
O Internacionalista n° 38 / abril de 2026
Editorial Nacional
Reflexos da guerra contra o Irã na política, na economia e na disputa eleitoral brasileira
Ao momento de fecharmos esta nota, soubemos do acordo de cessar-fogo por duas semanas entre os EUA e o Irã. Israel aderiu ao acordo formalmente, enquanto procura o destruir atacando o Líbano. A trégua inclui a reabertura do Estreito de Ormuz. Mas, demorará até se normalizar a produção e abastecimento de petróleo e gás em volumes anteriores aos da guerra. As consequências econômicas descritas na nota para o Brasil dependerão do ritmo da “normalização” da extração e comercialização de hidrocarbonetos e seus derivados. Assim, não altera a tendência fundamental de agravamento dos reflexos da crise na economia e na política nacional.
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Desde 2022, após a invasão da Rússia à Ucrânia e do boicote às exportações de energia russa, os mercados viram-se chacoalhados pelo aumento dos preços de alimentos, petróleo e gás. Ucrânia e Rússia, antes da guerra, concentravam ainda 78% das exportações de fertilizantes, cereais, azeites e produtos alimentícios. A guerra no Oriente Médio agravou as consequências desse processo, abalando a economia e a situação política mundial ao atingir uma das mais importantes rotas de transporte de petróleo e gás, elevando os custos de seguros e fretes marítimos, destruindo grande parte da capacidade industrial instalada, agravando os custos de produção de fertilizantes e os deslocamentos e imigração, enfim, criando condições de uma recessão mundial. O aumento dos preços combina-se ao alto grau de divisão mundial do trabalho – determinados países se “especializaram” em determinados ramos produtivos – dificultando manter equilibrado o déficit fiscal e orçamentário dos Estados. O cenário é mais trágico quando verificadas as consequências sobre as nações semi-colônias que são exportadoras de matérias-primas e importam bens de alto valor agregado e capital financeiro, como é o caso do Brasil.
Alguns países com diversificação industrial, desenvolvimento de forças produtivas, reservas de capital-dinheiro e grandes reservas e jazidas de petróleo ou gás contam com uma limitada margem de manobra ao aumentar suas receitas por exportações ou gastos públicos, em meio à restrição da oferta e demanda – a exemplo da Rússia ou da China. Os EUA podem resistir melhor graças ao controle sobre o petróleo venezuelano e por ser emissor da moeda de referência nos intercâmbios mundiais, mas já está sendo duramente atingido pelo aumento dos preços internos, o que abala a governabilidade de Trump.
Se bem o Brasil possui jazidas e extrai petróleo suficiente para cobrir suas necessidades, não está imune à grave situação inflacionária. Os preços de produção não são regidos pelos custos de produção interna e sim pelos externos, de forma que o aumento do preço do barril golpeia a economia do Brasil. O Brasil importa mais da metade dos fertilizantes utilizados na produção agrícola, portanto, os aumentos dos preços do petróleo e de refinados (como fertilizantes) terão um impacto direto na balança de pagamentos. Esse é o reflexo de décadas de desindustrialização, privatização, retração dos investimentos produtivos e primarização da economia ao serviço dos monopólios e do capital financeiro.
A escassez de fertilizantes e seus elevados preços internacionais atingem a produção agrícola. A produção de alimentos e matérias-primas compõem grande parte das exportações e do consumo interno da população. O aumento do Diesel, principal combustível do transporte de cargas e coletivo de passageiros, é decisivo para ampliar a espiral inflacionária ao aumentar os preços e fretes dos transportes. No cenário em que as margens de lucro empresariais se enfrentarão com a contração da demanda e aumento dos preços da oferta em insumos como agrotóxicos, fertilizantes, hélio etc., se ampliará o endividamento e insolvência das empresas e Estados. O aumento será repassado aos consumidores. O que aprofundará a contração do consumo, agrava as tendências recessivas, empurra os capitalistas a ampliar a superexploração assalariada e rebaixar o nível de vida das massas.
É a política ditada pelo imperialismo – e que continua governo após governo – que impede o Brasil de resistir melhor às tendências recessivas porque levaram a uma perda real de soberania e de capacidades produtivas, que junto a escalada inflacionária atual, agravam a crise política e acirram os conflitos sociais.
