


O Internacionalista n° 35 / NOTAS OPERÁRIAS / janeiro de 2026
Com traição da direção da FUP e poucas “conquistas” efetivas, a maior greve dos petroleiros nos últimos 30 anos é enterrada
A greve deflagrada pelos petroleiros no dia 15 de dezembro de 2025 possuía muitas similaridades com a greve de 1995. A categoria buscava um Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) reivindicando reajuste salarial e manutenção de direitos. O governo burguês de Lula/Alckmin e a presidente da Petrobrás, Magda Chambriard, negaram manter os direitos dos trabalhadores previstos em ACT e se recusavam a conceder reajuste salarial e isonomia de vales refeição e alimentação aos efetivos e terceirizados. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) utilizou-se da lei antigreve (Lei nº 7783/1989) para determinar que 80% da categoria exercesse suas atividades normalmente; a categoria correspondeu, aderindo massivamente à greve, demonstrando sua disposição de luta; em diversas unidades da Petrobrás, a polícia foi acionada para reprimir os atos e piquetes, prendendo grevistas (incluindo o secretário geral do Sindipetro Caxias).
A greve se impôs como necessidade às direções burocratizadas que de tudo fizeram para a abortar pois, além do fracasso nas negociações com a patronal e a disposição de luta das bases, o salário médio anual dos trabalhadores da Petrobrás é um dos mais baixos entre as empresas concorrentes no mercado mundial de petróleo, e o arrocho salarial é intensificado anualmente, devido a política de reajuste salarial irrisória que mal cobre a inflação. Dados de uma pesquisa do ILAESE (Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos) apontam que a média salarial da Petrobrás caiu de US$98,5 mil ao ano, em 2011, para US$ 61,9 mil, em 2021, valores muito abaixo das médias salariais das petrolíferas Equinor (-67%) da Noruega, da britânica BP (-60%), da italiana Eni (-40%), Repsol (-30%) da Espanha, e da chinesa Cnooc (-14%). Essas condições impuseram a greve às direções governistas. Ainda, essa pesquisa aponta que apenas 5,66% da arrecadação da Petrobrás é direcionada ao pagamento de salários e benefícios aos trabalhadores. Enquanto isso, a empresa é uma das maiores pagadoras de dividendos do mundo, distribuindo os gigantescos lucros da empresa mista (público-privada) entre os acionistas. Entre 2019 e 2024, foram pagos mais de R$504 bilhões, e o seu “Plano Estratégico” (PE) para 2025–2029 promete pagar cerca de mais de R$330 bilhões aos detentores de suas ações na bolsa de valores. Destaca-se que, segundo dados da própria Petrobrás, cerca de 45% das ações estão nas mãos de estrangeiros, que possuem uma fatia majoritária do capital total e das ações preferenciais, ou seja, a burguesia nacional é sócia minoritária da burguesia imperialista. Ou seja, mostraram que é capital estrangeiro quem dita as condições em que se produz e os salários dos operários, visando aumentar seus lucros à custa do agravamento da opressão social e nacional.
Um problema para a greve foi que apesar da disposição de luta dos trabalhadores, e de reivindicações que unificavam os petroleiros efetivos e terceirizados, apenas os sindicatos (os “Sindipetro”) e as federações que representam os efetivos foram consequentes e convocaram as bases, apresentando a proposta de greve por tempo indeterminado. O divisionismo entre direções e sindicatos de efetivos e terceirizados demonstrou ser um bloqueio objetivo para impor uma derrota completa ao patronato.
A greve de 16 dias foi a maior desde 1995, em termos de tempo e adesão. Apesar da direção da FUP (Federação Única dos Petroleiros) ser dirigida pelo Partido dos Trabalhadores (PT), tiveram que se chocar com o governo petista de Lula, ainda que tenham mascarado esse choque, culpabilizando o setor de recursos humanos e a presidente da Petrobrás pelo fracasso nas negociações do ACT, fórmula parecida da FNP (Federação Nacional dos Petroleiros), dirigida pelo PSTU. No início da mobilização, ambas federações propagandearam a greve e defenderam fazer uma grande luta para conquistar todas as reivindicações, contudo, bastou uma proposta de migalhas do governo federal para que a FUP aprovasse o indicativo de aceitar, e pressionasse os sindicatos filiados a aceitarem o acordo coletivo e, assim, enterrar a greve em 22 de dezembro, largando uma parte considerável dos petroleiros ainda em greve por mais 08 dias, rompendo de forma criminosa a unidade da categoria. Houve sindicatos ligado à FUP que foram “dissidentes” (assim chamados pela FNP), como o Sindipetro Ceará/Piauí, Sindipetro Minas Gerais e o Sindipetro Caxias, que acompanharam a base da FNP e rejeitaram a proposta patronal.
