


O Internacionalista n° 37 / março de 2026
Editorial Internacional
A barbárie desatada pelos EUA-Israel no Oriente Médio abre o prólogo de uma guerra internacionalizada
O imperialismo estadunidense avança à centralização ditatorial e militar das relações políticas mundiais. As manobras e discursos das burocracias russa e chinesa não as livrarão dos perigos da guerra. Só o proletariado organizado sob seu programa pode dar uma saída progressista à barbárie.
O ataque contra Irã desfechado pela gangue EUA-Israel, em 28/02/2026, talvez seja reconhecido no futuro como o início do caminho de uma nova guerra mundial. Isso não significa, evidentemente, que irá acontecer irremediavelmente. Pode ser estabelecida uma trégua, caso a derrubada do regime não prospere como almejado e os EUA não consigam manter o ritmo dos ataques sem começar a ser atingido econômica e politicamente. Se derrubado o regime iraniano, se avançará a imposição de um governo títere ou na submissão dos remanescentes do governo iraniano. Qualquer que seja o desfecho, está sendo traçado o caminho de um potencial choque bélico entre do imperialismo com a Rússia e a China.
O sequestro de Maduro e a imposição aos remanescentes do governo chavista pela força de uma virtual adaptação aos interesses norte-americanos, deixando suas gigantesca reservas de petróleo em mãos dos EUA; a asfixia criminosa sobre Cuba; a tomada do Canal de Panamá deslocando os chineses de seu controle; o golpe institucional no Peru visando estrangular os interesses chineses no país e tomar por assalto o controle do maior porto marítimo que provê de recursos imprescindíveis à China; a instalação de bases estadunidenses na Argentina, Equador e Paraguai; a aprovação da Lei de Glaciares e a entrega de recursos minerais da Argentina ao governo dos EUA e a União Europeia; o avanço no saque das economias semicoloniais e das contrarreformas que servem ao deslocamento de maiores fatias da mais-valia mundial para as mãos do imperialismo, dentre tantas outras medidas, permitem aos EUA aumentar a opressão e o saque das massas oprimidas, revitalizando conjunturalmente a economia moribunda dos EUA e financiar parasitariamente a maquinaria de guerra ao injetar dezenas de bilhões de dólares na indústria militar e nas Big-Techs norte-americanas. Eis como o imperialismo sobrevive e alimenta seu poderio militar saqueando e empobrecendo o mundo todo.
Guerra comercial, golpes de estado, bloqueio econômico, desestabilização, sequestro de presidentes e guerras constituem o arcabouço de medidas que utiliza o imperialismo para impor seus ditames e controle sobre países, governos, recursos e rotas comerciais. O genocídio em Gaza visando se apossar das terras, riquezas e territórios palestinos por meio de seu braço sionista é o grau mais alto dessa barbárie calculada e operada para servir à recomposição dos negócios monopolistas e da taxa de lucros. Desde a Venezuela até o Irã, há um elo de continuidade que encadeia as movimentações do imperialismo. O seu objetivo último é destruir Rússia e China e reconstruir suas economias sob controle imperialista.
O Irã é uma peça no tabuleiro das movimentações dos EUA para obter um controle quase absoluto sobre fontes de energia e provisões de petróleo e gás que estão na base da alta produtividade e crescimento econômico da China. O Irã é ainda uma peça chave na chamada Rota da Seda e no controle das rotas marítimas da Ásia. Se prevalece o poderio militar estadunidense e não há qualquer auxílio da Rússia e China ao Irã, mais se fortalecerão os EUA em seu cerco à China, mas também à Rússia. É criminosa a atitude passiva de não ajudar militarmente o Irã a resistir à investida dos EUA.
As burocracias russa e chinesa acreditam que sem intervir e deixando o Irã golpear a infraestrutura militar e econômica dos EUA, esses serão golpeados pela crise econômica e a “falta de legitimidade” internacional de suas ações, e assim se acharão em melhores condições de resistir à ofensiva sobre suas fronteiras nacionais. Essa estratégia mostrou-se falha com o pacto Molotov-Ribbentrop entre a URSS e Alemanha nazista, e teve de ser corregida ao preço de quase a ofensiva alemã ameaçar destroçar a URSS. Mostrou-se falha durante pós-Segunda Guerra Mundial quando as burocracias estalinistas ergueram a tese da “convivência pacífica” e abandonaram à própria sorte processos revolucionários. Não será tampouco agora que o imperialismo está decidido a impor a sangue e fogo seus interesses que dará certo. Contra tudo o que ensina a experiência e as mentiras e falsidades dos EUA, as burocracias russa e chinesa continuam acreditando que bastará não intervir ou negociar com os EUA para que os estados operários degenerados sejam preservados dos apetites imperialistas. Cada vitória dos EUA os fortalece e aproxima de seu objetivo: destruir as propriedades nacionalizadas pelas revoluções e restaurar o capitalismo na Rússia e na China. A derrota desses afundaria o mundo na “pax imperialista”, ou seja, na brutal opressão social e nacional do mundo todo por um punhado de grandes oligarcas capitalistas.
