
O Internacionalista n° 36 / NACIONAL / fevereiro de 2026
Dança das cadeiras entre direitistas e ultradireitistas
Filiação de Caiado ao PSD de Kassab acirra a disputa entre direitistas e ultradireitistas pelas candidaturas
As disputas pelas nomeações eleitorais recém-começaram, mas já deixou claro que os explorados e suas reivindicações econômicas, os interesses da nação oprimida, enfim, a resolução dos problemas mais urgentes das massas passam muito longe das campanhas e manobras que se realizam para a estruturação de uma “legenda competitiva” capaz de garantir a vitória eleitoral em 2026.
Observa-se uma movimentação na esquerda e na direita dos partidos da ordem burguesa para a escolha de candidatos da campanha eleitoral de 2026. Nesta nota, iremos focar especialmente na “dança das cadeiras” e nas negociações que tomaram conta da direita e ultradireita. Se bem existe uma estratégia eleitoral comum visando avaliar as condições da constituição de uma frente ampla entre partidos direitistas e ultradireitistas capaz de derrotar o PT, inclusive recorrendo a corroer a base aliada da frente ampla que levou Lula à presidência em 2022 e que (até agora) tem sustentado sua governabilidade, essa estratégia choca-se a cada passo com as disputas intestinas pelo espaço que corresponde a cada fração dos partidos direitistas e ultradireitistas na formação das legendas e na nomeação dos candidatos.
Segundo pesquisas, Lula se imporia a Bolsonaro no primeiro turno: 35% a 20%, respectivamente. Se bem a candidatura de Flávio Bolsonaro compareceu como uma escolha ao núcleo duro bolsonarista, sobretudo, tendo em conta que uma candidatura por uma “terceira via” de Tarcísio ficaria abaixo de 9% se concorresse contra os dois candidatos. As pesquisas sinalizam ainda que qualquer nome fora da área de gravitação das decisões ou indicações de Bolsonaro terá muita dificuldade para se consolidar e passar para o 2º turno. Tampouco havia por parte dos bolsonaristas, sobretudo, dos filhos de Jair Bolsonaro, disposição nenhuma a ceder o caudal eleitoral constituído ao redor da figura de Jair para Tarcísio (ou qualquer candidato), por se considerarem seus “herdeiros” políticos diretos. Isso dificultava o objetivo de Tarcísio de constituir sua candidatura relativamente “independente” em relação ao “clã” Bolsonaro.
O mais provável é que Tarcísio vença a reeleição para governador com ampla vantagem no segundo turno – quaisquer sejam os adversários ligados a Lula e aliados mais próximos. Não obstante, apesar de Tarcísio ser o “queridinho” dos partidos da direita e do Centrão, e contar com grande apoio da mídia burguesa e setores importantes do grande capital, isso não lhe garante uma vitória sobre Lula. Tampouco se deve esquecer o peso de Jair Bolsonaro entre os eleitores reacionários e ultradireitistas. Condições que se impunham como um limitador às pretensões de Tarcísio para constituir sua candidatura com relativa independência e rejeitando o legado mais desastroso de Bolsonaro durante a pandemia. A polarização eleitoral que vem se desenvolvendo desde 2018 impede a qualquer candidato da direita e ultradireita desaproveitar os votos que Bolsonaro ainda arrasta. A experiência fracassada do ultra-bolsonarista Marçal em São Paulo o deixou bem claro. O que, contraditoriamente, ergue-se em um empecilho à formação de uma “frente ampla direitista” capaz de derrotar Lula já no primeiro turno. É provável que essa fosse a avaliação de Tarcísio para ir pela reeleição como governador. Um novo mandato poderá ainda ajudar Tarcísio a construir sua “futura” candidatura a presidente e, talvez, recolher os espólios do bolsonarismo – se sua tendência ao estilhaçamento se aprofundar.
