O Internacionalista n° 39 / MOVIMENTOS / maio de 2026


O Acampamento Terra Livre (ATL) em sua 22ª edição, é uma mobilização nacional dos povos indígenas, realizada anualmente, desde 2004, que tem como objetivo dar visibilidade às pautas e aos direitos indígenas, reivindicando do Estado Brasileiro o atendimento das suas demandas e reivindicações. Em 2026, o ATL ocorreu em Brasília, entre os dias 5 e 11 de abril, com o lema: “Nosso futuro não está à venda: A RESPOSTA SOMOS NÓS”, revelando a luta para garantir os direitos territoriais frente à ganância das grandes empresas, que invadem e exploram a natureza, destruindo ecossistemas e a biodiversidade, portanto, as condições de existência dos povos originários em benefício dos lucros monopolistas. Assim, o evento focou na urgência da demarcação de territórios, no combate à exploração predatória e no “fortalecimento” de candidaturas indígenas nas eleições de 2026.
O ATL 2026 reuniu cerca de 7 mil indígenas de aproximadamente 200 etnias, que durante uma semana realizaram debates, plenárias, atividades culturais e manifestações de rua. A maior manifestação ocorreu no dia 9/4, na Esplanada dos Ministérios em direção à Praça dos Três Poderes, tendo como tema da marcha “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”, com o intuito de cobrar as homologações paradas bem como homenagear lideranças assassinadas em conflitos fundiários.
Destacamos outras atividades, que demonstram a limitada independência política do movimento frente ao governo de frente ampla Lula/Alckmin e suas ilusões em conquistar suas reivindicações e defender seus direitos dentro do quadro das instituições burguesas, tais como: Marcha “Congresso inimigo dos povos: Nosso futuro não está à venda”; Plenária “Terra Demarcada: Vida Garantida”: Atuação governamental na política indigenista; Plenária “PL 6132/2025 – Criação da Universidade Federal Indígena e a Implementação da Política Nacional Indígena e Territórios Etnoeducacionais” (FNEEI).
Como podemos observar, o acampamento tem como objetivo maior buscar resolução para suas demandas pela via parlamentar, confiando suas reivindicações nas negociações com “seus representantes” no governo, dentre elas a ex-ministra dos povos indígenas Sônia Guajajara, que acompanhou parte da programação. Neste sentido, as reivindicações foram direcionadas aos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Na carta de abertura do ATL 2026 foi enumerada as reivindicações para cada um dos poderes, sendo para o poder executivo exaltado primeiramente uma série de avanços, tais como a criança do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) bem como a presença de lideranças indígenas em espaços estratégicos do estado e como reivindicação central ao executivo a demarcação e proteção dos territórios e das vidas indígenas. Para o legislativo ressaltam apenas o repúdio à atuação como “uma máquina de retrocessos, atuando como inimigo dos povos, produzindo ataques cotidianos às nossas vidas e submetendo nossos direitos a um balcão de negócios.” E por fim, para o judiciário pede, acima de tudo, “respeito a constituição”, além de ressaltar que “segurança jurídica é terra demarcada e protegida, é povo vivo, com nossa cultura e direitos respeitados”. Finalizando com a acusação de que “toda decisão que abre caminho para a violação será lembrada como cumplicidade com a continuidade do neocolonialismo sobre nossos povos e territórios”.
Apesar da cooptação das lideranças indígenas pelos partidos governistas (PT e PSOL principalmente), o ATL coloca em destaque pautas de grande relevância para o movimento indígenas bem como denúncia uma série de atrocidades desfechadas sob os territórios, dentre elas ganha destaque a luta pela demarcação, anunciando que 76 Terras Indígenas estão prontas para homologação e aguardam apenas a assinatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras 34 dependem de portaria do Ministério da Justiça para dar continuidade aos processos; a luta contra o marco temporal, que pode interferir diretamente nos processo de demarcação em andamento; denuncia o agravamento da violência nos territórios e a persistência de conflitos fundiários sem solução, que mantém comunidades expostas a invasões, disputas e violações de direitos; reivindica a proteção dos biomas, por meio do combate à mineração/exploração em áreas protegidas, se contrapondo aos projetos de privatização dos rios e de concessão a grandes empresas para exploração dos recursos naturais, principalmente no território amazônico; e por fim a exigência de políticas de mitigação da crise climática com o protagonismo indígena.
Sobretudo, como podemos evidenciar, é a submissão do movimento ao governo Lula que faz com que as principais críticas sejam direcionadas apenas ao congresso e ao judiciário, mas não ao governo, que supostamente não consegue atender às reivindicações dos povos indígenas em função do congresso conservador, inimigo do povo. O ATL é marcado pelo caráter eleitoreiro, não apenas por demonstrar expectativa na reeleição de Lula, mas com foco no fortalecimento da “bancada do cocar”, que começa a preparar a participação nas eleições de 2026, com apoio a candidaturas indígenas.
Ao separar a responsabilidade dos ataques entre as instituições que compõem o estado burguês que os oprime, as lideranças indígenas procuram evitar um choque de suas bases com o governo para apresentar como única via possível para conquistar suas reivindicações a via eleitoral (reeleição de Lula e candidatos indígenas). Essa é a via de sua submissão aos ditames do estado que favorece o avanço dos capitalistas, latifundiários, mineradoras e garimpeiros que roubam suas terras e devastam o meio-ambiente do qual eles sobrevivem. Não avançará nem um milímetro a defesa de suas reivindicações e direitos enquanto estiverem submetidos à democracia e governos burgueses. Somente avançará quando imponham suas reivindicações com a luta de classes. E isso significa erguer o programa de sua autodeterminação sobre todos seus territórios ancestrais expropriando à burguesia. Portanto, será efetivada com a revolução agrária que nacionalizará todas as terras e riquezas do solo e subsolo, medida prévia à entrega das terras originárias para sua autodeterminação, abrindo caminho à reparação efetiva e real de mais de 500 anos de genocidio, roubo e extermínio.