Em um cenário instável e inseguro para qualquer previsão de crescimento no segundo semestre de 2026, o governo Lula pode aumentar os subsídios para setores proprietários de capital dos mais diversos, desde capitalistas da agroindústria até caminhoneiros autônomos, visando evitar revoltas e movimentos que atinjam sua campanha eleitoral. Mas, se compensar os lucros e ganhos da burguesia e setores da pequena burguesia terá de retirar dos assalariados com contrarreformas e aprovando novas medidas de restrição de gastos que golpeiam ainda mais os trabalhadores – enquanto alimenta o parasitismo financeiro. Isto pode acontecer ainda no quadro de um acirramento da ofensiva dos EUA por controlar setores da extração de petróleo e minerais críticos, ao mesmo tempo em que intervém diretamente nas campanhas eleitorais para fortalecer as possibilidades de vitória da ultradireita.
A crise terá contornos mais definidos nos próximos meses: precisamente os decisivos para a disputa eleitoral. A principal vantagem de Lula é o controle dos sindicatos e o fato de suas direções cumprirem um papel de traição e contenção da luta de classes. Mas, o que decide uma eleição é o poder econômico da burguesia. Eis porque abriu-se uma corrida desesperada de Lula para ganhar mais apoios entre os setores do capital mais concentrado. A filiação de Kátia Abreu ao PT, ela mesma uma capitalista agroindustrial e parasita dos subsídios agrícolas do governo, deixou em claro esse desespero. Enquanto isso, os oprimidos que se veem perante uma tendência de rebaixamento e destruição de suas condições de existência e podem intervir na crise lutando por suas reivindicações. A ameaça de uma greve de caminhoneiros ainda não foi afastada. Essa situação claramente poderá beneficiar o bolsonarismo, uma vez que a bomba explodirá no colo do governo e a ultradireita responsabilizará Lula pela crise e, portanto, crescerá a pressão dos EUA para a vitória de Bolsonaro. Se isso acontecer, poderá ser o estopim da crise de governabilidade, favorecer a ultradireita e acirrar a radicalização eleitoral.
Se é certo que os EUA preferem um governo completamente serviçal e vendilhão como garantia de que não haverá qualquer medida para travar seus objetivos, Lula “negocia” sua reeleição com privatizações e entregando recursos à exploração norte-americana. Mostrou-se servil aos ditames dos EUA ao não romper relações com Israel. Tem ainda uma posição covarde perante o ataque contra o Irã ao condenar a ruptura do direito internacional, mas se negar a defender o Irã. É parte desse processo de direitização e capitulação do governo Lula a decisão de sua assessora de sobrenome Alt, organizar uma reunião no Itamaraty para servir de palco ao sionismo e sua política genocida em nosso país. Lula aplicará mais medidas ditadas pelos capitalistas para garantir sua reeleição e as direções sindicais trairão as massas e irão impedir as lutas e as greves para afundar na campanha pela reeleição de seu caudilho.
A defesa do aumento dos salários em relação à inflação; a luta pela recuperação de todos os direitos retirados e pela redução da jornada sem redução de salários; o desconhecimento de toda a dívida pública e a expropriação das empresas, bancos e terras em mãos dos monopólios, com sua imediata estatização sob controle operário coletivo, dentre tantas outras reivindicações, devem ser erguidas agora e durante as campanhas eleitorais para impedir que a burguesia descarregue a crise sobre as massas. A defesa das condições de vida dos oprimidos junto da defesa das reivindicações anti-imperialistas exige desenvolver a luta imediata das massas sob o programa e estratégia proletárias.
Quando o proletariado e os demais oprimidos são chamados escolher entre duas faces da mesma moeda, devem erguer esse programa porque qualquer seja o vencedor em outubro/novembro de 2026, continuará a política de arrocho salarial, contrarreformas, terceirizações, cortes de gastos em saúde e educação, privatismo etc. Os explorados não devem confiar em programas burgueses, e começar a romper a contenção imposta pelos burocratas que sacrificam nossos salários e direitos em nome da reeleição de Lula. Nós temos nosso próprio programa e tática eleitoral a serem defendidos. Se não conseguimos defendê-lo e avançar na luta pelo nosso próprio poder, é porque padecemos da crise de direção revolucionária. É erguendo o programa nacional de reivindicações contra nossos exploradores, de fora e de dentro do país, que poderemos avançar em resolver essa crise de direção. Na conjuntura concreta, ausente a direção revolucionária e enquanto existam ilusões democráticas entre as massas, devemos intervir nas eleições defendendo o Voto Nulo Programático, que é a única via que pode permitir começar a soldar o instinto de revolta dos explorados com sua estratégia revolucionária.
