição de Lula. Nossa atuação precisa demonstrar que o Brasil comparece como uma “exceção” até o momento, do intervencionismo mais direto dos EUA, justamente porque Lula é um governo pró-imperialista que tem servido aos interesses da burguesia norte-americana no país – são inúmeros os exemplos, dentre eles a reforma administrativa em curso, o arcabouço fiscal, a exploração dos recursos naturais do país a exemplo dos recursos hídricos com a instalação dos data centers – e ter sido apoiado pelas principais frações da burguesia, inclusive norte-americana, além do governo Lula possuir um trunfo político fundamental, que é o controle das direções sindicais que atuam na contenção da luta de classes. No entanto, não se pode descartar a possibilidade do imperialismo norte-americano em sua guerra comercial e intervencionista para expulsar a China do continente, pode chegar a trabalhar abertamente contra Lula visando impor um governo abertamente entreguista e que rejeite outorgar qualquer concessão às massas, por mais mínima e inócua que seja.
Por fim, na análise da situação política nacional, também é preciso considerar uma possível ampliação dos investimentos militares no país em nome do fortalecimento da segurança nacional. Esse é um tema que vem sendo discutido amplamente pela mídia burguesa nos últimos dias, reforçando a defesa de que o orçamento público deve levar em conta o fortalecimento do exército combinado com políticas de segurança nacional mais abrangentes. Sabemos que um reforço militar no país tende a incidir em dois agravantes principais: o desvio de mais recursos sociais para o aparato policial e a maior repressão aos movimentos sociais que se levantarem contra as políticas governamentais de ataque aos assalariados. Também sabemos pela experiência histórica que o exército sempre foi um instrumento da burguesia e serviu ao imperialismo norte-americano para impor seus ditames e interesses. Um reforço militar das Forças Armadas no país não será para enfrentar uma intervenção imperialista, e sim para esmagar os setores das massas e dos sindicatos que se organizem para combater o imperialismo com seus próprios métodos.
Se a intervenção militar na Venezuela e o sequestro de Maduro ensinam algo, é que o imperialismo rasgou o direito e leis internacionais e passou ao uso amplo e decisivo da força militar para impor seus interesses aos países que não se subordinem totalmente a suas ordens. A burguesia brasileira, como toda burguesia semicolonial, é impotente (e nunca se organizará) para enfrentar as ameaças e medidas imperialistas de ataque à nação oprimida. Tampouco o farão as Forças Armadas que são um braço armado da burguesia e tem servido historicamente como um instrumento ao serviço do imperialismo para esmagar a luta de classes. Somente o proletariado como direção política das amplas massas oprimidas do país poderia erguer um movimento anti-imperialista capaz de derrotar o imperialismo. O problema está em que carece de direção revolucionária, e as direções que estão no controle dos principais sindicatos são traidoras e se subordinam aos interesses da burguesia de diversas formas. E agora de tudo farão para impedir greves, movimentos ou qualquer ação que possa entrar em choque com o governo pelas reivindicações das massas, para servir de curral eleitoral a Lula.
Está colocado para a vanguarda com consciência de classe remar na contracorrente e batalhar contra a embriaguez eleitoral e a instrumentalização das lutas e movimentos para arrastar às massas a subordinarem suas necessidades e métodos de lutas à reeleição de um agente político da burguesia que se mostrou um serviçal do imperialismo para rebaixar as condições de vida das massas e aumentar a opressão nacional.