É nesse quadro que é publicada a filiação de Caiado ao PSD de Kassab que está cotado como candidato a vice-governador de Tarcísio. Porém, o certo é que a movimentação de Kassab e Caiado é considerada uma facada nas costas por Tarcísio e, muito provavelmente, pelo bolsonarismo. Sabe-se que Caiado ainda cogita se apresentar como candidato no primeiro turno, o que poderia enfraquecer eleitoralmente ao “herdeiro” do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro, indicado pelo seu pai como seu candidato para 2026. Poderia ainda estilhaçar as tentativas bolsonaristas de fortalecer a candidatura de Flávio ao dividir votos contra Lula. Não se pode descartar (por enquanto) a apresentação de uma “terceira via” se se verifica “palatável” eleitoralmente. Provavelmente foi assim também avaliado por Tarcísio ao constituir uma ameaça a sua projeção eleitoral no futuro. O PSD passou a reunir entre suas fileiras a Ratinho Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Caiado (Minas Gerais), estados decisivos na hora de tomar decisões no armado e negociação de legendas e listas para legislativas e as presidenciais de 2030. Tudo está sendo feito para negociar apoio no 2° turno à legenda que ofereça ministérios ou fundos partidários em condições mais favoráveis.
Essa “dança das cadeiras” na direita e ultradireita é um produto indesejado (mas necessário) da designação de Flávio Bolsonaro como “herdeiro” de Jair Bolsonaro. O que abriu uma fenda com os governadores que viram suas esperanças de suas candidaturas serem apoiadas pelo “capitão” ir pelo ralo e se apressaram a atar laços com Kassab que lhes prometeu total liberdade de programa e campanha. Na política burguesa, as filiações são moeda de troca em procura de calcar e parasitar no estado. Eis porque o que hoje foi acordado, amanhã será rasgado por uma nova filiação ou coalizão eleitoral e política. Tampouco está completamente esgotada a vida política da frente ampla que levou Lula à presidência em 2022. As medidas direitistas, entreguistas, pró-imperialista e o “toma lá, dá cá” de Lula que favorecem capitalistas, agroindustriais, monopólios imperialistas e até partidos direitistas pode acabar servindo para atrair um setor do Centrão e da direita e garantir sua reeleição. Lula conta com um “capital” político que nenhum outro político burguês pode-se vangloriar, e que pode ser decisivo para a burguesia em determinadas conjunturas: controle e a subserviência de centrais e sindicatos.
Há ainda dois fatores que não se devem desconsiderar à hora de avaliar os “armados” de legendas e as brigas intestinas na direita e ultradireita: o sequestro de Maduro na Venezuela e as rachaduras entre a União Europeia e os EUA pela agressiva política comercial e expansionista do governo norte-americano. O sequestro de Maduro por um golpe militar impôs uma progressiva mudança à direita e de conciliação do governo chavista visando a sua sobrevivência. Acordos petrolíferos mais favoráveis aos EUA indicaram que pode ser possível Lula fazer mais concessões (como a entrega da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, privatização do tapajós em benefício da Cargill, novos acordos comerciais para exploração preferencial de minerais críticos etc.). Mas, sobretudo, alertou um setor da agroindústria dos riscos de um governo direitista decidir romper com a China, como exigido pelos EUA, e perder o maior parceiro econômico do país e garante de seus elevados lucros. Por outro lado, o “pré-acordo” Mercosul-EU ampliou o destino de exportações que se viram atingidas pela taxação arbitrária do ano passado feita por Trump. Não é improvável um novo acordo comercial mais “favorável” entre os EUA e o Brasil. A esse objetivo é orientada a visita de Lula a Trump, programada para março.
Essas movimentações e manobras em meio a uma conjuntura eleitoral ainda em definição, tem por pivô a prisão de Bolsonaro e a relativa “normalidade” com que foi aceita pela direita e ultradireita. Não duvidamos que é uma resposta condicionada pelas pesquisas de opinião que, majoritariamente, são favoráveis à prisão dos envolvidos na aventura golpista de janeiro de 2023. Não havia como a direita e ultradireita se arriscar a uma campanha pela absolvição imediata de Bolsonaro e dos generais que encabeçaram essa ação. Se bem no Congresso tramita, e provavelmente será aprovada, o “PL da Dosimetria”, os cálculos da direita e ultradireita é deixar rolar o processo no Congresso e, mais à frente, a depender do resultado eleitoral, fazer uma ofensiva mais decidida pela sua libertação. Por enquanto, trata-se para candidatos da direita tentarem parasitar da base eleitoral bolsonarista e fazer continência ao “legado” de Bolsonaro, mas sem se comprometer demais. É esse oportunismo fisiológico que explica as rachaduras nas tentativas unitárias entre direita e ultradireita para derrotar Lula.
