


O Internacionalista n° 36 / NACIONAL / fevereiro de 2026
PSOL e a reeleição de Lula – Sobre o programa “Socialismo do século 21” – Parte II
PSOL aprova um programa democratizante burguês
No jornal O Internacionalista n° 35 (janeiro de 2026) publicamos a primeira parte de nossa demonstração de como o PSOL se subordinou completamente aos objetivos eleitorais do PT e Lula. Na sua Resolução Eleitoral (03/12/2025) renunciava à candidatura própria, pondo o partido ao serviço da reeleição de Lula, transformando o PSOL em “um braço político eleitoral do petismo e de Lula” e um “instrumento colocado ao serviço” da ditadura da burguesia. Nesta nota apresentamos alguns dos pontos do programa “Socialismo do século 21” publicado no mesmo dia da Resolução. Não faremos a exposição da crítica na sequência dos pontos do “programa”, e sim pela relação lógica e dialética entre os conteúdos de cada um deles. Assim, nesta nota, avaliaremos a sua caracterização da etapa, que tipo de partido e qual seu conteúdo de classe e quais seus princípios nos que se baseia. Em próximas notas, continuaremos com a caracterização do país, a plataforma de reivindicações e bandeiras de luta.
1. Sobre o partido
O Programa caracteriza o Psol como um partido baseado na “construção de uma estratégia socialista pautada na democracia e na liberdade”. Com esse objetivo, participa dos “movimentos sociais contemporâneos em defesa do feminismo, da luta antirracista e anticapacitista, da comunidade LGBTQIA+, dos povos indígenas, de ambientalistas e dos direitos humanos.” Defende ainda “a independência política do PSOL” o que, porém, “não significa negar a busca pela mais ampla unidade com partidos ou movimentos que compartilhem de uma perspectiva estratégica comum”.
O que se denomina de “movimentos sociais contemporâneos” são aqueles baseados nas elaborações de uma fração democratizante da academia burguesa que ergueu a tese de que seria possível resolver as diversas manifestações da opressão de classe pela via das reformas dentro do capitalismo. Movimentos que visavam a resolver os problemas (econômicos, civis e políticos) de uma camada da pequena burguesia pela via eleitoral e institucional, renegando da revolução como a única forma de acabar com as manifestações da opressão e discriminação sobre as mulheres, homossexuais etc. Esses movimentos se tornaram um campo fértil ao eleitoralismo burguês. Talvez seja por isso que o PSOL não faz qualquer referência no ponto sobre o partido do “programa” ao objetivo estratégico de se constituir como fração revolucionária no proletariado na luta pelo poder. Não é por acaso que nos sindicatos prioriza as reivindicações democratizantes burguesas sobre as transicionais e socialistas.
O PSOL abandonou seu objetivo de priorizar as frentes eleitorais com partidos que compartilham a “perspectiva estratégica comum” do socialismo – ainda que abstrato. Subordinou-se ao governismo que pratica a política burguesa e defende a ditadura de classe capitalista. Transformando-se em um braço político eleitoral do PT e Lula, o PSOL enterrou “a independência política do PSOL” e, ao mesmo tempo, se negou a buscar a “mais ampla unidade com partidos ou movimentos que compartilhem de uma perspectiva estratégica comum”. Quando afirmas que o partido “amadureceu” construindo “alianças políticas” (até com partidos direitistas), se deixa claro que a declaração da “unidade estratégica comum” se realiza com partidos burgueses, não como os pretensos socialistas. Eis como se revela o verdadeiro programa do PSOL: a construção de um aparelho para a disputa eleitoral burguesa abrindo mão de seu “compromisso com a radicalidade socialista”. A Resolução Eleitoral (tática) é seu verdadeiro programa.
2. Sobre os “Princípios”
Para o Psol, o socialismo “é um modelo econômico, político e social” e “uma alternativa estrutural” ao capitalismo. Segundo explica, o controle social da produção da riqueza e sua distribuição “deve estar alicerçado na democracia, na liberdade, na solidariedade, na oposição a todas as formas de opressão e exploração, na mobilização popular, no internacionalismo, no anti-imperialismo, na independência política de classe, assim como na defesa do meio ambiente e da soberania nacional.” Para isso, se deve vincular as “lutas imediatas e concretas a um horizonte mais amplo de transformação social” que só será possível “assegurando uma democracia radical, onde a liberdade possa ser exercida plenamente, com respeito ao próximo e compromisso com uma sociedade justa para todas as pessoas”. Explica ainda que a democracia que defende é de “pluralidade”, “participação popular”, “da representatividade dos diferentes setores sociais, do controle social sobre o Estado, da independência entre os Poderes” etc.
