O Internacionalista n° 38 / NOTAS INTERNACIONAIS / abril de 2026


A guerra contra o Irã está refletindo-se nos EUA como aumento exponencial dos combustíveis, nos custos de fretes e seguros, bem como de matérias-primas de inúmeros processos produtivos (hélio, alumínio etc.). Sobretudo, se refletirão no segundo semestre como aumento exponencial dos preços de produtos e bens de consumo massivo. A redução drástica e destruição das condições de produção para extração e refino de petróleo impactará por sua vez em inúmeros processos produtivos, especialmente fertilizantes, que terão imediatas consequências nos preços de produtos agrícolas.
Observa-se ainda uma corrida dos governos e estados para retirar suas reservas depositadas nos EUA e venda de títulos da dívida em dezenas de bilhões de dólares, produto da guerra contra o Irã. Isso pressionará sobre o déficit que já chegou na casa de US$ 1,24 trilhão: um saldo negativo de 32,6% em transação de bens e serviços (dezembro de 2024/dezembro de 2025). Longe de diminuir as importações e aumentar a produção nacional para exportação, as tarifas arbitrárias apenas serviram a uma transferência de mais-valia criada em outros países para o estado norte-americano, mas não para setores dos capitalistas industriais que viram aumentar seus custos e preços de produção ao internalizar o aumento das taxações à produção de bens no país. As importações de bens subiram 3,8%: US$ 280,2 bilhões impulsionadas pelo aumento de US$ 7 bilhões em suprimentos e materiais industriais. As promessas de “re-industrializar o país” dificilmente vingarão, embora fatores mundiais possam ajudar ao deslocamento de parcela de forças produtivas desde Europa para EUA.


Economia nacional em frangalhos acelera as tendências da crise política

Isto acontece em meio a uma tendência histórica de desindustrialização e de “financeirização” da economia estadunidense. O crescimento econômico mais recente se explica, em grande parte, não apenas pela apropriação de mais-valia produzida fora do país por imposição de tarifas, mas também de investimentos de capital-dinheiro em IA e em equipamento bélico que não se reverte – ao menos não imediatamente – em produção de mais-valia ou riqueza social. Neste caso particular, nos referimos a uma transferência de capital do setor público e dos assalariados para o capital privado, sobretudo, via corte orçamentário dos serviços públicos.
Quando falamos de “financeirização” não nos referimos a uma fase particular e distinta do capitalismo, e sim a uma tendência de ruptura entre a realização de lucros do capital financeiro em relação à produção industrial. Ou seja, a uma mudança na forma da fusão entre capital financeiro e industrial, ao não reinvestimento em capital constante (meios de produção) que modifique a composição do capital (maior capital constante e menor variável), enquanto se recorre (quase que exclusivamente) à maior exploração da mão-de-obra assalariada e ao parasitismo sobre o Estado. De forma que “A alta inflacionária não é produzida, logo, por uma demanda imediata, mas por uma maior dependência entre os Estados nacionais, mesmo os imperialistas”. Falamos, então, de uma fase de completa decomposição da burguesia em que o capital-dinheiro e capital de crédito que não modifica a “composição orgânica do capital” e nem recorre à “ampliação do capital constante, dos meios de produção”, encurtando os ciclos das crises econômicas locais e a crise capitalista (“Pontos sobre a situação econômica dos EUA”, OI n° 2, março de 2026).


