O Internacionalista n° 37 / NOTAS INTERNACIONAIS / março de 2026


Passaram-se quatro meses desde que um golpe institucional orquestrado pelo Congresso derrubasse o governo golpista de Dina Boluarte após a derrubada do presidente legítimo Pedro Castillo (Peru Livre), em 2022, assumindo José Jerí, quando em 18/02/2026 foi desfechado mais um golpe destituindo-o. Assumiu a “presidência interina” José María Balcázar, do Peru Livre.
Não é o PV que é restituído à presidência e nem se elege um presidente para implementar um plano de governo. O novo presidente preposto (com apoio maciço da direita) deverá servir de fachada até que sejam realizadas as eleições gerais, previstas para 12 de abril deste ano. Nos fatos, Balcázar é um simples peão nas movimentações da burguesia nacional e dos partidos direitistas para preparar o terreno para o retorno da direita ao poder do estado, desta vez legitimada pelas eleições.
Mas, o verdadeiro objetivo do novo golpe foi apresentado pelos EUA. Irritou o governo Trump que Jerí se negasse a impor o controle estatal sobre as movimentações e operações do porto Chancay, de propriedade da chinesa Cosco Shipping Ports. A Agência para Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado dos EUA afirmou estar “preocupada pelos relatórios de que o Peru poderia não ter poderes de supervisar Chancay”, situação que se apresentava como uma “ameaça à soberania”. Os EUA revelaram nesta mensagem a verdadeira “ameaça” à soberania peruana: a destituição de Jerí significou alterar com um golpe a decisão soberana do estado peruano, e apoiar um processo eleitoral que deverá colocar um governo que expulse à China do controle do principal porto peruano, cedendo-o mais à frente aos EUA. Perto de Chancay, foram cedidas as instalações de um porto militar para abastecimento de navios de guerra norte-americanos.
A América Latina é um dos cenários da guerra comercial travada pelos EUA em decadência contra a China em ascensão e que vem deslocando os EUA dos mercados. Antes que esse curso se intensifique e o expansionismo chinês seja irreversível, os EUA devem reagir e impor seus ditames seja por meios econômicos, ameaças diplomáticas, golpes de estado ou por meios militares. É provável que Jeri acreditasse que poderia se “equilibrar” entre a China (que reporta ao estado gigantescos ingressos fiscais à alfândega e promove investimentos maciços em infraestrutura) e os interesses dos EUA.
Mas, o acontecido no Panamá (rescisão das concessões à China no manejo de docas e portos do Canal de Panamá), o golpe eleitoral em Honduras (impondo um títere dos EUA na presidência mediante fraude eleitoral) e o golpe contra a Venezuela demonstram de forma clara que os governos, qualquer que seja o país de América Latina, ou se submete às imposições dos EUA, ou bem sofrerá instabilidade intencional, golpes e ataques até que o país se submeta completamente a seus ditames. Sem dúvida, é a intervenção e alteração do funcionamento das instituições e dos processos eleitorais as principais vias utilizadas pelo imperialismo estadunidense para forjar condições políticas para cumprir esses objetivos. Somente quando um governo pretende erguer uma limitada autonomia perante os EUA que estes recorrem à asfixia econômica genocida e às ações militares, como acontece com Venezuela e Cuba.
As tentativas golpistas contra Chávez; o golpe contra Lugo (Paraguai), Zelaya (Honduras) e Rousseff (Brasil); a prisão de Lula (2017) e de Kirchner (Argentina); a tentativa fracassada de impor a vitória eleitoral da direita em Venezuela em 2024 e a vitoriosa de ao impor Asfura em Honduras no ano passado; o sequestro de Maduro na Venezuela, dentre tantos outros métodos, mostram claramente que os EUA recorrem à fraude ou aos golpes (institucionais e militares) para derrubar governos ou para impedir apresentação de candidaturas que não sejam os que os EUA decidiram para governar em seu nome.
