


O Internacionalista n° 39 / maio de 2026
Editorial Internacional
A irracionalidade da produção capitalista que se manifesta em sucessivas intervenções e guerras de dominação continua a levar o mundo à beira do abismo da Guerra Mundial
O início dos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã acabam de completar dois meses. No momento em que este editorial é escrito, mantém-se um delicado cessar-fogo entre as partes, iniciado dia 7 de abril e prorrogado na penúltima semana de abril. O perigo da retomada da guerra não foi afastado. Não é por acaso que o estreito de Hormuz segue controlado pelo Irã, com este permitindo a passagem de navios não ligados aos EUA e Israel, mediante o pagamento de um pedágio. Os EUA tentam forçar o rompimento do bloqueio com navios militares, enquanto oferecem um plano para “guiar” os navios para saírem do estreito. O controle do estreito pelo Irã é um valioso instrumento de pressão sobre os EUA por suas consequências na economia mundial.
Já Israel, por outro lado, precisa se manter em conflito, por dois motivos: Porque o sionismo entendeu este momento histórico uma brecha para acelerar seu plano estratégico (a Grande Israel) e porque o cargo de primeiro-ministro blinda Netanyahu das acusações de corrupção e de uma possível prisão. Portanto, agora ataca o sul do Líbano, visando sua anexação e a destruição do Hezbollah, enquanto se expande rapidamente – violentamente – a colonização da Cisjordânia.
Em que pesem os distintos interesses entre EUA e seu “porta-aviões” no Oriente Médio, as negociações continuam em Islamabad, onde o Irã deseja encerrar a guerra em 30 dias, negociando o fim de todas as sanções e de todas as hostilidades por parte de Israel e EUA contra si e contra o Líbano. Depois dos dois meses de guerra, está claríssimo que os EUA arcam com uma derrota tática e estratégica enorme. Tática porque o Irã detém, neste momento, uma clara vantagem nas negociações, visto que tem o controle da passagem de 20% do petróleo mundial; e estratégica, porque nada mudou estruturalmente no país: o regime teocrático saiu fortalecido apesar das baixas na direção política e militar, as massas se unirem ao redor do governo em defesa da nação e Irã demonstrou capacidades tecnológicas e de produção de avançados armamentos planejados para a guerra assimétrica. É consenso entre analistas das mais variadas origens e ideologias que a potência imperialista decadente subestimou absurdamente a República de feições teocráticas. Esta, ainda que economicamente muito abalada, passando por uma piora nas condições econômicas (desvalorização do rial, aumento do desemprego, etc) não dá sinais de que irá cair. Ao contrário, mantém-se firme ao possuir uma capacidade de barganha gigantesca.
O estrangulamento do estreito afunda a economia mundial em uma nova crise, com o preço dos combustíveis aumentando exponencialmente em todo o mundo. Esta crise já é sentida, principalmente nos países do sudeste asiático, a exemplo Bangladesh e Sri Lanka, que estão impondo racionamento dos combustíveis. A Europa sofre também com a crise, ainda que siga vassala aos interesses dos EUA, e a prova disso é a subserviência da maior economia europeia (Alemanha) aos seus ditames militares. Se já não bastasse o “tiro no pé” dado pelos alemães ao deixar de comprar gás barato vindo da Rússia, e empurrar a sua economia para a estagnação desde 2023, os efeitos do fechamento do Estreito de Hormuz piorarão este cenário neste ano, com previsão de crescimento de apenas 0,5% em 2026 (no melhor dos cenários). Justamente, a saída rápida que sua burguesia para esta situação é aumentar seus gastos militares, em detrimento dos gastos sociais. A tendência geral em toda Europa é esta: a corrosão lenta, mas persistente, da qualidade de vida nos países, inclusive naqueles mais ricos. O que impulsiona poderosamente uma política exterior mais agressiva para tomar posse de novos recursos e mercados para, ainda seja conjunturalmente, equacionar as tendências de desagregação e luta de classes.
Ainda que, por um lado, haja vozes críticas entre as burguesias europeias a respeito dos EUA terem arrastado o mundo para essa crise energética, criando efeitos negativos na economia mundial a curto prazo, por outro lado, a médio prazo, é de interesse das burguesias dos países imperialistas que as guerras pipoquem cada vez mais no mundo. Com a estagnação de décadas da Europa e a crise econômica de longa duração surgida nos EUA, a indústria bélica e a destruição de cidades, regiões e países inteiros – isto é, destruição de forças produtivas –surgem como respostas de curto prazo para darem um respiro ao capitalismo imperialista morinbundo.
Desta maneira, é também de interesse que todos os países que se chocam com essa lógica, que não se submetam a ela, independentemente do motivo, sejam submetidos ou destruídos – se resistirem. Israel serve a este propósito no Oriente Médio, como um agente desestabilizador, com o intuito de destruir qualquer voz que destoe da ideia de pax imperialista. Neste contexto, finalmente entram Rússia e China, com aquela sendo considerada uma ameaça existencial imediata pela Europa decadente e esta, como ameaça à hegemonia econômica, política e militar aos EUA. Ainda que as burocracias de Rússia e China desejem manter relações minimamente amistosas com o imperialismo, este precisa da destruição total das forças produtivas daqueles países, construídas sobre a grande propriedade nacionalizada, fruto das revoluções socialistas. O “respiro”, por assim dizer, do imperialismo putrefato só virá, portanto, se Rússia e China voltarem a serem semicolônias, e da reconstrução de suas economias e forças produtivas sob controle imperialista
Diante deste cenário, qual deve ser a postura das massas? Se o capitalismo não tem mais nada a oferecer, a não barbárie e destruição, toda e qualquer ação e postura e imponha uma derrota, ainda que pequena ou circunstancial ao imperialismo (estágio último do capitalismo), deve ser realizada e incentivada. Ergue-se como essencial neste século XXI a construção de uma Frente Única Antiimperlista, que una às massas proletárias e oprimidas, bem como a todos os grupos políticos que defendem os métodos e a estratégia revolucionária, sob a política e programa revolucionários do proletariado. Ademais é necessário defender todas as conquistas das revoluções socialistas do século passado, em especial a grande propriedade nacionalizada: a maior de suas conquistas históricas. As massas devem confiar apenas em si mesmas, recuperando para si o programa político do proletariado da revolução social, construído e testado historicamente. Do contrário, se não houver esta luta, organizada sob uma direção verdadeiramente revolucionária, a tendência de destruição da humanidade pelo irracionalismo da reprodução do capital se imporá cada vez mais.