O socialismo é um regime político e de relações econômicas e sociais transitório entre o capitalismo e o comunismo, entendido como fase inferior do comunismo. Nele, o proletariado exerce sua ditadura de classe expropriando a burguesia para sentar as bases econômicas para essa transição: a propriedade nacionalizada. A democracia é exercida e realizada para as maiorias exploradas e oprimidas em seus organismos de classe, mas é uma ditadura para a burguesia, oligarcas financeiros, latifundiários etc. A ditadura do proletariado exclui a ampla e irrestrita liberdade para a burguesia e proprietários de fábricas, terras, minas etc. Para firmar o novo estado, a resistência das classes exploradoras deve ser esmagada – inclusive recorrendo ao “terror vermelho”. É falso afirmar, portanto, que se assegurará “uma democracia radical, onde a liberdade possa ser exercida plenamente”. Mas, como vemos, o PSOL rejeita defender essa estratégia e prefere as abstrações para conciliar interesses de classe contraditórios que estão presentes na sua base eleitoral: ou seja, para não assustar seus votantes e “aliados” eleitorais.
3. Caracterização da “etapa histórica”
Para o PSOL, a nova etapa histórica é marcada pela “crise e transformação do capitalismo global” no qual o “consenso neoliberal” foi rompido, expondo “as contradições de um sistema baseado na financeirização, na desregulamentação, na abertura irrestrita dos mercados e no desmonte sistemático dos direitos sociais e trabalhistas”. Esse curso foi aprofundado com “ajustes recessivos, com cortes em investimentos sociais, precarização das relações de trabalho” etc. Essa é a “resposta conservadora … ao conflito distributivo”, que teve seu reflexo na erosão das “democracias liberais” e “o florescimento de forças políticas reacionárias”. De forma que a ascensão da “extrema-direita é uma de suas expressões”, que avança associada “aos interesses do capital monopolista” e “oferece um modelo de capitalismo autoritário, xenofóbico, misógino, racista e negacionista climático, em choque frontal com qualquer noção substantiva de democracia”. Sobre a base dessa caracterização, acusam aos setores da “esquerda radical” que tem “concepções anacrônicas” ou se colocam em choque com os governos burgueses ditos progressistas, como o de Lula, porque mesmo os governos que não ameaçam “diretamente a continuidade do crescimento da renda do capital, mas que conseguiram promover expansão econômica com alguma redistribuição e redução da desigualdade, tornaram-se inaceitáveis para essas elites”.
A suposta “nova etapa histórica” capitalista é uma negação da tese leninista do imperialismo como fase superior e última do capitalismo, que somente pode ser superada com o início da transição para o socialismo por meio da revolução proletária. Negar isso é se colocar no lado antagônico da luta por “uma alternativa estrutural” ao capitalismo. É ainda uma falsificação dizer que “ajustes recessivos, com cortes em investimentos sociais, precarização das relações de trabalho” seja a “resposta conservadora … ao conflito distributivo” da extrema direita. Com esta falsificação, o PSOL dá a entender que os governos ditos progressistas, como o de Lula, não representam “os interesses do capital monopolista”.
A acusação à “esquerda radical” acoberta a capitulação ideológica e teórica, portanto, política do PSOL, à tese de que é possível reformar o capitalismo e, nesse sentido, se deve apoiar os governos que promovem a “expansão econômica com alguma redistribuição e redução da desigualdade”. Nessa passagem, acha-se oculta a caracterização do governo Lula como “progressista” em oposição à direita. Então, cabe à esquerda apoiar o “bloco progressista” contra o “bloco reacionário”. Assim, o PSOL acoberta Lula pelo que ele realmente é: um agente político da burguesia – ainda que diferente de Bolsonaro por seus métodos. Não é por acaso que aplica as medidas ditadas por essa contra os interesses da nação e das massas oprimidas. E é a própria democracia burguesa o atual instrumento para impor as contrarreformas, destruição de direitos, desnacionalizações e retrocessos às liberdades civis, políticas e democráticas exigidos pelo grande capital. Ao afundar no servilismo eleitoral a Lula, o PSOL dá um passo decisivo em sua transformação em quinta coluna da ditadura de classe da burguesia.
4. Uma “Nova classe trabalhadora”
À “nova etapa” do capitalismo corresponderia, para o PSOL, uma mudança na “composição da classe trabalhadora” produto da “desindustrialização relativa, precarização estrutural …e uma revolução técnico-científica comandada pelo capital”. Essa “mudança acelerada na composição orgânica do capital, marcada pelo aumento da produtividade resultante da substituição do trabalho vivo por máquinas” reforça a “exploração e aprofundamento das desigualdades”. Diz ainda que “o papel das big techs adquire centralidade estratégica tanto na perspectiva do Estado, do direito à comunicação e da soberania … quanto na dimensão do mundo do trabalho e das subjetividades das classes trabalhadoras”. As “plataformas digitais e a revolução técnico-científica … fragmentam os processos produtivos, aumentam a exploração e quebram as identidades e a experiência de classe”, além de mudar as relações “para milhões de trabalhadores por conta própria”. E criam “o terreno ideal para a adesão à retórica neoliberal e para o crescimento da extrema-direita, que tem nas próprias plataformas seu principal campo de ação e doutrinação”. Nesse cenário, assinala, se deve lutar “pela regulação democrática destas corporações e pela construção de uma infraestrutura tecnológica soberana e pública”.
