
O Internacionalista n° 35 / NACIONAL / janeiro de 2026
PSOL e a reeleição de Lula – Parte I
A Resolução Eleitoral do Psol é de capitulação ao PT e Lula
Nos primeiros dias de novembro, o Psol publicou dois textos que determinam sua linha política e objetivos partidários de colocar sua militância ao serviço da reeleição de Lula em 2026. São esses: 1) a Resolução Eleitoral e 2) o programa “Compromisso com o Futuro”. Nesta primeira parte de nossa crítica, focaremos na Resolução Eleitoral que apresenta de forma direta (sem a retórica abstrata “socialista” do Programa) o abandono de apresentar uma candidatura própria em favor da reeleição de Lula.
Segundo a Resolução Eleitoral (03/12/2025), o objetivo é a “unidade do campo progressista, desde o primeiro turno, em torno da disputa de Governo que represente o melhor nome para derrotar a extrema-direita”. A esse objetivo se deve subordinar a “projeção ou construção de figuras públicas” próprias para deputados e senadores – com a ressalva que devem ser “competitivas”. Eis como, sem um balanço do governo de Lula/Alckmin, a direção do Psol prepara a completa subordinação do partido ao PT e Lula.
A “Resolução” caracteriza ainda como correta a atuação do partido em 2022 visando a derrota eleitoral da extrema-direita, o que também estaria colocado em 2026. Diferentemente de 2022, o Psol renunciou antecipadamente a apresentar uma candidatura própria, restringindo seu objetivo à eleição de deputados e senadores por meio de esforços para ampliar o leque de alianças que permitam superar a “cláusula de desempenho” da legislação eleitoral.
Os principais objetivos da campanha eleitoral são: a) “disputar na sociedade uma agenda política em favor do povo”, b) estar “na linha de frente contra retrocessos” no Congresso e c) na defesa do “programa que foi aprovado nas urnas em 2022, compondo a base do governo Lula.” Cabe então ao Psol reconduzir o “campo progressista ao governo” e trabalhar pela “redução da representação da extrema-direita e do centrão no parlamento”. Nesse sentido, se propõe como tarefas 1) dedicar todos os esforços para a reeleição de Lula e levantar chapas próprias apenas nos estados; 2) apresentar qual seria o “arco de alianças” necessário para cumprir esse objetivo o que deverá ser ratificado pela conferência eleitoral e encaminhado pela Executiva Nacional ou a Direção Nacional; portanto, 3) estabelecer uma estratégia frentista nas “prioridades eleitorais” para superar a cláusula de barreira dos 2,5% dos votos válidos para o Congresso, distribuído em pelo menos 9 estados (com mínimo de 1,5% em cada um). Ligado a esses objetivos, se deve 4) manter o número de mandatos federais atuais e ampliar os estaduais do Psol.
A “Resolução” do Psol parte de uma caracterização oportunista de um amplo setor do reformismo democratizante que rejeita a luta de classe, e que foi elevada a suprassumo da estratégia política. Eis: a contradição fundamental ou principal da etapa se dá no campo da democracia burguesa, e opõe o “campo progressista” ao “campo reacionário”, ou seja, entre “democracia x fascismo” como gritaram a viva-voz todos os partidos democratizantes já desde 2018. Na Resolução do Psol, essa “contradição principal” é que determina a tática eleitoral. Nesse esquematismo democratizante, Lula representaria a “ala democrática” e “progressista”. O que significa dizer que a luta pela independência de classe do proletariado e demais oprimidos e sua estratégia revolucionária devem ser deixadas de lado, e somente colocadas como “perspectiva” para um futuro distante, sob a justificativa da “acumulação de forças” como a tarefa fundamental desta etapa. Trata-se da readequação da “teoria dos campos” erguida pelo estalinismo para apoiar as democracias capitalistas contra as ditaduras fascistas, e que significou a completa traição da luta de classes e da projeção dos processos revolucionários. Em última instância, os ditos “socialistas” e “marxistas” do Psol defendem que ainda são possíveis as reformas progressistas no capitalismo quando toda a experiência histórica recente demonstra todo o contrário.
