O Internacionalista n° 38 / SINDICAL / abril de 2026


Nas últimas décadas, o magistério paulista vem sofrendo com os inúmeros ataques dos diferentes governos. Nos anos 1980, o governo Orestes Quércia iniciou o enxugamento da máquina pública priorizando o pagamento da dívida pública em favor do capital financeiro, e reduzindo os investimentos no setor público, sobretudo na educação.
Esse período é marcado pelo aumento da oferta do ensino, mas sem os investimentos necessários para a educação no estado para cobrir toda a demanda. As salas lotadas e o congelamento dos salários foram o resultado, motivo de greves na rede estadual de ensino.
Nos anos 1990, os governos de Antônio Fleury e Mário Covas continuaram a impor as políticas econômicas do imperialismo para a América Latina, ampliando a política denominada neoliberal para a ampliar os cortes nas áreas da educação e saúde, em detrimento do favorecimento da iniciativa privada.
Os governos do PSDB, com Geraldo Alckmin e José Serra, foram marcados pelo fechamento dos períodos noturnos e das EJAs, da política meritocrática e da bonificação que substituiu os reajustes salariais e impôs, nos fatos, seu congelamento.
O governo de João Dória foi o governo das reformas da previdência e administrativa, da imposição das escolas de período integral, da imposição da BNCC e novo ensino médio com o ensino à distância.
Tarcísio, junto com Feder, tem aprofundado a reforma administrativa por meio de várias resoluções. Tem sido também o governo que colocou em prática a avaliação de desempenho com a sua política de faróis que gerou milhares de desempregados nos últimos anos. Esse ano, o agravante foi a avaliação de desempenho e as mudanças na composição da pontuação da atribuição de aulas. Milhares de professores, alguns perto de se aposentarem, ficaram adidos, outra parcela viu sua jornada ser reduzida para apenas 19 horas/aulas.
Antes esses ataques eram respondidos com os métodos da luta de classes, com as greves, ocupações e travamento das principais avenidas de São Paulo com milhares de professores. Mas, conforme a direção burocrática da Apeoesp aprofundou sua política eleitoreira e de ação parlamentar para impor como política central do sindicato a conciliação, atrelada às ações judiciais, os professores vão cada vez mais perdendo direitos, salários e conquistas históricas alcançadas com muitas lutas.
Desde o ano passado, já prevendo os impactos dos fechamentos de salas, turnos e da avaliação desempenho, colocamos por meio da Corrente Sindical Marxista – Guillermo Lora (CSM-GL), e por meio da Unidade Independente Classista e Combativa (UICC), a necessidade de organizar os professores já desde o final do ano. A direção se recusou. Insistimos ainda para que houvesse desde o início do ano a construção da greve, entretanto, a direção freou a luta jogando a assembleia para março. Abortando a luta desde o começo do ano, a burocracia logo colocou um calendário limitado de greves nos dias 8 e 9 de abril. O que favoreceu o governo que teve mãos livres para impor as demissões. A direção praticamente não tem feito comandos entre as bases nas escolas para colocar em prática seu próprio calendário. Isso demonstra que está disposta a mais uma vez impedir as greves para favorecer a campanha eleitoral. E como não querem fazer a luta, apostam apenas na mobilização por meio de matérias pagas na mídia e nas redes sociais.
Apesar das dificuldades, os militantes da CSM-GL temos visitado as escolas e chamado os professores para aderirem ao movimento. Não há como romper a paralisia e traições da direção governista sem organizar a luta desde as bases. Temos percebido ainda que uma grande parcela dos professores não conhecem o instrumento da greve, muitos se sentem bastante pressionados pela política de assédio moral e não confiam na direção sindical.
Os 11 anos sem greve por tempo indeterminado, fizeram surgir uma parcela de professores que não conhecem os métodos da ação direta que permite avançar em sua consciência com a luta de classes. É mais um obstáculo o fato de mais de 50% dos professores serem contratados, muitos não são filiados, enquanto uma parcela sequer compreende como funciona a luta sindical. Tudo isso são travas objetivas para os trabalhadores assumirem seus métodos e táticas próprias de luta. Essa situação é de responsabilidade da direção pelega e de sua política de conter as lutas colaborando com os patrões ao invés de impulsioná-las.
Ainda assim, o governo não quer qualquer manifestação de rua que possa levar a uma luta. Como tentativa de arrefecer o movimento, o governo soltará no próximo dia 10 de abril a bonificação por resultados. Como é ano eleitoral, possivelmente um número maior de escolas e professores ganhará essa migalha. É possível também que o governo aplique o reajuste de 5,4% concedido pelo governo federal (seja de uma só vez ou em “cômodas” parcelas anuais). Estamos convencidos que a direção burocrática da Apeoesp deve estar costurando algum acordo nesse sentido para apresentar a migalha como “vitória” e usá-la como campanha eleitoral.
Está claro que a direção se recusa a ser consequente e organizar os professores por meio da luta de classes para barrar os ataques de Tarcísio com relação aos congelamento dos salários, sua avaliação de desempenho punitivista, ampliação dos trabalho por meio das plataformas, entre outros. Faz isso porque está submetida à política da Frente Ampla, ao governo Lula que aplica o arcabouço fiscal, a ampliação das privatizações, os cortes de verbas dos serviços públicos e o congelamento salarial do funcionalismo público federal etc. Esse último é o motivo da greve dos técnicos das universidades federais que tentam obrigar o governo Lula a aplicar parte de seu acordo assumido na greve anterior de 2 anos atrás.
A direção da Apeoesp não pode ser consequente na defesa da categoria, porque ao defender o governo Lula e a democracia burguesa, esmaga e trai as tendências de luta sacrificando direitos e salários em troca de votos. Isso fica evidente quando diz que o enfrentamento a Tarcísio se dará nas urnas, deixando os professores e demais trabalhadores da educação à mercê das políticas de destruição dos serviços públicos.
Se os ataques continuarem nesse ritmo e, sem uma resposta à altura, está claro que nos próximos anos restará muito pouco ou quase nada dos serviços públicos, e sobretudo, dos direitos e conquistas trabalhistas. A iniciativa privada vai engolir quase tudo, pegando o dinheiro dos governos e devolvendo serviços ultra rebaixados, como o que já ocorre nos transportes, saneamento básico, setor elétrico, etc.
Quando a direção defende a democracia burguesa e está afundada na colaboração de classe, tenta esconder que o governo de São Paulo aplica as mesmas políticas que são gestadas e aplicadas também no governo Lula, mesmo com pequenas diferenças. Tenta esconder que na fase atual da crise do capitalismo, nenhum governo – e nem o parlamento – poderá beneficiar as massas exploradas com qualquer medida que amenize a destruição de suas condições de existência. É por meio da democracia burguesa com seu parlamento, sua justiça e demais instituições que as necessidades do grande capital são impostas contra os interesses dos trabalhadores. É por meio da luta de classes que os trabalhadores conquistam suas reivindicações e impõem seus direitos. A primeira escolha leva ao servilismo e traições, a segunda a forjar uma direção classista e revolucionária capaz de combater e derrotar a burguesia e seus governos.