
O Internacionalista n° 35 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro 2026
Venezuela
Imperialismo ianque dá um golpe na Venezuela enquanto centristas condenam o governo chavista
Trump e os demais governos norte-americanos tentaram, ao longo de anos, intervir na Venezuela atrás das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, que, segundo a pró-imperialista e opositora de Maduro, María Corina Machado, os mais de 300 bilhões de barris podem valer cerca de US$1,7 trilhão. O próprio Trump deixou claro que seu objetivo é controlar a produção de petróleo venezuealano, que deve ficar nas mãos dos EUA. Para isso, se propõe governar o país desde fora, impondo sanções e intervindo militarmente. É nesse quadro em que os planos colonialistas dos EUA ficaram claros, que se deve avaliar qual a política proletária e, sobretudo, as das correntes que se dizem classistas, socialistas e marxistas.
As raízes objetivas do intervencionismo dos EUA contra a nação oprimida
Desde a ascensão de Hugo Chávez à presidência, em 1999, com a implementação de políticas nacionalistas-burguesas, e a manutenção dessas políticas pelo sucessor Maduro, ainda que mais fragilizadas, o regime nacionalista-burguês se distanciou das políticas abertamente pró-imperialistas e conseguiram apoio ocasional e circunstancial das burocracias restauracionistas da Rússia e da China, que se tornaram importantes parceiros comerciais e detentores da dívida venezuelana (em especial a China).
As diversas tentativas de golpes externos, ou promovidos ou com amplo apoio dos imperialistas norte-americanos, passam desde o governo de 24 horas de Pedro Carmona (2002), presidente da organização empresarial venezuelana (Fedecámaras) que destituiu o Congresso e Chávez; o apoio ao autoproclamado presidente Juan Guaidó (2019) que pretendeu governar o país desde o exterior; o desembarque do grupo de ex-soldados das Forças Especiais dos Estados Unidos para tentar sequestrar Maduro em 2020, na chamada “Operação Gideon”, entre diversas outras.
O governo chavista nunca foi capaz de romper completamente com o imperialismo, uma vez que sua política, mesmo que com ares anti-imperialistas, não passa de uma variante da manutenção da ditadura de classes da burguesia. Assim, as empresas mistas de exploração de petróleo venezuelano, como a Petroindependencia S.A., e as multinacionais, como a Chevron, continuaram a obter volumosos lucros para as frações da burguesia nacional daquele país e da burguesia imperialista, ainda que com certas limitações da Lei de Hidrocarbonetos de 2007, que impôs o pagamento de 33% de royalties para a PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A, empresa estatal) e 50% de imposto de renda para o Estado. Na época da promulgação desta lei, as gigantes americanas ConocoPhillips e Exxon Mobil se recusaram às condições impostas e foram expropriadas, sendo que as indenizações de US$8,7 bilhões e US$1,6 bilhões (respectivamente) foram parcialmente pagas.
O solo venezuelano também possui quantidades significativas de minerais essenciais para as indústrias de alta tecnologia e bélica, como terras raras, bauxita, coltão, diamante, ouro, entre outros. Está aí a raiz objetiva do bloqueio econômico imperialista à Venezuela, e seu apoio à oposição direitista e golpista, que não passou de um títere dos EUA em seu objetivo de tomar posse colonial de seus recursos. Nunca foi pela questão abstrata da democracia, e sim do objetivo imperialista de controlar completamente a extração e produção dessas riquezas. Sendo o regime chavista um obstáculo a esse objetivo, já desde a ascensão de Chávez, trabalhou pela sua derrubada. Esse é o percurso histórico sintético do que levou ao ataque militar e ao virtual golpe de estado realizado pelos EUA contra o governo de Nicolás Maduro.
O golpe imperialista de 3 de janeiro de 2026
Em sua campanha para retornar à Casa Branca, Trump demonstrava que atenderia os interesses da burguesia ianque em penetrar na Venezuela atrás de suas reservas petrolíferas, que representam 17% de todas as reservas conhecidas no mundo. Trata-se também de um desdobramento da guerra comercial entre EUA e China, já que o país latino-americano é dependente da exportação de hidrocarbonetos (88% da receita das exportações) e conta com o mercado asiático como o seu grande cliente, em especial o mercado chinês, que representa 80% de suas exportações de petróleo.