Mecanismos de “capitalismo de estado”, militarismo e centralização autoritária

Soma-se aos aspectos colocados acima a espiral inflacionária como resultado direto da guerra. O que aprofunda a crise ao aumentar os preços de produtos de consumo popular e produtivo nos EUA, reforçando a via parasitária que detalhamos de forma sintética anteriormente. Nesse sentido, poder-se-ia caracterizar a política econômica atualmente nos EUA como regida pela aplicação de mecanismos de “capitalismo de Estado”, na que o estado regula e intervém no funcionamento da economia de setores produtivos associados à indústria de guerra, garantindo com sua intervenção não apenas os lucros de uma gangue capitalista e monopolista plenamente integrada à estrutura do Estado, como fundamentalmente o financiamento de seu funcionamento. Nesse sentido, existe uma intervenção estatal na livre “circulação” e “distribuição” de capitais entre setores produtivos que ao invés de “regulados” pela ação do livre mercado são determinados centralizadamente desde o governo e o Estado. Esses mecanismos políticos decorrem da fusão dos monopólios na política econômica do Estado. É que se observa com o aumento das guerras declaradas por Trump e suas intervenções militares que lubrificam essas relações. As ações do Estado criam as condições materiais para uma fração capitalista lucrar aumentando os meios de vigilância e destruição. Em outras palavras: a centralização autoritária das instituições e o terrorismo interno e externo são intrínsecos a esses “negócios”.
Esse processo não acontece, é claro, em uma linha reta. Porém, a consolidação da estrutura e relações econômico-institucionais acima descritas, condicionam as tarefas e medidas políticas que deve realizar o Estado imperialista para consolidar esse “capitalismo de estado” constituído sobre bases econômicas parasitárias, que se estendem pelo mundo inteiro. Como afirmava Trotsky (“Bonapartismo, Fascismo e Guerra”, 20 de agosto de 1940), o imperialismo procura resolver suas contradições por meio da extensão ou modificação das fronteiras nacionais, conquistando territórios etc. Na situação de aberta decomposição, pode tender a erguer um “estado totalitário” visando subordinar todos os aspetos “da vida econômica, política e cultural ao capital financeiro” objetivando que o fortalecimento da intervenção ditatorial do Estado na vida civil e econômica imponha um “império imperialista, o domínio dos continentes [a exemplo de toda América, N.E.], o domínio do mundo inteiro”.


As eleições legislativas de outubro podem atingir os objetivos de Trump

No sábado 28/03, gigantescas manifestações por todo o país, protestaram contra a guerra contra o Irã e a política de militarização de cidades e aeroportos de Trump. Um setor da mídia norte-americana chamou-as das maiores registradas na história do país: mais de 8 milhões em mais de 3,3 mil cidades. Não apenas se trata de uma continuação das manifestações de outubro do ano passado sob o mesma lema “Nenhum Rei” (“No Kings”) que protestavam contra as ações terroristas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega), agora se estende a uma revolta contra uma guerra rejeitada por mais de 65% da população, que torna-se uma revolta contra o aumento dos preços e rebaixamento das condições de vida que vem se alastrando por décadas, dando um salto à frente com a inflação dos preços que afetam inúmeras cadeias de produção rebaixando o poder de compra e condições de vida.
Não há como ocultar que a guerra tarifária e intervenções bélicas vem desestabilizando as relações entre as classes. O quadro de conflitos se manterá durante este ano e se refletirá nas eleições legislativas de outubro. Existe o perigo de Trump perder a maioria no Congresso. Que, evidentemente, poderão ser capitalizadas politicamente por democratas e até republicanos que se afastaram de Trump. Caso essa situação se concretize, os massivos protestos ficarão como base de manobras dos partidos da ordem burguesa imperialista, deixando em pé o regime e suas bases, que são a causa profunda da crise.
O movimento MAGA é ciente desse perigo, o que o empurra a extremar sua posição centralizadora e autoritária. Um passo foi dado para restringir o voto em estados democratas, reduzir ou impedir o voto por correio, modificar colégios eleitorais e até modificar legislações para garantir uma maioria republicana artificial. Se vingarem ou forem apoiadas pela maioria no Congresso, essas medidas constituirão um claro um golpe contra os procedimentos seculares da democracia burguesa norte-americana e modificará as relações políticas por métodos antidemocráticos. Se bem é pouco provável um golpe anulando as eleições (isso significaria agravar as contradições sociais e abrir caminho à luta de classes), isto se deve ao fato de que não existe uma fratura no funcionamento das instituições. O Congresso tem sido uma caixa de ressonância das ordens ditadas pelo poder executivo. Deputados e senadores são ainda peças do lobby empresarial que determina e condiciona a política legislativa, o que conjunturalmente fecha a trilha para a formação de um governo tipicamente bonapartista.


