


O Internacionalista n° 38 / NOTAS INTERNACIONAIS / abril de 2026
Venezuela
Mudanças no regime chavista preparam sua capitulação
Delcy Rodríguez remove de cargos de decisão a grande parte do “núcleo duro” do chavismo. O nacionalismo-burguês se decompõe e se mostra impotente. Somente um partido revolucionário dirigindo o proletariado venezuelano será capaz de libertar completamente à nação oprimida.
Em 4 de abril, cumpriram-se três meses desde o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da deputada Cília Flores, e na medida em que os dias se passam começa a ficar exposto quão profunda foi a mudança que impôs esse golpe dos EUA ao chavismo. A presidenta interina, Delcy Rodríguez, encabeça uma viragem radical na estrutura do governo e nas relações com os EUA. No governo, foram trocados até 11 cargos e feitas novas nomeações em todos os setores estratégicos da administração. No Ministério da Defesa, o general Gustavo González López substituirá um dos mais destacados quadros da época de Chávez nas FANB: Vladimir Padrino López. Foram trocados ainda os chefes da Aviação, da Armada, da Guarda Nacional e das Milícias. As substituições vão além de uma simples reestruturação formal. Trata-se de uma mudança radical nos quadros do governo que estiveram a cargo da administração do estado e da defesa do país até 2025, o que provavelmente visa adequar a estrutura do governo à nova realidade imposta à força pelos EUA.
Às mudanças nos quadros de chefia das FANB e dos ministérios antecederam a aprovação de leis para facilitar o reatamento das relações diplomáticas, econômicas e políticas com o governo norte-americano: anistia geral aos opositores e ampla flexibilização dos recursos petrolíferos do país à exploração monopolista. A Lei de Anistia para a Conivência Democrática libertou da prisão e de processos a inúmeros políticos, membros das Forças Armadas e empresários envolvidos nas diversas tentativas golpistas e medidas desestabilizadoras (golpes militares, sabotagem industrial, planos de magnicídio etc.) contra o governo nacionalista-burguês em conluio com os EUA. Segundo Delcy Rodríguez, trata-se de “conceder uma anistia geral e plena” para todos os processados por delitos desde 1999 (quando Chávez assumiu a presidência da Venezuela). Deixa-se de fora às “violações graves aos direitos humanos, delitos de lesa-humanidade e crimes de guerra”, homicídio intencional, corrupção e tráfico de drogas. Eis como, diz o governo, se logrará a “convivência democrática e a reconciliação nacional”.
Rodríguez outorga uma anistia para todos os que atentaram contra a nação oprimida ao mando dos EUA. Renomeadas lideranças da oposição organizaram ações onde os “homicídios intencionais” eram uma consequência lógica (e desejável pelos direitistas) dos objetivos golpistas. Essas mesmas lideranças se corromperam com dinheiro dos EUA para atentar contra a soberania nacional, além de defender o roubo de ativos pelos EUA para financiar a oposição. Assim, a “reconciliação” não fortalecerá o chavismo e sim a oposição golpista que utilizará sua liberdade “imposta a tiros e chantagens” para derrubar o governo e instaurar um governo entreguista e servil aos EUA.
A Lei de Hidrocarbonetos é um projeto de dezembro de 2025, portanto, um mês antes do sequestro de Maduro. Foi apresentada para tentar negociar com o imperialismo o fim do cerco militar e permitir a entrada de divisas para comprar as importações de bens e produtos para consumo popular e para manter funcionando minimamente a economia nacional. Sequestrado Maduro, houve modificações no projeto após a piora das condições do chavismo em negociar. Dentre outras medidas, a lei facilitará o outorgamento de licenças à exploração de petróleo e gás e o rebaixamento de impostos sobre a produção e os lucros visando atrair capitais estadunidenses. As consequências não se verão imediatamente, uma vez que retomar os níveis de produção anteriores ao brutal bloqueio dos EUA sobre o país pode levar vários anos. Enquanto isso, o imperialismo já tomou posse e enviou para os EUA enormes volumes de petróleo estocado antes do sequestro de Maduro que não apenas não estavam comprados pelos EUA, mas que iriam para Cuba e China.
É nesse quadro que é necessário analisar que a guerra contra o Irã, especialmente a derrubada de aviões estadunidenses e israelenses (inclusive do mais moderno F-35) pelas defesas áreas iranianas S-300 e Buk (da mesma procedência russa) sem que fossem desativadas, demonstrou que a tal “arma miraculosa” que “desativou” os radares russos, tão propagandeada por Trump, nunca existiu. A Direção General de Contra-inteligência Militar (DGCIM) do país, segundo o site PRAVDA (russo), aprendeu membros das forças área – incluídos generais – acusados de desativar os radares ou, quanto menos, de incompetência por não estarem “operacionais” no momento dos ataques aéreos dos EUA. Ou seja: não foi hardware que falhou e sim houve negligência ou traição de militares. Se se verificar verdadeiro esse fato, explicará como foi possível aos EUA entrar no país, massacrar 35 cubanos e sequestrar Maduro.