Não obstante, para que as eleições elevem ao poder do estado peruano um partido que seja do gosto dos EUA, o imperialismo em aliança aos partidos direitistas e entreguistas devem impedir a vitória de partidos e legendas que ensaiam em seu programa de governo limitadas medidas de autonomia perante as ordens do imperialismo estadunidense. Está aí o caso da recente condenação a 15 anos de prisão do candidato Guillermo Bermejo, do PL, acusado de vínculos com Sendero Luminoso (grupo guerrilheiro maoista há muito derrotado política e militarmente durante a ditadura de Alberto Fujimori). Enquanto Balcázar se aproximou da direita e de seu programa, Bermejo é considerado um “esquerdista” e fiel ao programa do PL reformista e nacionalista-burguês apresentado pelo PL na campanha de 2021. Os EUA, a burguesia nacional e os partidos direitistas não iam permitir que ganhasse as eleições. O que acelerou a decisão de operar um golpe eleitoral para cassar sua candidatura e o retirar das eleições de abril. A condenação de Bermejo teve por conteúdo político o objetivo que foi traçado com a prisão de Lula para o retirar da disputa eleitoral e facilitar a vitória de Bolsonaro, apoiado por Trump – que era presidente à época.
Seja acusando de “narcotráfico” (Maduro) ou de “terroristas” (Bermejo), o rótulo imposto pelo imperialismo no pescoço de candidatos e presidentes servem para inabilitar, impedir ou derrubar qualquer governo que ensaie até mais limitada (e inofensiva) medida de soberania ou autodeterminação sobre qualquer assunto. Não importam os fatos ou sequer se esses existem, basta o rótulo para ser rapidamente adotado pelos partidos entreguistas das semicolônias para criar uma “corrente de opinião pública” favorável à farsa legal e jurídica para que se viabilizem os objetivos imperialistas.
Há uma clara manipulação da legislação e democracia burguesas para que se imponham os objetivos dos EUA. Apesar disso, os pretensos “nacionalistas e populares” ou “Socialistas do Século XXI” sempre acabam se ajoelhando na defesa da democracia burguesa e, assim, caem na armadilha preparada pela grande burguesia que controla as alavancas do estado e maneja as eleições e instituições. O “golpe dentro do golpe que derrubou Castillo por meio de um golpe” é uma clara manifestação dessa manipulação, fazendo do impeachment um instrumento ao serviço dos interesses dos EUA.
O regime de exceção aberto com o golpe a Castillo há 4 anos cumpriu a contento os objetivos gerais do imperialismo. Como mostrávamos no jornal OI 32 (outubro de 2025), aprovaram-se pelos governos prepostos “contrarreformas previdenciárias, recortes nos orçamentos da saúde e educação e, particularmente, medidas repressivas e concessões à exploração mineira em favor dos monopólios estrangeiros”, visando, “fazer retroceder os interesses chineses na exploração de recursos minerais considerados críticos pelos EUA”. Falta agora “normalizar” a situação política sendo eleito um governo que responda diretamente aos ditames fixados desde Washington.
Na fase de decomposição dos EUA e de desintegração do capitalismo, a democracia vira uma fachada e as medidas golpistas e ditatoriais, ainda que revestidas da formalidade institucional e legal, tornam-se mais frequentes. Essas lições são de extrema importância para a vanguarda peruana, mas também latino-americana. Sobretudo, porque se de um lado o agravamento da miséria e pobreza impulsionam a revolta da população explorada e oprimida, de outro suas ilusões democráticas lhe impedem avançar a sua independência de classe e desenvolver a luta de classes. Peru soma-se às nações nas quais a democracia formal burguesa é um obstáculo ao avanço das massas na luta de classes e nas que a decomposição democratizante de suas direções colocam a urgência da tarefa de construir uma direção revolucionária que coloque o regime burguês no lixo da história. A tarefa da vanguarda, portanto, é a de ajudar as massas a abandonarem suas ilusões democráticas e assumir o programa revolucionário, o que exige daquela construir o partido marxista-leninista-trotskista que permita à revolta instintiva das massas se transformar em política consciente, por meio do programa e estratégia proletárias.