Está aí porque a Resolução Eleitoral do Psol é um instrumento colocado ao serviço da preservação da ditadura de classe da burguesia sobre os explorados e oprimidos. Portanto, à manutenção das relações sociais e políticas que tem servido a burguesia para avançar às contrarreformas, a destruição de direitos, as privatizações, ao parasitismo financeiro etc. É essa política de capitulação ao petismo que provocou rupturas nos partidos que compõem o Psol, como se verifica no caso da Esquerda Marxista.
Claro que há também os “marxistas” que pretendem justificar essa capitulação e subordinação se acobertando na defesa retórica de uma tática adequada à conjuntura, a exemplo de Valério Arcary. Desde que rompeu com o PSTU pela direita, Arcary se transformou em um dos teóricos do passado “trotskista” que defende que se deve apoiar Lula já desde o primeiro turno em 2026. Vinha militando ostensivamente por essa posição antes mesmo da publicação da Resolução Eleitoral do Psol. Arcary (envernizado com retórica “socialista”) já tinha decidido militar abertamente pela capitulação desde setembro. Em nota de OI n° 31, mostramos que isso significava “negar a luta pela independência de classe”, adoptando a velha tática estalinista de apoiar o “bloco progressista” contra o “bloco reacionário”. Dizíamos ainda que o PT e o Psol “são expressões da política burguesa e aplicam medidas de interesse da classe burguesa a qual servem (…) legislam e governam para a burguesia”. Em nota de 3 de dezembro (mesmo dia da publicação da Resolução Eleitoral do Psol) Arcary afirma que não é objetivo do Psol intervir nas eleições para autoconstrução, e sim da “Frente de Esquerda com o PT”.
Há toda uma corrente teórica surgida da decomposição reformista dos partidos centristas que pretende justificar essa capitulação e traição contra os explorados: existe uma nova fase do capitalismo global marcado pela ruptura do “consenso liberal” e avanço da reação fascistizante. Assim, estaria posta a defesa da “democracia liberal” contra o avanço do “autoritarismo fascista” para defender os direitos e conquistas quando a revolução “não está colocada” e a “classe trabalhadora” é incapaz de erguer uma política própria. Esses reformistas e centristas democratizantes se negam a aceitar que as massas não avançam na luta de classes porque suas direções atuais as traem e iludem com promessas, porque abandonaram sua estratégia e métodos históricos, afundando no democratismo servil. Ou seja, fazem passar suas próprias traições, capitulações e degenerescência como de responsabilidade das massas.
As massas oprimidas participam nas eleições burguesas ou bem com indivíduos submetidos à dominação ideológica da burguesia, ou bem como força social coletiva independente e consciente de seus objetivos históricos, dependendo de suas direções políticas. Os reais antagonismos entre as classes se manifestam na medida em que os explorados e oprimidos avançam à luta de classes negando a democracia burguesa.
Após um ciclo de existência a parte do PT, o Psol retorna ao leito do reformismo petista iludindo um setor da vanguarda e das massas para que apoiem o programa antioperário e antipopular e pró-imperialista de Lula. Não será o Psol que se fortalecerá em seu projeto do “Socialismo do Século XXI” (definido assim em seu programa que trataremos em uma próxima nota), e sim o PT ao domesticar os antigos fraccionistas que o estilhaçaram. Eis porque o Psol abandonou toda pretensão de independência nestas eleições e decidiu se transformar em um braço político eleitoral do petismo e de Lula. A vanguarda deve dar-lhe as costas e rejeitar suas táticas que a leva à impotência e subordinação à burguesia.
Nas próximas eleições estará colocada como tarefa desenvolver a tática da unidade das massas ao redor do programa e dos métodos da luta de classes, da estratégia da revolução e ditadura proletárias. Ausente um verdadeiro partido bolchevique guiado por essas premissas da tática leninista para as eleições, e organizando um setor do proletariado e demais oprimidos sobre o objetivo da derrubada da burguesia e constituição do governo operário e camponês, está vigente a tarefa imediata da defesa do voto nulo programático contra os partidos burgueses e centristas que afundaram no democratismo.