Para as duas federações, a greve foi “vitoriosa”, contudo, quando se compara os termos do ACT assinado com as reivindicações que levaram aos assalariados a votarem nas assembleias pela greve, se percebe que pouco foi alcançado; por exemplo, no lugar do reajuste de IPCA+5,1% reivindicados, o aprovado traz um ganho real de apenas 0,5%, e nada foi conquistado para os terceirizados; não foi contido a distribuição de gastos administrativos da AMS (Plano Assistência Multidisciplinar de Saúde); não foi garantida a isonomia salarial e de direitos entre a Petrobrás e suas subsidiárias, entre outras. Assim, uma greve nacional de operários e demais assalariados, com ampla adesão e que poderia ter arrancado ainda mais, mas que é enterrada por uma direção que aceita migalhas, não pode ser considerada “vitoriosa” para o conjunto dos trabalhadores.
O papel traidor da FUP, que têm cerca de 80% dos petroleiros como base, deixando apenas 20% dos petroleiros (base da FNP) e três outros sindicatos (Sindipetro CE/PI, MG e Caixias) em greve por tempo indeterminado, significou romper a unidade dos trabalhadores e retirar a força da ação direta, redistribuindo a correlação de forças à favor do patrão.
Esta greve evidenciou a necessidade da unidade dos trabalhadores, não como desejo abstrato, mas como base social objetiva e material para enfrentamento à burguesia, ao governo, à justiça burguesa, etc. A criação da FNP pelos morenistas, em 2006, ainda que à esquerda dos reformistas, mostrou-se como um obstáculo para essa unidade, portanto, obstáculo à luta de classes. Se essa vanguarda não tivesse rompido oportunistamente com a FUP, poderia ter dado uma luta ao interior da maior concentração dos operários petroleiros filiados contra os reformistas e, talvez, conquistar uma força social mais ampla para evitar as traições dos governistas. Para Trotsky, “É indubitável que a unidade da classe obreira só pode realizar-se sobre bases revolucionárias. A política de frente única é um dos meios para libertar os operários da influência reformista e inclusive, em última instância, de avançar para a genuína unidade da classe operária”. A ruptura aparelhista do PSTU e a criação de um aparelho sindical aos serviço da política centrista (CSP-Conlutas) comparece em meio à greve dos petroleiros como um enfraquecimento das tendências classistas contra as direções direitistas burocratizadas e que, em última instância, favorecem os patrões.
Esta greve também foi marcada pelo fortalecimento das ilusões nas negociações e na justiça burguesa, ou seja, as direções desarmaram parcialmente os assalariados do método próprio do proletariado, a ação direta; assim, a greve foi limitada a piquetes e poucos atos, não avançando efetivamente na unidade com os ecetistas que também estavam em movimento paredista, e não avançando para uma maior radicalidade, como as ocupações das refinarias e demais locais de trabalho. Na prática, as direções da FUP e FNP (que chamou de “recuo tático”) rebaixaram as reivindicações dos trabalhadores, seja por uma traição mais aberta, ou porque se mantiveram em minoria e isolados na greve.
Um verdadeiro balanço crítico das direções deve ser feito em assembleia, para que a categoria assimile os erros e acertos desta campanha por ACT. Certamente, ficará evidente que algumas reivindicações devem ser aprofundadas, como a bandeira “Menos Acionista, Mais ACT”, colocando em voga a necessidade da completa estatização e reestatização de todo o sistema Petrobrás, sem indenização, sob controle operário. Para a isonomia salarial e direitos, é necessário ampliar a reivindicação para o fim da terceirização com estabilidade a todos os trabalhadores.