


O Internacionalista n° 38 / NOTAS INTERNACIONAIS / abril de 2026
Equador
Os EUA querem fazer do Equador um porta-aviões terrestre para intervirem em América Latina
Equador e os EUA fecharam um “Acordo de Segurança” que permite a intervenção de tropas norte-americanas em solo equatoriano para alegadamente “combater” os cartéis do narcotráfico, catalogados como terroristas pelos EUA. Não apenas isso: aprovou ainda, a toque de caixa, a instalação de uma sede do FBI, ou seja, uma base de operações para o trabalho encoberto da CIA. Como comprovou o sequestro de Maduro sob a falsa acusação de ser o chefe de uma “organização narcoterrorista”, e como demonstrou a “guerra às drogas” na Colômbia por décadas, trata-se de uma justificativa formal para subordinar governos semicoloniais aos objetivos dos EUA, ampliar a presença militar sem recorrer a bases e, sobretudo, ter tropas no terreno para forçar governos a entregar recursos a preço de banana.
Alguns dias após assinado o “acordo”, foram realizadas “ações” conjuntas entre tropas norte-americanas e equatorianas sobre a fronteira colombiana para “atacar organizações terroristas”, na qual caiu uma bomba em território colombiano. Petro exigiu uma explicação do governo de Noboa abrindo um choque diplomático que agrava a guerra comercial que Noboa iniciou contra Colômbia aumentando arbitrariamente tarifas às importações às quais Petro, presidente da Colômbia, respondeu aumentando as tarifas às importações equatorianas. A “guerra tarifária” lançada por Noboa não é por acaso. Sendo um fiel subserviente do imperialismo, é provável que tenha feito essa medida (que prejudica mais o Equador do que a Colômbia) por exigência dos EUA, que vê no governo de Petro um governo “não-alinhado”. O “acordo” outorga ao imperialismo uma plataforma para “ameaçar” a Colômbia. Lembremos ainda que Trump acusou a Petro de ser conivente com a produção de drogas no país (mesmo argumento utilizado contra Maduro). Mas, também será usado para cercar o Brasil e a Colômbia, cujos governos não se alinharam completamente ao objetivo de fazer do continente local exclusivo para a exploração de seus recursos pelo imperialismo, e se encaminham a realizar eleições que o imperialismo deseja condicionar.
O presidente equatoriano Noboa se ajoelhou perante os EUA porque ele mesmo é investigado (e com provas) por cumplicidade no tráfico de drogas para Europa por meios dos navios que transportam os produtos agrícolas produzidos nas fazendas da família. Mas, este suposto “narco-presidente” não foi derrubado pelos EUA. Por quê? Porque os EUA precisavam que esse permitisse o ingresso de tropas no Equador ainda isso significasse passar por cima da Constituição e inclusive da decisão soberana da maioria da população do país. Lembremos que em 16 de novembro, foi realizado no Equador o plebiscito (referendo) “perguntando se a população é favorável (SIM) ou contrária (NÃO)” a instalar uma Assembleia Constituinte, “Se elimine a proibição de estabelecer bases militares estrangeiras ou instalações estrangeiras com propósitos militares, e ceder bases militares nacionais às forças armadas ou de segurança estrangeiras” no país, eliminar “a obrigação do Estado de atribuir recursos do orçamento geral do Estado às organizações políticas?”, “reduzir o número de deputados”, entregar recursos minerais em territórios indígenas à exploração imperialista etc. Mais de 60% da população diz “NÃO”, infringindo uma derrota política ao governo. Os EUA não iriam permitir que uma decisão democrática atrapalhasse seus planos. O suposto combate ao “terrorismo narcotraficante” foi a cartada usada para forçar a Noboa a rasgar a decisão soberana e se impusesse um “acordo” unilateral aprovado pelo presidente que cumpriria o mesmo objetivo da fracassada via “democrático-formal” do plebiscito.
Se de um lado, o governo de Noboa avança ao autoritarismo e à centralização política por cima da Constituição, plebiscitos e do próprio Congresso para servir de agente aos interesses dos EUA; de outro, estes se garantem um ponto de apoio terrestre para manobrar militarmente sem recorrer a grandes gastos de deslocamento de porta-aviões, barcos etc. Sobretudo, facilita ter presença militar no norte da América Latina, enquanto no sul e oeste contam com a recém-inaugurada base militar no Paraguai, a retomada da presença da DEA na Bolívia e o total apoio de Kast (Chile) e Milei (Argentina).