A guerra aberta pelos EUA para estender seu domínio sobre Ásia e Oriente Médio está ao serviço dos interesses dos monopólios capitalistas da indústria civil, tecnológica e militar, fundamentalmente. Para garantir seus lucros as massas deverão ser sacrificadas em seus direitos e condições de vida. O aumento exorbitante dos preços da energia como resultado da guerra internacionalizada no Oriente Médio ameaça destruir os mercados e elevar os custos de produção a valores muito superiores dos que podem ser absorvidos. Uma onda de contrarreformas deve ser impulsionada para exaurir até o limite as massas do mundo todo e garantir os lucros capitalistas nessas condições. A miséria e pobreza se alastrarão e se alavancará o perigo para as burguesias da luta de classes. Mas, isso significa também alavancar a luta de classes que, com diferentes ritmos e métodos, começa a se manifestar também nos EUA.
Ocorre que a situação dos EUA está muito longe de ser estável. Estancamento econômico e gigantismo bélico destroçam progressivamente a relativa pacificação social interna alcançada em décadas passadas ao preço de roubar e oprimir o mundo inteiro. Quanto mais EUA se projeta militar e destrutivamente pelo mundo todo, mais introduz nas bases dos EUA as condições da implosão da luta de classes. A inflação continua em ascenso e são destroçadas a cada ano as condições de vida da população. O dólar está em queda e não se reverteu a desindustrialização e perda de competitividade da economia norte-americana. A guerra comercial não tem rendido os frutos almejados e cada nova tarifa golpeia mais duramente o consumo interno e afeta as cadeias logísticas da produção. A estagflação se projeta como um fenômeno estável, parcialmente compensado pela violenta extração de mais-valia mundial por meio da guerra comercial. A isso soma-se os escândalos de degradação moral da grande burguesia e burocratas do governo. Situação que pode fazer saltar pelos ares todos os objetivos traçados pelo governo Trump se não conseguir estabilizar a convulsiva situação política mundial e nacional.
A centralização ditatorial já ganha forma mais violenta nos EUA: intervenções nas nações oprimidas, assassinato ou sequestro de lideranças de governos estrangeiros, declarações de guerra sem aprovação do Congresso e na militarização dos estados governados por democratas e na montagem ostensiva de um estado policial orientado a reprimir as dissidências políticas e as minorias nacionais e étnicas. Nesse sentido, não se deve menosprezar as tentativas de Trump para modificar os colégios eleitorais dos estados e, assim, fraudar uma vitória republicana. Tampouco a possibilidade desse adiar – ou até cancelar – as eleições legislativas sob justificativas das mais diversas. Se isso se confirmar, estaremos assistindo à progressiva mudança de um regime semi-bonapartista em bonapartista, à ditadura aberta de uma gangue de capitalistas associados à alta burocracia: um “fascismo ao estilo norte-americano.
A guerra contra o Irã ameaça destruir o equilíbrio instável que foi erguido nas últimas décadas. Presenciamos o prólogo de uma nova guerra mundial em curso de desenvolvimento, que enfrenta o imperialismo norte-americano, chefiando a gangue dos mais desprezíveis capitalistas e governos burgueses, contra os estados operários degenerados, sobretudo, a Rússia e China, bem como contra as nações oprimidas que conquistaram uma limitada soberania nacional ou bem contam com recursos cobiçados pelos monopólios e o capital financeiro. Essa é o fator decisivo da situação política mundial que deve ser séria e responsavelmente avaliada pela vanguarda com consciência de classe, e dessa forma elaborar a orientação política, definir os métodos e as táticas que permitam transformar a corrida para o precipício ao que empurra capitalismo em uma revolta mundial das massas oprimidas que abra o caminho à estratégia e programa revolucionários do proletariado. Qualquer desvio ou ilusão nas instituições e democracia burguesas resultarão em submissão das nações e massas oprimidas, e reforçarão o controle das direções sindicais e políticas que servem de correia de transmissão aos interesses imperialistas. Mais urgente do que nunca é a tarefa de construir os partidos e os movimentos de massas verdadeiramente revolucionários. O proletariado tem de se erguer e desenvolver a luta de classes pelo seu próprio poder por meio da guerra civil contra sua burguesia. Se o proletariado não reagir com sua estratégia e política, a barbárie social afundará a humanidade em um beco sem saída.