O Internacionalista n° 35 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro de 2026


O ultradireitista José Antonio Kast (58,2%) se impôs sobre a estalinista Jeannette Jara (41,8%), no segundo turno das eleições gerais. A vitória do fascista Kast teve por precedente seu abandono da União Democrática Independente (UDI), partido institucional do pinochetismo (em referência ao ditador militar Augusto Pinochet), acusando suas lideranças de abandonar o programa pinochetista, e se acomodar a uma linguagem mais “moderada”. Formada a legenda Ação Republicana, e em 2019 o Partido Republicano, Kast assume a presidência com a política e programa históricos da UDI.
A árvore genealógica do novo presidente deixa clara sua filiação ideológica. Seu pai, Michael Kast, foi soldado da Alemanha nazista e filiado ao Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães. A família Kast apoiou a ditadura pinochetista e tinham vínculos com a Central Nacional de Informações (CIN), que serviu de referência para a organização dos grupos parapoliciais nos quais a família Kast participava, cometendo violações aos direitos humanos e participando em desaparecimentos forçados. Seu irmão mais velho, Miguel, foi ministro da Oficina de Planificação Nacional (ODEPLAN) durante o regime militar, onde agiu ativamente para desenhar e aplicar as medidas neoliberais da ditadura, firmando os planos de desmantelamento das conquistas sociais e trabalhistas do governo do “socialista” Allende.
Kast é orgulhoso de suas raízes. Sendo deputado, se opôs à ampliação dos direitos civis e trabalhistas. Durante sua anterior campanha eleitoral (quando fora derrotado pela Frente Ampla que conduziu Boric à presidência) contou com apoio de militares e familiares de condenados por terrorismo de Estado, reivindicou a ditadura genocida e disse que, sendo presidente, iria indultar todos os condenados por sequestro, torturas e desaparecimento forçado durante o regime militar de 1973-1989.
Seu programa de governo é de continuidade do pinochetismo: centralização autoritária do estado e das relações entre as classes com o recurso das forças armadas; desregulação completa da economia e privatizações da totalidade dos serviços públicos e sociais; contrarreformas trabalhistas mais violentas; legislação civil reacionária sobre a família e matrimônios, além da proibição do aborto; violento ajuste fiscal, reforma fiscal favorável às grandes fortunas etc. Certo é que essas medidas terão ainda de ser negociadas uma vez que sua vitória não lhe garantiu maioria parlamentar. Terá ainda que negociar com as legendas direitistas concorrentes nas eleições e garantidoras de sua vitória. Eis porque na sua primeira coletiva de imprensa, Kast disse ser respeitoso das instituições, indicando sua disposição às negociatas com as frações da direita mais liberais. Entretanto, seu programa de governo claramente limita e condiciona as negociações, obrigando-o a avançar na centralização autoritária das ações do governo e dar passos ainda mais decididos na militarização das relações entre assalariados e patrões.
A ultradireita é fortalecida ao recorrer à alternância no poder pela via eleitoral. Essa tendência verifica-se por toda América Latina perante o fracasso completo dos partidos reformistas e liberais em garantir as mínimas condições de vida das massas. A desagregação acelerada do país, em meio à decomposição geral do capitalismo mundial, acabou atingindo a estabilidade relativa e a contenção do conflito social com migalhas que estiveram na base de mais de 30 anos de governo da “concertação” (coalizão de partidos liberais, reformistas, estalinistas e social-cristãos). É parte desse processo a derrota política imposta às massas protagonistas da insurreição espontânea de 2019, que, lhe faltando sua direção revolucionária, seria desviada pela via da Constituinte de reformar legalmente a estrutura herdada pela ditadura, mas que acabou em fracasso deixando em pé a Constituição pinochetista.
É com essa velha Constituição e sua base “legal” que Kast poderá avançar em seus ataques reacionários contra as massas e retomar a via da centralização violenta das relações sociais. E fará isto no primeiro momento se apoiando na “legitimidade” obtida pela democracia formal. Aproveitando demagogicamente no descontentamento das massas com os governos ditos populares , a direita cresce e se fortalece, refletindo o desespero de setores dos assalariados e da pequena burguesia arruinada , sedentos por soluções imediatas para se defenderem da decomposição social. Isso explica por que, apesar de Jara obtiver 500 mil votos a mais que Boric, a lei de obrigatoriedade do voto (que aumentou em 50% o número de votantes em relação às eleições de 2021) favoreceu à ultradireita, vencedora as eleições com maior quantidade de votos da história, e o pinochetismo retorna ao poder se servindo da democracia formal.
O principal fator histórico dessa mudança foi, sem dúvida, a derrota dos objetivos que levaram as massas a se revoltarem em 2019, graças à intervenção do reformismo e da direita liberal em defesa das instituições e estado de direito burguês. Após traí-las, agora pretendem fazer uma “oposição responsável” e consensuada com o governo reacionário, chauvinista e fascistizante. Para a vanguarda com consciência de classe, o resultado eleitoral permite demonstrar prática e concretamente aos explorados que as instituições democráticas e os métodos da democracia formal burguesa não são um empecilho ao avanço da ultradireita, e sim um meio de seu fortalecimento e legitimação social. A democracia tem se revelado um instrumento eficaz à reação para se elevar ao poder.
A própria “evolução democratizante” do pinochetismo é um produto histórico e contraditório da decomposição da democracia burguesa, não sua negação. Ora, é provável que a “via democrática ao pinochetismo” possa ter o mesmo destino da “via chilena ao socialismo” de Salvador Allende: ou será derrubada pelo levante revolucionário das massas, ou irá abrir caminho a um governo bonapartista fascistizante, sobretudo, quando as massas comecem a se chocar com seu governo. Como assinalamos em nosso programa, “a fascistização dos regimes burgueses atinge a todos os países imperialistas e semicolônias, sob formas e ritmos diferentes”. E ainda: “fascismo e parlamentarismo são dois regimes de governo burgueses. Não há contradição quanto a seu conteúdo de classe, mas sim quanto às combinações de classe em que se apoiam e aos métodos para conter a luta de classes”. Está aí porque “O fascismo surge do parlamentarismo e da democracia burguesa, mas prescinde desses quando a luta de classes ameaça a dominação da burguesia”.
É essa “evolução” para a qual se devem preparar desde agora as massas, o que lhes exigirá construir sua direção revolucionária conquistando sua independência. Enfim, “A luta contra a direitização e as tendências fascistizantes da burguesia somente pode ser travada com os métodos da luta de classes. A revolução proletária é o meio para libertar as forças produtivas da camisa de força do capitalismo decadente, derrotar as tendências fascistas, e pôr fim às guerras e a toda forma de opressão”. Nesse sentido, a vanguarda marxista terá de travar a luta ao interior das greves e manifestações, que surgirão contra o avanço reacionário do governo, para dessa forma reorganizar as massas oprimidas sob as bandeiras e métodos históricos da luta de classes.