O Internacionalista n° 37 / NOTAS INTERNACIONAIS / março de 2026

Parte dos estadunidenses se levantam contra as prisões arbitrárias e as execuções de imigrantes, contudo, as massas precisam encarnar os métodos próprios do proletariado em sua defesa e sua estratégia


O ICE (Immigration and Customs Enforcement, traduzido como Serviço de Imigração e Alfândega), foi criado em 2003 pelo então presidente George W. Bush, unificando os antigos serviços de alfândega e imigração dos EUA no contexto da invasão ao Iraque. O objetivo era centralizar as forças policiais especializadas em inteligência e operações contra imigrantes. Formalmente, possui foco em repostas táticas a violações alfandegárias, fiscalização da imigração, prevenção do terrorismo e do narcotráfico, sem substituir a Patrulha de Fronteira (Customs and Border Protection – CBP), ou seja, se dedica às ações chamadas de “domésticas” (já dentro das fronteiras estadunidenses), por meio de seus dois principais departamentos: Investigações de Segurança Interna (HSI) e Operações de Execução e Remoção (ERO).
Em 2025, sob a segunda gestão de Trump, e como parte de sua política chauvinista e de expulsão de imigrantes, o ICE recebeu investimentos extraordinários, representando um aumento de cerca de 256%, bem como o salto do efetivo de 10 mil para 22 mil agentes. Para se ter uma ideia, o governo federal pretende repassar US$75 bilhões para expandir sua estrutura de detenção e deportação, sendo que US$45 bilhões serão destinados exclusivamente para aumentar a capacidade dos centros de detenções de imigrantes, enquanto os outros US$30 bilhões serão para às operações de linha de frente do ICE, que envolvem a prisão de imigrantes e seu transporte para centros de detenção e deportação. Estima-se que essas cifras sejam maiores do que as verbas destinadas ao FBI, DEA (agência antidrogas dos EUA) e BOP (equivalente à polícia penal brasileira). Esses volumosos valores são repassados por meio de contratos governamentais às empresas privadas de tecnologia, como Meta, Google, Palantir, entre outras, com ferramentas de vigilância digital, além de anúncios de recrutamento de agentes e de incentivo à chamada “autodeportação”; enquanto outras empresas faturam com o considerável aumento de ocupação de celas do sistema prisional privado, como a GEO Group e a CoreCivic. Há, ainda, outras parcelas da burguesia que se beneficiaram com a venda de viaturas, a venda constante de algemas, armas e munições, etc. Como se vê, a caça aos imigrantes se tornou um ótimo negócio para setores da burguesia estadunidense, arrancando cifras significativas do departamento com maior orçamento do governo federal.
A violência estatal contra os imigrantes se intensificou perto da metade de 2025, com a política chamada de “at-large arrests” (detenções em larga escala, em tradução livre), quando o ICE deixou de olhar apenas para dentro do sistema prisional e passou a perseguir imigrantes nas ruas, sobretudo nas periferias. Desde julho de 2025, quatro imigrantes morreram assassinados pelos agentes do ICE, e outros sete ficaram feridos. Ainda, em três abordagens, foi registrado o uso de armamento considerado “menos letal”, como balas de borracha, além de inúmeros casos de agressões. A Casa Branca – sede do governo federal – estipulou a meta de 3 mil prisões de imigrantes por dia para alcançar 1 milhão por ano.
A morte de Renee Nicole Good no dia 07/01, uma mulher nascida em Colorado Springs (EUA), reaqueceu os atos contra o ICE pelos EUA chamados para o dia 10/1, como nas cidades de Austin, Seattle, Nova York, Los Angeles, entre outras, sobretudo na cidade de Minneapolis, local do homicídio. Os atos, que reivindicam “justiça” para Renee e colocam-se contrários às políticas anti-imigratórias de Trump, chocaram-se com as polícias locais, tropas federais e o próprio ICE, que prenderam dezenas de manifestantes, e feriram ao menos uma dezena, incluindo Kaden Rummler, que ficou cego após ser disparada uma bala de borracha em seu rosto. O presidente estadunidense ameaçou utilizar a Lei da Insurreição (Insurrection Act) para “suprimir a rebelião”, colocando as Forças Armadas nas ruas.
No dia 30/01, sob bandeiras como “ICE fora de todos os lugares” e “ICE fora agora”, centenas de milhares de manifestantes tomaram as ruas em cerca de 300 cidades, após o assassinato covarde pelo ICE do autoproclamado observador (pessoas que acompanham as abordagens, filmando-as e denunciando a violência policial), Alex Pretti, também em Minneapolis, ocorrido dia 24/01. Consideradas uma das maiores e massivas manifestações das últimas décadas, assinalam uma tendência de revolta contra a crescente violência policial e centralização autoritária da ação e força policial pelo governo federal, inclusive sem qualquer coordenação com as polícias estaduais e municipais.
O governo estadual de Minnesota está processando o governo federal para tentar barrar o aumento do efetivo do ICE, prisões sem provas e uso “excessivo” de força, contudo, a medida dentro da própria justiça burguesa iniciada pelo membro do partido Democrata e governador, Tim Walz, se mostra ultralimitada em garantir a aplicação da própria legislação burguesa, que o ICE e o Republicano Trump rasgaram ao perseguir, prender e deportar sem processo os imigrantes supostamente “ilegais” (sem documentação), negando-lhes constituição de advogado e defesa.
No parlamento burguês, os opositores de Donald Trump ameaçaram bloquear o orçamento do ICE, modificando o cenário inicial de 2026 de maiores investimentos. O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, declarou que iria “frear o ICE e pôr fim à violência”. Contudo, o adiamento da votação orçamentária para o DHS (Department of Homeland Security), órgão no qual o ICE e a CBP são subordinados, previsto para 30 de janeiro, não paralisou as atividades dos agentes ou os gigantescos contratos com empresas privadas. Cabe destacar que os próprios democratas auxiliaram na aprovação do orçamento mais que duplicado no ano passado, e os ex-presidentes Barack Obama e Joe Biden mantiveram as atividades do ICE e políticas de exportação de imigrantes, ainda que em menor grau.
As massas, que demonstraram rejeição à política de Trump ao mesmo tempo que disposição para luta, precisam avançar para além dos atos de rua, encarnando o programa do proletariado e utilizando de seus métodos, ou seja, para impor uma derrota à Trump e à burguesia, é preciso canalizar a disposição de luta das massas para greves, piquetes, e etc., paralisando a produção e o comércio, ferindo a burguesia em seus lucros e combatendo a extradição forçada de imigrantes, e fazendo com que o braço armado da burguesia, no caso o ICE, recue sob a força coletiva das massas nas ruas. Para isso, será necessário elaborar um programa comum de reivindicações a todos os assalariados, que organize uma luta unitária pelo salário e direitos iguais a todos, e a imediata legalização dos trabalhadores imigrantes, pelo imediato e irrestrito acesso à saúde e moradia, garantindo-lhes ainda todos os direitos econômicos, democráticos, civis e políticos. Assim, irá se forjando a força coletiva baseada na luta de classes para derrotar a burguesia.
As tendências fascistizantes e bonapartistas de Trump e de setores da burguesia imperialista não serão derrotadas nas urnas, com medidas judiciais ou no parlamento, se fazendo necessário a utilização dos métodos da ação direta. É preciso avançar com as reivindicações, diante de uma burguesia monopolista que parasita o estado nacional burguês em detrimento do lucro sobre as condições de vida dos oprimidos.