As condições externas agravam o curso da crise política interna aos EUA

A guerra declarada pelos EUA e Israel contra o Irã destruiu os alicerces das relações políticas e econômicas mundiais e arrastou os países para uma guerra em escala mundial. O choque fundamental se dá entre os países imperialistas e aliados contra os estados operários degenerados e aliados. A guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia e, agora, a guerra contra o Irã, não apenas acelera a ruptura do equilíbrio instável nas relações políticas e estatais, como inicia uma nova etapa de imposição pela força militar de uma nova partilha do mundo. Mas, é impossível aos EUA impor essa redivisão sem acelerar, ao mesmo tempo, a mudança do regime político interno. Para proceder a impor seus objetivos pela força militar em política exterior, deve esmagar qualquer perigo social, político e institucional que possa vir a entravar (ou minimamente a dificultar) os objetivos definidos pelos monopólios que tomaram diretamente em suas mãos (e por assalto) a direção política e econômica do estado norte-americano.
No O Internacionalista n° 33 de novembro de 2025 (“Para frear o avanço das tendências fascistizantes de Trump, a classe operária terá que romper com o democratismo e avançar na luta de classes”) fizemos uma análise inicial de como essas tendências políticas para uma mudança de regime se manifestavam. A militarização das relações políticas internas e a constituição de um estado policial montado sobre medidas de segurança nacional, mostram como o percurso fascistizante e militarista do governo Trump é a resposta da política e dos interesses burgueses ao retrocesso dos EUA perante a China. Esse processo tem raízes econômicas que mergulham até os anos de 1960 quando as forças produtivas e a economia industrial estadunidense começam seu declínio, que foi agravado e acelerado com a ascensão chinesa.
Esse prognóstico histórico temos desenvolvido e explicado desde a publicação do primeiro jornal O Internacionalista, em fevereiro de 2023 (recomendamos acessar os PDF nosso site, ppri4.org). Entretanto, fazemos aqui essa apertadíssima síntese para demonstrar que não se trata de uma eleição pessoal de Trump seguir uma política fascistizante e militarista, mas sim ele mesmo é um vetor político do processo histórico, enquanto suas qualidades políticas e morais pessoais: Trump encarna uma força econômica histórica em decadência que se manifesta na superestrutura política do estado.


Trump: um governo em transição inacabada ao bonapartismo

A fusão dos capitalistas com o Estado para sustentar a acumulação de capital-dinheiro, ditando sua política externa e interna ao governo. Isso se observa em como as decisões de governo se refletem, diretamente, nos lucros da indústria militar, petrolífera e tecnológica – fundamentalmente. Isto se passa impondo a outras frações maiores custos e perdas, como acontece com o setor de maquinaria, automotrizes, produção agrícola etc. Como assinalamos no OI n° 33, “O bonapartismo de Trump possui todos os elementos constitutivos “clássicos”” de um produto da “profunda crise econômica, social e política”, que elevou ao comando do Estado a “frações da burguesia diretamente relacionada à burocracia estatal”, e cujo objetivo é “arbitrar e administrar os profundos choques entre classes e frações de classe ao redor da apropriação da mais-valia … por meio da centralização autoritária”.
É nas relações entre estado e sociedade civil que o estado policial e centralização ditatorial vem se reforçando para impor os objetivos traçados pela burocracia e os monopólios que tomaram por assalto o estado. A centralização política inclui também as frações da burguesia que estão em choque com a política econômica de Trump. Esse é o real objetivo da declaração de que o “principal inimigo interno” são os democratas. Ao apontar esse partido, Trump busca impedir que a pressão das massas venha se manifestar em frações da burguesia e nas instituições, agravando assim a crise política de seu governo.
Claro que uma possível evolução do governo Trump de sua atual fase semi-bonapartista para um bonapartista claramente definida, não está descartada. Entretanto, se a guerra contra o Irã terminar em derrota humilhante e não conseguir frear a erosão de seu governo em outubro, sendo ameaçado inclusive por um impeachment, essa “passagem” estará fechada. Poderá haver um retorno formal às formas de governo do passado mais recente, e até uma possível vitória democrata em 2028. Não obstante, continuarão presentes as condições que empurram Trump por esse caminho.