É falso afirmar que houve uma mudança na composição da classe operária que produz mais-valor sob a forma de meios de subsistência e os meios de produção na forma da mercadoria, que é o veículo material da mais-valia arrancada a essa classe na produção social. Seu papel na produção de valor objetivado nas mercadorias é que a define como aquela que produz a riqueza social da qual outras classes e camadas de classes retiram seus meios de existência. Os assalariados do comércio, dos serviços, do funcionalismo etc. compõem o proletariado – considerado como aquele que vende sua força de trabalho – mas não criam mais-valia (o produto mais genuíno da produção capitalista).
Essa diferença é essencial para saber qual classe ou fração de classe é colocada como sujeito revolucionário principal da revolução e da construção do partido. O PSOL apaga as diferenças entre as frações do proletariado em geral para construir um partido que dilui essas diferenças, visando a sua constituição como base eleitoral de um partido democratizante e não expressão dos objetivos do operariado como classe revolucionária por excelência. Portanto, a suposta “mudança nas classes trabalhadoras” não tem outro objetivo que justificar a construção do partido no interior de movimentos não-proletários que são mais palatáveis ao desenvolvimento da estratégia democratizante burguesa.
Quanto às “plataformas digitais”, o essencial é considerá-las como uma quota parte do capital ou riqueza social criado pelo proletariado na produção social e que, no capitalismo, são propriedade privada burguesa monopolista. Para combater a “retórica neoliberal e o crescimento da extrema-direita” veiculada nas Big-Techs, se deve, assim, abandonar a farsa reformista e avançar na luta pela expropriação da burguesia e da destruição de seu estado. Não haverá controle democrático das massas sobre qualquer meio de produção sem a expropriação da burguesia como classe, e a posse coletiva desses meios pelo proletariado como classe dominante organizada em seu estado. A posição do PSOL a respeito é a de iludir às massas com a democratização do funcionamento do capitalismo e, no caso, de seus veículos de reprodução da ideologia das classes dominantes. É o controle coletivo dos trabalhadores e a propriedade nacionalizada pela revolução proletária a única via para “democratizar” de fato a produção de notícias, conhecimentos, conteúdos, informações etc.
Uma primeira conclusão ao programa do PSOL
Um programa socialista deve caracterizar o conteúdo de classe do governo, qual a classe se pretende organizar como sujeito político e colocar as tarefas, métodos e táticas para avançar na luta contra a burguesia e seu governo de turno. Mas, o PSOL: a) não caracteriza o governo como uma expressão política da burguesia; b) subordina à luta das massas por suas reivindicações e estratégia de poder à disputa eleitoral inter-burguesa e à burguesia como classe; c) justifica seu servilismo ao PT e Lula sob a farsa da “nova etapa” do capitalismo que oporia à “democracia liberal” ao fascismo; assim, d) reproduz a política contrarrevolucionária social-democrata de reformar o capitalismo e da Frente Popular stalinista; e) se orienta a intervir nos “novos movimentos” visando os utilizar como caudal eleitoral; e f) se subordina aos interesses de um governo burguês que aplica as contrarreformas e privatizações, entrega recursos à exploração monopolista, submete o país ao parasitismo financeiro etc.
Se se defende o socialismo se deve defender a revolução proletária baseada na violência revolucionária das massas. O PSOL tampouco defende criar as condições da revolução ao interior do capitalismo por meio de um sistema de reivindicações transitórias que é a ponte entre as “lutas imediatas e concretas a um horizonte mais amplo de transformação social”. Nos sindicatos que dirige ou naqueles em que se subordina à burocracia petista, as correntes do PSOL acabam compactuando com as reivindicações rebaixadas e aceitam o retrocesso de direitos em nome da governabilidade burguesa de Lula. Chegam até participar das traições contra as greves que se chocam com esse.
Resumindo: o programa do PSOL é o prato requentado do reformismo da socialdemocracia alemã e da política frente-populista de subserviência à burguesia como classe, subordinando “as lutas imediatas e concretas” aos objetivos e alianças eleitorais. A luta de classes, a revolução proletária, a expropriação da burguesia e a instauração da ditadura proletária são trocadas pela “convivência pacífica” entre as classes sociais reguladas “democraticamente” por um governo surgido da democracia burguesa. Nos fatos, o PSOL adota uma política burguesa abandonando os princípios, métodos e táticas socialistas.
Outros pontos do programa iremos desenvolver em uma próxima nota. Mas, destacamos que desta primeira análise verifica-se que o programa do PSOL copia o “Socialismo do Século XXI” elaborado pelo MAS e pelo chavismo. Isto é, a aplicação da tática eleitoral democratizante pequeno-burguesa de preservação do capitalismo pela via de sua democratização por meio de reformas adaptadas à subserviência ao PT e seu caudilho aburguesado no poder do estado. O texto “Socialismo do século 21” serve apenas para enganar à militância do PSOL e a um setor da vanguarda iludida com as eleições.