
O Internacionalista n° 39 / maio de 2026
Editorial Nacional
Estão sendo preparadas as armadilhas eleitorais e ideológicas para iludir as massas de que, votando em Lula, se abrirá caminho para a melhoria das condições de vida
Duas importantes derrotas do governo no Congresso (a rejeição da indicação de Messias para o STF e a derrubada integral do veto presidencial do “PL da Dosimetria”) indicaram que no último ano do governo “Lula 3”, sua governabilidade depende do caudilho petista se comprometer ou ceder perante os interesses dos partidos e bancadas oligárquicas e direitistas, se curvando perante propostas de leis e mudanças aos projetos governistas (ou de aliados) e que, em última instância, deixam caminho aberto para uma maior opressão social e nacional, para o avanço da impunidade e corrupção etc. A queda de braço entre as instituições – nas que o Congresso dominado pela direita e a ultradireita é o instrumento de desestabilização das relações políticas – é esteio principal das manobras políticas e eleitorais.
Se de um lado cada batalha entre “poderes republicanos” reorganiza a divisão de poder e controle sobre orçamentos, aprovação de leis em benefício de políticos, empresários e frações burguesas (Plano Safra, orçamento secreto etc.) etc.; de outro, as “conquistas” da frente ampla parlamentar da direita e ultradireita (como as que impuseram a não a taxação das Bets e a derrubada do veto presidencial ao “PL da Dosimetria”) fortalecem a oposição, cada vez mais ampliada com os ex-aliados do governo, provendo-lhe de mais munição para alvejar o Superior Tribunal Federal (STF) e o executivo indistintamente.
Uma amostra (pela negativa) da progressiva erosão da frente ampla burguesa que levou Lula ao seu terceiro mandato se verifica não somente na saída de Ministros, nas derrotas parlamentares, nas permanentes tentativas de acomodação com as exigências da direita e dos capitalistas, como assim também na decisão do último Congresso do PT de aprovar um “programa eleitoral” em que se faz uma “distinção” entre direita liberal (que respeita a democracia) e a ultradireita (adversário “antidemocrático” a ser derrotado). Na “atualização” da tática eleitoral dos petistas, a chamada “direita liberal” pode incluir não apenas figurões ao estilo de Geraldo Alckmin, mas também Davi Alcolumbre, Hugo Motta e outros figurões politiqueiros do Centrão e da direita reacionária.
A experiência desse terceiro mandato de Lula demonstra que os aliados de uma “frente ampla” não são confiáveis, se vendem ou trocam de lado de acordo com os interesses mais imediatos. Muitos que hoje apoiam o experimento de laboratório de uma “terceira via” eleitoral são ou foram aliados (ou apoiadores) da vitória da “frente ampla” em 2022, e prestaram apoio (ainda que limitado) ao governo com seus deputados e senadores no Congresso. Quem não recorda ainda a terceira candidata mais votada nas eleições de 2022, Simone Tebet, se integrar à frente ampla de Lula dotando de uma base social e parlamentar representantes dos latifundiários e grandes capitalistas agroindustriais que, logo, viriam condicionar seu governo com medidas contra os camponeses e povos originários? Certamente, Caiado, pré-candidato pela “terceira via” do PSD de Kassab, não irá fechar com Lula, e sim com Flávio Bolsonaro se não chegar no segundo turno. Negociará os votos obtidos e os apoios de frações capitalistas regionais com o candidato bolsonarista em troca de futuros ministérios, orçamento, financiamento e favores de todo tipo caso a ultradireita derrote os petistas e aliados. Sua candidatura é ainda uma manifestação da intervenção dos EUA na disputa eleitoral, uma vez que o acordo de entrega de recursos minerais críticos de Goiás para uma empresa norte-americana será uma moeda de troca nessas negociações, e uma arma entregue à ultradireita no enfrentamento ao governo federal de Lula para impor no Congresso mais uma derrota se se se apresenta o projeto de lei de criação de uma empresa estatal para a exploração de terras raras, ou se tente dotar ao governo federal de faculdades legais para exercer direito exclusivo nos processos licitatórios desses recursos.