Até onde levará essas violentas mudanças nos quadros de direção, não podemos prever. Mas, podemos sim prever que haverá uma mudança rápida nos pontos de apoio internacional e internos. Serão atingidos, fundamentalmente, os interesses da China e Rússia. Esses países aliados do chavismo vêm perdendo espaço na América Latina ao não confrontarem a ofensiva imperialista e não ajudarem na defesa mais ativa da Venezuela quando estava sob cerco militar. Se bem o governo não foi destituído, está cedendo uma posição atrás da outra. O que poderia ter sido entendido em algum momento como “recuo tático” do chavismo sob a violenta pressão dos EUA está se mostrando uma via à capitulação.
Nos fatos, o rumo traçado pelo “novo” governo chavista é uma ruptura com o passado e uma entrega do direito a determinar sua política petrolífera. Os EUA sequestraram de fato a economia nacional e agora se outorgaram o direito de restringir transações, venda de petróleo, pagamentos em ouro ou qualquer outra transação com Rússia, Irã, China e Cuba. Esse fato demonstra que a suposta “revolução chavista” nunca alterou a estrutura econômica e a relações entre as classes ao interior da nação. A burguesia nacional aceitou de bom grado todas as medidas de Rodríguez porque pretendia fazer negócios com o imperialismo – como fez antes com o chavismo. Sem se apoiar nas massas e contando exclusivamente com a lealdade das FANB, agora que essas frações de classe e a burocracia estatal parasitária do estado decidiram se curvar, sai à luz a total e completa impotência do nacionalismo-burguês em cumprir a tarefa democrática de conquistar a independência e autodeterminação nacional. Não é por acaso que a “limpeza” no exército e no Estado coincide com os interesses imperialistas de desativar os núcleos duros do chavismo, facilitar a ação da oposição reacionária e retomar o curso de subordinação nacional da Venezuela aos EUA como antes de Chávez.
No momento do ataque de 3 de janeiro e ainda dias depois desse, não era ainda possível saber o grau de decomposição do governo. As massas acreditavam que a direção chavista estava disposta a resistir e tomaram a decisão de defender a nação: 4 milhões de venezuelanos se inscreveram nas milícias sob direção das FANB. Nesse quadro, o PPRI defendia como tática estar junto das massas e de seu governo se estava disposto a resistir junto delas. É certo que não houve intervenção terrestre, mas ainda assim havia como golpear o inimigo dentro do país, tomando o controle das empresas imperialistas, expropriando-as e as resguardando com as massas em armas. Essa medida teria dado um claro sinal de que seu governo decidiu se apoiar nas massas e resistir às pressões. O que não aconteceu, uma vez que o chavismo decidiu seguir a trilha da conciliação com os EUA. Ainda se organizam e convocam mobilizações para a libertação de Maduro. Mas, não está no centro da política e diplomacia do atual governo, toma-se quase como um fato consumado e nada é feito para impor aos EUA sua libertação. Enquanto isso, a Rússia e a China decidiram ficar de braços cruzados antes e depois de 3 de janeiro, mostrando quanto a burocracia herdeira do estalinismo é incapaz de prestar ajuda limitada às nações oprimidas.
O essencial da nova situação política é que a decomposição do chavismo se demostrou mais avançada do que o conhecimento empírico poderia alcançar, e que as massas exploradas e oprimidas se encontraram sem qualquer liderança nacionalista-burguesa disposta a convocá-las a ocupar lugares estratégicos dos monopólios imperialistas para pressionar os EUA e a oposição vende-pátria. O chavismo completou seu ciclo histórico e demonstrou-se impotente para mobilizar as massas contra os interesses imperialistas e na defesa da autodeterminação nacional quando mais se necessitava. É pela mesma razão que as direções sindicais e políticas da base do governo de frente ampla burguesa de Lula não convocam novas manifestações e abaixam as bandeiras de defesa do governo envergonhadamente.
Nas condições concretas criadas pelo rumo da capitulação do chavismo, não há como defender a nação oprimida sem romper com os remanescentes chavistas que se acomodaram às imposições norte-americanas. Se era criminoso combater ou chamar a derrubar o governo chavista quando esteve sob ataque dos EUA, é criminoso agora não organizar as massas para passar por cima deste sob seu próprio programa e estratégia de poder. O proletariado deve assumir a luta para expulsar o imperialismo e nacionalizar todas suas propriedades, bem como as da burguesia nacional intermediária criada sob proteção do chavismo, além de varrer os burocratas dos sindicatos para, assim, avançar nessa luta sob uma Frente Única Anti-imperialista. Eis como se avançará na verdadeira autodeterminação nacional, o que exige ainda construir o partido revolucionário que dirigirá a luta do proletariado pelo poder.