O ataque militar do imperialismo ianque em solo venezuelano no dia 03 de janeiro, que deixou ao menos 100 mortos, e que sequestrou o presidente Maduro e sua esposa, representa um golpe de estado cirurgico realizado pelo imperialismo para destituir um presidente que não se alinhava perfeitamente aos interesses da burguesia dos EUA, e assim obrigar ao regime a se subordinar a seus ditames
Rapidamente, Trump declarou que os norte-americanos irão governar a Venezuela de forma “interina”, e correu para abrir as portas às petroleiras norte-americanas que “começarão” a atuar e estarão “fortemente envolvidas” na indústria petrolífera. Logo, ficou visível até para quem estava de olhos fechados, que todo o discurso construído ao decorrer de 2025 sobre um suposto combate ao narcotráfico se escancarou como uma falácia para justificar o golpe externo na Venezuela. O Tribunal que realiza a farsa de julgamento contra Maduro descartou os cargos de narcoterrorismo por conta do suposto “Cartel dos Soles” ser uma invencionice. O presidente dos EUA ainda requentou a Doutrina Monroe abertamente, que tinha o lema “América para os americanos”, demonstrando claramente que pretende manter e ampliar a influência sobre a América Latina e realizar mais intervenções militares contra outros países.
Os imperialistas norte-americanos, correndo contra sua desindustrialização e a perda de sua hegemonia econômica, agora se apropriaram por meio da força militar e da ruptura de todos os pressupostos do direito burguês internacional, de recursos valiosos para o setor de energia (petróleo e derivados), para a indústria de alta tecnologia e bélica (minerais diversos, incluindo as chamadas terras raras). Mesmo já declarando que não irá cortar as exportações de petróleo da Venezuela à China, Trump e os ianques, diz Trump, estarão com o controle direto das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo e as irão vender segundo seus interesses. Os EUA ainda possuem acesso às imensas reservas de outros países, que estão mais ou menos alinhados aos interesses da burguesia imperialista norte-americana, como Arábia Saudita, Canadá, Iraque, Emirados Árabes Unidos, e o próprio Brasil.
Governos burgueses de Lula e da América são incapazes de se chocarem com o os interesses imperialistas em defesa das nações oprimidas
Lula se preocupou em “condenar” a “ação” dos EUA, propagandeando o multilateralismo contra o “unilateralismo” pela força. Ainda, para ele, a “afronta” à soberania da Venezuela deve ser respondida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Já vimos recentemente que a própria ONU não apenas resolveu não interferir em Gaza, como “legalizou” a colonização da Palestina pelos EUA e Israel. Na prática, Lula joga para um organismo imperialista para combater a intervenção, mas queque deixará fazer aos EUA a seu bel-prazer.
Algumas posturas e discursos de Lula até podem parecer progressistas, como quando não assinou a nota do Mercosul que pedia a “retomada da democracia” na Venezuela pelo texto não citar as “interferências externas”. Mas, assim como foi com o estado genocida de Israel, Lula não pretende romper relações diplomáticas e comerciais com os golpistas ianques, ou mover uma palha em defesa da soberania nacional venezuelana. Ao contrário, as recentes negociatas entre Lula e Trump se manterão de pé para entrega de recursos naturais, assim como as políticas pró-imperialistas do petista, como as privatizações, Arcabouço Fiscal, pagamento da dívida pública, etc.
Em ano de pleito eleitoral, Lula e o PT irão tentar se aproveitar de toda e qualquer situação para se promover eleitoralmente, como fizeram com o chamado “tarifaço”, quando começou a defender “soberania nacional” ao mesmo tempo em que privatiza rodovias, hidrovias, estatais (CBTU, Trensurb, etc.), sobretudo entregando-os nas mãos do grande capital internacional.