A derrota da política entreguista de Noboa no plebiscito deu mais um golpe à via democrática burguesa e à farsa da “soberania popular” das massas para decidir sobre todos os assuntos de seu país e de seu governo eleito. O Equador servirá agora, graças a que o governo de Noboa trilha pela via das medidas bonapartistas, ao intervencionismo norte-americano sobre a América do Sul, fazendo do país um “porta-aviões” terrestre para ameaçar países e governos que não se submetem a seus ditames. Noboa garante ainda um apoio direto da ameaça norte-americana contra a população para impor sua agenda de privatização dos recursos minerais e petrolíferos, de imposição das contrarreformas e tarifaços.
Mas, certamente enfrentará resistência. O levante operário-popular de 2019 impediu o governo de Lênin Moreno de impor esse plano. Os governos que seguiram tentaram aplicar o plano, sempre com respostas organizadas e massivas das massas oprimidas. Ocorre que cada vez fica mais claro às massas que o expansionismo norte-americano ameaça à soberania nacional dos povos e nações oprimidos. Cada governo que capitula, ou cada governo eleito que se ajoelha perante os EUA, favorece os monopólios em seu objetivo submeter toda América ao saque do grande capital financeiro norte-americano.
A insistência de alguns governos como de Petro e Lula de serem respeitados o “direito internacional” não passa de farsa. Mas, é também perigoso que se incorpore na legislação dos países – como está sendo discutido no Brasil – a classificação dos grupos e cartéis narcotraficantes como “organizações terroristas”. Isso facilitará o intervencionismo norte-americano como demonstram a Venezuela e Equador. No Brasil, a aprovação dessa lei é firmemente defendida por Flávio Bolsonaro (ele mesmo um cúmplice de grupos criminosos como as milícias) para facilitar a intervenção de Trump nas eleições.
A Constituição, o tal do direito internacional, a diplomacia e muito menos ainda a democracia formal impedirá e nem bloqueará o avanço do intervencionismo imperialista. Como demonstra a Bolívia, Chile, Equador e Peru, os governos da esquerda burguesa e pequeno-burguesa abrem caminho ao avanço da ultradireita e do imperialismo por serem incapazes de impor a real autodeterminação nacional rompendo com o imperialismo, e por aplicarem as contrarreformas e medidas exigidas pelo grande capital que se chocam com as massas. O fracasso dos governos da esquerda burguesa e pequeno-burguesa abrem uma via para a ascensão dos governos pró-imperialistas e fascistizantes como verifica-se no golpe contra Castillo (Peru), na derrota de Boric perante o pinochetista Katz (Chile), e na decomposição do “socialismo do século XXI” na Bolívia e na Venezuela.
O essencial à política revolucionária é entender que a ofensiva imperialista acontece quando o chavismo se orienta a capitular após o sequestro de Maduro. Acontece quando as burocracias herdeiras do stalinismo na Rússia e China se negam a prestar significativo apoio militar e econômico às nações oprimidas sob ataque e, sobretudo, à revolução cubana. E especialmente quando se revela que a democracia formal burguesa e o direito burguês está sendo demolido. Foi a revolução cubana que indicou o caminho que devem percorrer as massas exploradas e oprimidas para conquistar a real autodeterminação nacional e o fim da opressão nacional. Apesar de prematuramente sufocada em sua projeção internacional pela política estalinista de “convivência pacífica” com o imperialismo, que firmou no interior da burocracia castrista, Cuba se manteve como um farol à luta internacionalista e, agora, está ameaçada de morte.
Está na hora das massas enfrentarem e combater o imperialismo se organizando no campo de sua independência de classe e, assim, erguer a tática da Frente Única Anti-imperialista baseada na unidade da classe operária do continente para expulsar os EUA e derrubar os governos serviçais. Essas tarefas estão plenamente colocadas à vanguarda de toda América Latina. E isso exige organizar as massas sob um plano comum de reivindicações que unifique sua ação por cima das fronteiras nacionais para derrotar seu principal inimigo: o imperialismo norte-americano. A construção de partidos proletários revolucionários e internacionalistas se faz necessário para que cada destacamento nacional do proletariado caminhe no sentido de sua independência de classe, rompendo com os governos burgueses e avançando assim a seu programa e estratégia revolucionária.