O Internacionalista n° 27 / maio de 2025

Editorial

Superar as burocracias sindicais para retomar o instrumento histórico dos assalariados para lutar contra a exploração e conquistar sua independência do governo e dos patrões!


Permanece o quadro geral no campo sindical dos últimos anos, de um lado, há a disposição dos assalariados em geral, e dos servidores públicos em particular, em reagir aos ataques sofridos, principalmente sobre os seus salários e direitos; de outro lado, as direções sindicais burocráticas e governistas tentam a todo custo conter e desviar esta disposição, utilizando-se da quebra da democracia sindical nas assembleias, do não encaminhamento de pautas e ações aprovadas nelas, do desvio do movimento para o parlamento ou o judiciário, em alguns casos chegando, inclusive, a se apoiar em ameaças e recorrer a medidas repressivas dos governos e do judiciário, etc.
Os sindicatos, que surgiram no capitalismo como uma autêntica criação do proletariado, de instrumentos de frente única e resistência contra os excessos do patronato e os seus governos foram transformados em aparatos extremamente burocratizados para defesa dos governos e aplicação da política burguesa, abandonando completamente as reivindicações imediatas e mais sentidas pelos assalariados. Desde a constituição do governo de frente ampla de Lula/Alckmin, denunciamos o agravamento deste fenômeno, como no Jornal n. 02 de março de 2023 onde afirmamos que “As direções se subordinam espontaneamente à centralização governamental, apesar de não terem quase nenhuma possibilidade de interferência nas decisões sobre as políticas governamentais. A consequência é um alto grau de estatização das organizações das massas, comparável às da época de Vargas, da Ditadura Militar e certamente ainda maior que durante os primeiros governos do PT, neste século”.
A situação do magistério paulista expressa bem este quadro: o governo Tarcísio demite os professores contratados aos milhares, arrocha os salários, impõe as escolas cívico-militares, fecha salas e turnos, privatiza as gestões das unidades escolares e todo tipo de ataque concentrado contra a educação pública. A categoria, mesmo atingida após anos de ataques, reage como disposição de luta, comparece às assembleias, mesmo sem o trabalho de base da direção sindical, mas se depara com o peso da burocracia sindical e suas manobras, que impede as intervenções das correntes no carro de som na assembleia, não reconhece que a maioria dos professores presente votou pela greve imediata por tempo indeterminado, rechaçando a manobra de “construção” infinita da greve. A burocracia chegou ao cúmulo de assimilar e reproduzir na categoria as ameaças de demissão contra os professores contratados, caso haja greve, bem como se subordinaram à medida judicial de imposição de multas e de um percentual mínimo de trabalhadores para manter os serviços durante a greve. Ver matéria pág. 18.
No caso dos trabalhadores municipais de São Paulo, onde os servidores conseguiram superar as burocracias divisionistas para iniciar a greve, estas alteram diversas vezes as deliberações das assembleias para se adequarem ao calendário da Câmara Municipal, desorganizando o movimento e canalizando o mesmo para o parlamento. As assembleias são massivas, mas os servidores se deparam com sindicatos diversos, com assembleias separadas, com encaminhamentos separados, ainda que lutem contra o mesmo patrão e contra as mesmas medidas. Ver matéria pág. 15.
A força gravitacional governista de conciliação de classe é tão forte que conseguiu atrair até mesmo as chamadas oposições de esquerda, que nada mais fazem do que conciliar com as direções burocratizadas, divergindo apenas de grau com estas. Nos fatos, servem de ponto de apoio a essas burocracias para desviar e desmontar as tendências de luta.
Os atos do 1º de Maio em São Paulo, principal cidade do país, expressaram a crise de direção: houve o ato festivo e de defesa aberta do governo federal, organizado pelas grandes centrais sindicais; o tradicional ato na Praça da Sé (ver balanço na pág. 10) contou com a presença apenas de um setor da vanguarda. Seu manifesto, decidido burocraticamente, rejeitou as formulações que poderiam se chocar com o governo federal, como “abaixo o arcabouço fiscal”, ao mesmo tempo que canalizou a luta pelo fim da jornada 6×1 para um plebiscito popular. Por fim, o ato chamado pela CSP-Conlutas, divisionista do ato tradicional da Sé, embora tenha formulado as críticas ao governo federal com as bandeiras contra o arcabouço fiscal, abaixo às contrarreformas trabalhista e da previdência etc., esteve sob a linha política do PSTU de oposição de esquerda ao governo, de fundo eleitoreiro, na busca por uma “alternativa” eleitoral do “governo dos trabalhadores”.
Apesar de burocratizados, os sindicatos continuam sendo um importante canal de mobilização dos explorados. Nos momentos de acirramento da luta de classes, os assalariados buscam a unidade em uma instituição de frente única e recorrem à estes organismos para impulsionar a luta pelas reivindicações. Assim, coloca-se necessário a organização das frações revolucionárias nos sindicatos para, por meio da defesa e aplicação da democracia operária, impulsionar a luta em defesa das reivindicações imediatas e os métodos correspondentes, às assembleias, paralisações, greves e ocupações. Neste percurso, será necessário retomar as formulações do período de ascenso das lutas grevistas dos anos 70 e 80, que foram gravadas nas primeiras resoluções congressuais da CUT e abandonadas nas décadas seguintes pelas direções sindicais que tomaram o caminho da estratégia democratizante e do eleitoralismo, como a bandeira de direito de greve irrestrito, ação direta das massas, fim do imposto sindical (inclusive sob a nova roupagem de taxa negocial ou contribuição assistencial) e da intervenção estatal (dos governos e do judiciário) no movimento sindical, etc. Bem como vincular a luta em defesa das reivindicações imediatas com a defesa da superação do capitalismo, projetando a luta em defesa da revolução proletária, do governo operário e camponês, e do socialismo!