
O Internacionalista n° 27 / maio de 2025
Editorial Internacional
A guerra comercial de Trump projeta o intervencionismo e militarismo imperialista em larga escala
Ergue-se como guia da ação revolucionária a estratégia, táticas e métodos leninistas de transformar as crises, guerras e contrarrevoluções em novas revoluções proletárias
Nos primeiros 100 dias do governo Trump foram permanentes as bravatas de mudar de forma radical a relação dos EUA com o mundo, mas o que fica são as contínuas manobras para manter equacionada a crise e os contínuos recuos, sobretudo, na declaração de aberta guerra comercial com a China. Ainda que conseguisse equacionar (diminuir) o crescimento da dívida nacional em termos absolutos, não conseguiu rebaixar e, menos ainda, mudar as relações comerciais que estão na base do déficit.
Assim, o déficit (relação entre exportações e importações) continua negativo pelo quinto mês consecutivo, fechando em US$ 160,5 bilhões negativos. Embora seja a metade do déficit de fevereiro (US$ 307 bilhões), ainda indica que as vantagens estão todas do lado da China, que produz mais barato, mais rápido e cada vez com melhor qualidade. A dívida pública estadunidense teve um aumento de US$ 2 trilhões desde janeiro de 2024, sendo de US$ 36,2 trilhões. Para o ano fiscal de 2025 a previsão é que o governo comprometa US$ 952 bilhões com o pagamento de juros, 8% acima do montante gasto em 2024. Ao mesmo tempo em que no primeiro trimestre de 2025 a economia recuou 0,3% (expressando a estagnação). Houve ainda o aumento de detentores estrangeiros da dívida dos EUA, crescendo em 0,8%, e chegando a 24,3% os detentores estrangeiros da dívida. Paralelamente, retrocedeu a participação na dívida da China, Reino Unido e outros países.
Após a brutal queda na bolsa de valores, o retrocesso na compra de “Letras do tesouro” (títulos de dívida) e depreciação do dólar como valor de referência mundial, típicas respostas a uma fuga de capitais, seguiram as pressões de poderosas empresas monopolistas (sobretudo, automobilísticas) que viam que as tarifas afetavam seus negócios e encareciam seus custos de produção, pagando até três vezes mais por matérias primas, bens ou serviços para a montagem de produtos de alto valor agregado no país. Foi então que Trump recuou, rebaixando ou retirando as tarifas. Ficou demonstrado nosso prognóstico que consta de nossa Declaração, publicada neste jornal (pag 24), de que “Como já aconteceu com a Inglaterra, os EUA transformaram-se em grande parte em montadora de peças, e, fundamentalmente, cortadora de cupons e centro do mercado cambial, processo que se espelhou no retrocesso de suas forças produtivas internas”. Indicando uma “mudança nas relações econômicas internacionais, hoje favoráveis à China”.
Não obstante, continua sendo aplicado o objetivo estratégico de impedir a China de usufruir dessas vantagens econômicas. Os EUA apostam agora em encarecer o transporte de suas mercadorias, visando encarecer seus produtos com novas manobras de guerra comercial. É nesse sentido que o governo republicano decidiu acirrar a ofensiva para tomar posse efetiva do controle sobre o Canal de Panamá e os portos adjacentes que estavam sob o controle chinês. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, impôs ao governo panamenho a assinatura de um acordo de segurança para “militarizar” o Canal, intervindo com tropas norte-americanas na estratégica via comercial, e obrigando ao governo de Panamá a sair do Acordo da Rota da Seda da China. É parte dessa estratégia pressionar a China a vender sua participação no controle de portos do Canal. O fato é que os EUA não poderão manter esse curso da guerra comercial, da qual depende esse país manter sua hegemonia, sem aprofundar as tendências bélicas. Essa política pretende ser estendida ao Canal de Suez, por onde passa um quarto do comércio mundial, hoje alvo estratégico para o imperialismo cercar a China e avançar no intervencionismo sobre o Irã.
É parte do quadro de agravamento da crise a retomada pela Rússia sobre a região de Kursk, invadida pela Ucrânia visando obter uma “moeda de troca” nas negociações de cessar-fogo. As tropas russas seguem avançando e se aproximam do controle objetivo de todo o leste ucraniano, de maioria nacional russa, consolidando de fato sua anexação à Rússia. A Ucrânia está sob pressão norte-americana de chegar a um acordo com a Rússia, e de entregar em bandeja seus recursos minerais e industriais aos EUA, ou será abandonada à própria sorte. Como assinalamos no editorial internacional do O n° 26, “(…) a Europa está em frangalhos para continuar a guerra, apoiada apenas em seus recursos industriais, que, somados à crônica carência de reservas estratégicas de matérias-primas e energia barata, obrigam as potências imperialistas a impulsionarem as tendências bélicas para se apossarem de recursos naturais, matérias-primas e mercados à força (…)”. Eis porque o principal obstáculo a um cessar-fogo é a Europa capitalista que afunda e avança na exploração e saque dos assalariados para manter sua indústria bélica e o financiamento da guerra na Ucrânia que afunda a Europa burguesa no belicismo e a decomposição das relações econômicas, alavancando a desagregação da unidade política do Bloco e o agravamento dos conflitos sociais quando as massas começam a se movimentar para derrotar os ataques e se chocam com os governos. Cada passo que a Europa capitalista dá na guerra contra Rússia, mais se aproxima de sua dissolução política, das medidas fascistas de governo e da explosão da luta de classes.