O essencial a ser assimiladopela vanguarda anti-imperialista e anticapitalista

Trump é o produto político de um processo histórico profundo. Sua força social reside nas “qualidades” de ele mesmo ser um parasita e de carecer de qualquer preconceito democrático para cumprir seu papel no comando de Estado. Seus métodos são o resultado das contradições insolúveis do capitalismo norte-americano em meio a seu declínio como força econômica e militar mundial dominante. Sua força política pessoal reside em ser um instrumento grotesco dos interesses capitalistas quando se revela à luz do dia sua completa podridão como classe. Por isso não existe qualquer referência a supostos valores políticos e culturais, a teorias econômicas e sociais baseadas em qualquer fundamento científico e nem mesmo qualquer ornamento retórico do respeito dos direitos civis e à democracia liberal nos fundamentos das ações e medidas. Erguem-se no lugar as referências raciais mais rasas, o “excepcionalismo” dos EUA como o país escolhido por Deus vendido pelo evangelismo nacionalista-cristão, enfim, as explicações obscurantistas como medida de valor da política.
Essas “qualidades” do governo republicano surgem à superfície como expressão de um profundo processo econômico, social, político e cultural. Suas tendências fascistizantes e bonapartistas, portanto, decorrem de seu papel na direção e administração de um estado nacional que se eleva acima de uma de uma estrutura econômica e social em decadência. Qualquer saída burguesa nesse marco poderá retardar por alguns meses as tendências de desagregação, mas inevitavelmente terá de assumir medidas semelhantes em todos os aspectos decisivos da política interior e exterior. Lembremos que Trump continuou as linhas mestras traçadas por todos os governos, pelo menos, desde Obama: aumento da beligerância contra China, instrumentalização do cerco militar da OTAN contra Rússia e do conflito bélico contra Rússia, aumento da opressão nacional sobre os países oprimidos, aplicação de políticas econômicas que aprofundam a “financeirização” da economia e projetam sua desindustrialização, aumento dos gastos militares e do intervencionismo (Afeganistão, Síria, Palestina, Irã etc.) etc.
Os métodos institucionais e da democracia formal estão em contradição com os interesses e objetivos das frações do grande capital que procuram garantir seus lucros com uma política agressiva e belicista. A pequena burguesia agrária e urbana está sendo comprimida pela crise econômica, e votou em Trump que lhes prometeu preservar suas condições de existência, e agora os afunda ainda mais no desespero. A classe operária está desarticulada e dirigida por uma direção que não é capaz de erguer uma saída própria para a crise, a não ser recorrer aos mesmos métodos já completamente desgastados, ou à subordinação à grande burguesia e seus partidos da ordem.
Está aí porquê as tendências do governo Trump se desenvolvem no terreno mais favorável aos interesses da fração da burguesia imperialista que controlam o estado. Mas, existe uma possibilidade desse curso mudar em favor dos explorados e oprimidos norte-americanos, caso surja do seio da instintiva revolta das massas uma vanguarda capaz de levantar um programa revolucionário que mobilize os proletários, assalariados, estudantes, pequena burguesia arruinada e juventude oprimida contra a burguesia, criando condições para a derrubada de Trump com os métodos da luta de classes.