É necessário ter em conta ainda que a polarização eleitoral em nosso país se opera e desenvolve em meio a um curso de direitização da política burguesa mundial, na qual se impõe atualmente a tendência de que qualquer que seja o governo burguês eleito, terá de servir de instrumento à maior centralização política e econômica em favor dos monopólios, portanto, continuar e avançar nos ataques e contrarreformas contra as massas. Qualquer que seja o presidente eleito, essa disputa se ampliará no próximo Congresso surgido das eleições. Entretanto, como demonstra a experiência mais recente dos últimos três anos no nosso país e também na América Latina (pag. 35 a 36), quando um governo eleito não é completamente serviçal ao imperialismo ou não aplica suas medidas como lhes são ditadas, no ritmo exigido, o Congresso passa a ser um instrumento de desestabilização, de enfraquecimento e golpismo, como demonstrou o golpe de estado pela via parlamentar contra Dilma Rousseff, inclusive dirigido e apoiado pelo vice-presidente preposto pelos empresários como parceiro de legenda, e muitos parlamentares de sua base aliada. Eis porque, ainda que Lula venha sair triunfante da disputa, e a frente ampla “ampliada” ainda mais à direita seja concretizada, os deputados e senadores eleitos por essa aliança eleitoral oportunista farão do Congresso um reduto ainda mais direitizado e antinacional. Em outras palavras: ganhe Lula, Bolsonaro ou qualquer outro figurão burguês, é possível afirmar que o Congresso manterá uma esmagadora maioria de partidos direitistas, obscurantistas e reacionários. A decomposição da burguesia como classe e o agravamento da crise econômica impõem uma violenta ofensiva monopolista e da burguesia nacional que mudou as relações de forças no interior das instituições, sendo mais favoráveis à direita e ultradireita e desfavoráveis aos “reformistas”. O governo “Lula 3” é um claro exemplo disso, quem não acredita, veja como o sionismo começa a ditar o conteúdo de leis (pag. 8 a 9) e pode agir livremente dentro do país comprando jornalistas e deputados, até governadores, visando normalizar o genocídio dos povos colonizados e brutalizados como política de estado que se pretende legalizar no Brasil.
Não se deve deixar de fora da avaliação que os “potenciais parceiros” da dita “direita liberal” vão se aproveitar do desespero e da extrema flexibilidade da espinha dorsal política de Lula e do PT para negociar as leis e modificar os diferentes projetos em tratamento que ainda hoje tramitam no Congresso. Sabemos que o fazem para continuar parasitando os orçamentos públicos, condicionando seu apoio às leis em troca de dinheiro e obras públicas que possam apresentar como conquistas para seu eleitorado. De forma que um quarto mandato de Lula será de mais retrocessos das lutas populares, operárias e indígenas, e de novas traições das direções sindicais e políticas.
Porém, a imposição de derrotas aos movimentos e greves não fortalece o suposto governo democrático e popular” porque amputa e destrói, sistematicamente, a única força social capaz de combater e derrotar a burguesia imperialista e nativa e favorece um governo “reformista”. A “política de resultados” das centrais que antes se reduzia a pequenas migalhas para evitar a luta de classes, hoje virou “política de resultados” unicamente nas eleições, e para isso precisaram passar a defender os interesses do patronato para garantir a governabilidade de Lula. No altar das eleições burguesas, portanto, da ditadura dos capitalistas, se sacrificam atadas de pés e mãos às massas assalariadas e oprimidas. Essa é a “contabilidade” para as massas da “política de resultados eleitorais” das direções sindicais e populares que se ajoelharam perante o governo burguês de Lula.
O dever da vanguarda não é ocultar as armadilhas burguesas preparadas pelos governistas e aliados de que se trata de defender a democracia contra o fascismo, mais uma vez. É deixar claro o conteúdo da campanha e propaganda das burocracias sindicais que pretendem arrastar as massas a confiar nas eleições e nas instituições que são as mesmas que estão servindo à burguesia para pagar os parasitas da dívida pública às custas de precarizar saúde e educação, rebaixar os serviços públicos, desfechar os efeitos da crise mundial sobre a vida dos oprimidos retirando direitos, estendendo o contrato temporário, reduzindo salários e entregando os recursos naturais aos monopólios, portanto, criando as condições para uma perda de soberania nacional e de rebaixamento das condições de vida para garantir os lucros capitalistas.
A defesa das condições de vida mais imediatas das massas nunca esteve tão clara e definitivamente ligada à defesa de sua estratégia, métodos e táticas próprias da luta de classes. Mas, isso obriga a vanguarda revolucionária a dar rumo à luta permanente e sistemática pela superação das direções traidoras das organizações de massas. A constituição de uma oposição revolucionária ao governo burguês de plantão requer não apenas reconstruir a direção revolucionaria do proletariado, organizada como partido marxista-leninista-trotskista, como exige e travar uma luta no interior dos sindicatos e organizações populares para recuperá-las dos burocratas, sejam de direita ou esquerda, e recuperar esses organismos de frente única para combater pela destruição do estado burguês e da classe burguesa, erguendo um estado operário, sob a forma de um governo operário e camponês.