É importante destacar a participação de tropas norte-coreanas junto das tropas russas para expulsar o exército ucraniano da região russa de Kursk. A guerra na Ucrânia transformou-se em um laboratório não apenas de novas tecnologias – com clara vantagem para a Rússia – mas também em um mapa de treinamento para futuros combates. São experiências práticas que devem ser assimiladas para quando deflagrar uma guerra mundial que, como tudo indica, oporá de um lado os países imperialistas e seus aliados, e de outro os estados operários degenerados com seus aliados. A Coréia do Norte aprende as novas táticas e consolida o Acordo de Parceria Estratégica assinado pelas burocracias russa e norte-coreana. Sob ataque da Coréia do Sul, Japão e dos EUA, Rússia enviará suas tropas e proverá recursos e equipamentos tecnológicos. A unidade oportunista das burocracias nada tem a ver com estender a revolução proletária, e sim com preservar seu controle da economia e do estado como casta parasitária. E o fazem se apoiando e fortalecendo conjunturalmente a propriedade nacionalizada pelas revoluções, das quais dependem para fortalecer suas capacidades industriais e bélicas, portanto, para sobreviver como casta parasitária. O que, contraditoriamente, impulsiona o imperialismo à guerra porque não há sobrevida ao capitalismo sem destruir a propriedade estatizada pelo proletariado revolucionário e, derrubando as burocracias com a intervenção externa, reerguer os estados burgueses e transformar esses países que expropriaram a burguesia em semicolônias, reconstruindo as forças produtivas destruídas sob o controle do imperialismo e submetidas à extração de maiores lucros pelos monopólios. Esse é o curso mais geral das violentas manifestações atuais das crises e das guerras que dão seu conteúdo às contrarrevoluções que impulsionam o imperialismo. Como afirmamos em nosso Manifesto do 1° de Maio (pág. 8), as tendências bélicas têm por origem a “contradição entre as forças produtivas capitalistas, desenvolvidas sob a forma da grande propriedade privada monopolista; e as forças produtivas desenvolvidas sobre a base da economia e dos meios de produção nacionalizados pela revolução proletária”. Por isso, como afirma nosso Programa, aprovado no I Congresso do PPRI, “Apesar da política contrarrevolucionária das burocracias, enquanto permaneçam em pé as bases materiais que dão seu conteúdo social operário aos países que fizeram a revolução, esse antagonismo fundamental subordinará os choques e conflitos mundiais e condicionará, portanto, o programa, a tática e linha política do partido revolucionário”, que é o programa da Revolução Política defendido por Leon Trotsky e, depois, por Guillermo Lora (pelo menos até 1996, data dos seus últimos escritos sobre o tema). E que, segundo Lênin, desde a revolução de 1917 é o antagonismo fundamental da atual época histórica.
Esse antagonismo condiciona, também, um provável ataque do imperialismo ou de Israel contra o Irã, que introduzirá no choque à Rússia, que não apenas é o principal sócio comercial e militar do Irã, como também estão comprometidos com ajuda mútua em caso de agressão externa. Disso trata o “Tratado de Ajuda Mútua” do Irã com a Rússia que acenderia um levante generalizado das massas árabes e projetaria a guerra internacionalmente, levando a novas convulsões e processos de crises revolucionárias das burguesias árabes pró-imperialistas. É dentro desse quadro que Paquistão e Índia ameaçam entrar em um conflito armado pela disputa ao redor da região da Caxemira. Essa guerra interessa ao imperialismo que procura desestabilizar a região, justificar seu intervencionismo, remover os governos que ensaiam uma limitada soberania nacional e acirrar o cerco contra a China e a Rússia.
Em nosso Programa assinalamos que “A época em que o Partido Proletário Revolucionário Internacionalista se constrói é marcada por crises, guerras e contrarrevoluções”, hoje determinadas em suas tendências fundamentais pela “contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas com as formas privadas da apropriação do produto social do trabalho e da propriedade privada monopolista, como acirraram a contradição entre as fronteiras e Estados baseados em forças produtivas capitalistas com as economias e Estados onde dominam a propriedade nacionalizada pelas revoluções socialistas, ainda que hoje os Estados Operários estejam profundamente degenerados pela casta burocrática (…)”. De forma que “Os programas da revolução social nos países capitalistas e da revolução política nos Estados Operários são duas partes indissolúveis e interdependentes do programa do PPRI”, e de primeira a importância para a unidade das massas para defender uma tática revolucionária leninista.
O guia da ação revolucionária neste conturbado cenário da crise mundial é a luta imediata, unitária e radicalizada das massas pela conquista das reivindicações e pelo fim do militarismo imperialista derrotando as contrarreformas e paralisando a indústria bélica, e defendendo incondicionalmente as nações e povos oprimidos e as conquistas revolucionárias do proletariado. Trata-se de transformar as crises e as guerras imperialistas em guerra civil contra a burguesia e seus governos, abrindo o caminho a novas revoluções proletárias, erguendo nos movimentos e lutas o programa da revolução social nos países capitalistas, e da revolução política nos estados operários degenerados.