Os demais governos burgueses da América Latina que se pronunciaram criticando o golpe ianque na Venezuela, pouco ou nada fizeram mais do que se pronunciar. Gustavo Petro anunciou que movimentou a “força pública” para a fronteira entre a também ameaçada Colômbia e a Venezuela, mas apenas para receber possíveis refugiados já em território colombiano. Para ser verdadeiramente consequente contra as ameaças que recebeu de Trump, e do fato que a luta contra o narcotráfico deixou ser claro ser apenas uma farsa para intervir nos países, o governo colombiano devia expulsar de seu país às agências norte-americanas, expulsar seus diplomatas, fechar suas embaixadas e consulados, e rasgar os acordos com os EUA sobre narcotráfico.
A posição dos que se reivindicam do marxismo deve ser clara e consequente em combate ao imperialismo junto do governo sob ataque direto dos EUA
Certamente, Nicolás Maduro não representa a transição para o “socialismo bolivariano”, e nem uma via para a luta anti-imperialista. Contudo, o chavismo, uma variante no nacionalismo burguês, ainda que consideravelmente fragilizado se comparado à época de Hugo Chávez, impôs limitações ao imperialismo estadunidense dentro das fronteiras venezuelanas, atacou seus interesses comerciais dentro do país e manteve-se no poder No momento em que os EUA se prepara uma ofensiva belicista em escala planetária, as vias de remoção eleitoral do chavismo e os golpes internos foram trocados pelo intervencionismo direto e o roubo de suas riquezas naturais. O bloqueio econômico, medida típica da guerra comercial, deu passagem à intervenção militar e uma ofensiva colonial para a tomada de posse do país pela força direta.
Os centristas e reformistas de toda a América Latina se bem denunciam o imperialismo e defendem sua derrota, inclusive a libertação e retorno de Maduro e Flores à Venezuela, negam-se a combater ao lado do chavismo contra o imperialismo. Assim, correram para estampar suas políticas de “nem-nem”: nem Trump, nem Maduro. Condenam o presidente venezuelano por ser um “ditador”, portanto, se alinham ao discurso imperialista de eleições fraudulentas e, na prática, defendem a democracia burguesa como um fim em si quando essa “democracia” foi rasgada pela burguesia mundial. Nos fatos, se colocam na trincheira do imperialismo contra a nação oprimida.
Diante da agressão de um país imperialista contra uma semicolônia, para os marxistas pouco importa na conjuntura de ataque à nação oprimida um resultado das eleições para gerir um estado burguês. Importa compreender que o governo chavista, no caso, é uma expressão política burguesa da revolta da nação oprimida contra a opressão imperialista e os governos entreguistas. O marco da ascensão do chavismo foi o Caracaço que derrubou os governos pró-imperialistas, e abriu passagem à ascensão do nacionalismo-burguês – estando ausente a direção revolucionária do proletariado.
Essa avaliação é necessária para os marxistas colocarem no primeiro plano a derrota dos EUA, uma vez que sua vitória sobre a Venezuela representará o fortalecimento do imperialismo, enquanto sua derrota representaria o enfraquecimento do imperialismo, ainda que pontual, e uma via para que avance a luta das massas e se projete a política revolucionária. Está aí o porquê combater Maduro, ou qualquer governante que circunstancialmente se choque com o imperialismo, significa defender os interesses imperialistas e trair à nação oprimida. E isto não significa se submeter à política nacionalista fracassada, e nem se subordinar ao regime chavista. Significa combater junto dele enquanto se choca com o imperialismo, desenvolvendo a política de independência de classe que, chegado o momento, ajustará as contas com esse governo burguês.
Está aí o fundamento de combater conjunturalmente junto do governo contra o imperialismo, sem que os marxistas se subordinem ao governo burguês (esta é a posição do revisionismo contrarrevolucionário das correntes e partidos reformistas e stalinistas), mas, ao contrário, apoiar a fração das massas que encarnam a defesa da nação oprimida e, nesse sentido, estar ao lado do governo contra os EUA,exigindo e apoiando o seu armamento, inicialmente contra a nação opressora, atuando com demais setores das massas em uma frente única anti-imperialista; e, posteriormente, contra seu governo e sua burguesia.
As massas, armadas também com o programa marxista-leninista-trotskista da autodeterminação nacional baseada na ação direta das massas, abrirão caminho à revolução proletária e a instauração de um governo operário e camponês, expresso pela ditadura do proletariado.