Está aí porque a manobra de Kassab se apresenta como um “globo de ensaio” para avaliar condições de uma legenda direitista além do “clã Bolsonaro”. Sobretudo, tendo em conta a profunda e massiva rejeição que esse mantém entre grande parte do eleitorado e setores do empresariado. De forma que até a corrida eleitoral não se esclarecer veremos uma caravana de candidatos afirmando “fidelidade” ao legado Bolsonaro e, ao mesmo tempo, tentativas de “criar espaço” uma proposta à revelia do núcleo duro do bolsonarismo. Com Kassab, os candidatos dispostos a fazer a experiência e ganhar projeção, acham no PSD uma legenda favorável à experimentação. Se essa aposta irá render frutos, dependerá do percurso da situação política mundial e da luta de classes. São esses dois fatores os que decidirão a sorte (e destino) de mais uma tentativa de erguer uma candidatura da “terceira via”.
A situação de “excepcionalidade” da figura de Jair Bolsonaro na política burguesa como figura que arrasta os votos de um setor mais atrasado e reacionário não é transferível, como tampouco é a influência e ascendência eleitoral de Lula transferível automaticamente aos que ele designe eventualmente como seus “sucessores”. No Brasil, esse caudilhismo é ainda uma herança da constituição oligárquica das relações econômico-sociais que moldaram a política burguesa no Brasil em que poder econômico regional significava controlar politicamente a base eleitoral das regiões de forma direta por meio de alianças, benesses e laços de sangue. Jair Bolsonaro nem é burguês e nem provém de uma família de oligarcas, mas soube constituir uma rede de apoios e alianças com setores da pequena burguesia e da burocracia estatal como mandos das forças armadas, forças e comandos policiais, pequenos e médios comerciantes, funcionários públicos e até grandes capitalistas. A também serviu ao fortalecimento de uma fração da burguesia e pequeno-burguesa criminosa, a exemplo de milícias e contrabandistas de todo tipo. O espírito de “clã” da família Bolsonaro é uma expressão deformada das relações oligárquicas e, sobretudo, a revolta de um setor dos assalariados e da pequena burguesia que adoptaram uma posição reacionária em defesa de suas condições de existência. Não é por acaso que seu apoio entre a burguesia não é homogêneo e nem permanente. Setores burgueses que o apoiaram em 2018, passaram a apoiar Lula em 2022. O desgaste e profunda impopularidade para fim de seu mandato fez a maioria da burguesia apoiar a “frente ampla” burguesa que levou Lula à presidência.
A cômoda posição de Lula à cabeça das pesquisas eleitorais fortalece o discurso dos petistas, stalinistas, reformistas e centristas que já começaram a trabalhar pela reeleição do caudilho do PT (ver pág. 6 a 8). Mas, falta muito caminho a ser percorrido pela frente para que a candidatura de Lula acabe em vitória. Uma mudança pode vir, como assinalamos, de uma ofensiva do governo trumpista contra as nações oprimidas ou para influir nas eleições, como já fez em Honduras (ver OI n° 35) ou de um salto na luta de classes em que as massas, em luta pelas suas reivindicações, se choquem com o governo que avança na destruição de direitos (Contrarreforma Administrativa, por exemplo), privatista e pró-imperialista (ver pag. 24). O que pode inclinar à burguesia a garantir um governo mais ditatorial para impor seus interesses e garantir seus lucros. O que sim exigirá a burguesia qualquer seja o governo burguês eleito é que avance aos ataques contra as condições de vida das massas exploradas e oprimidas.
Esse é o verdadeiro perigo para as massas que acabam mais uma vez arrastadas pela disputa inter-burguesa. A experiência dos governos petistas demonstra que todos os governos são serviçais da burguesia e do imperialismo. As eleições de 2026 chamará os explorados a escolher entre dois “modelos” ou, melhor dizendo, dois métodos e duas táticas diferentes para administrar os interesses da burguesia. Por outras palavras: decidirão qual será a aliança de governo que irá gerenciar seus negócios.
A tarefa dos revolucionários é esclarecer perante a vanguarda e as massas que nada favorável sairá dessas eleições para seus interesses e necessidades. Portanto, desenvolver a tática eleitoral leninista pela defesa da unidade das massas ao redor do programa e dos métodos da luta de classes, da estratégia da revolução e ditadura proletárias que, nas condições em está ausente um verdadeiro partido bolchevique organizando um setor do proletariado e demais oprimidos sobre o objetivo da derrubada da burguesia e constituição do governo operário e camponês, nos obriga à defesa do voto nulo programático contra os partidos burgueses e também os centristas democratizantes.
