O Internacionalista n° 39 / NACIONAL / maio de 2026


A crise capitalista em todo o mundo é marcada pelas contradições entre o processo da desindustrialização e retrocesso das forças produtivas nos países capitalistas em choque com o processo relativo de desenvolvimento de forças produtivas nos Estados Operários degenerados, fundamentalmente a China, esse fenômeno é parte da atual fase do capitalismo, que na sua fase imperialista, predomina a financeirização da economia e com o parasitismo financeiro em torno dos títulos das dívidas públicas da maioria dos países.
O enorme abismo cada vez maior entre o valor e mais-valia arrancados ao proletariado na produção social, com os juros e valorização da economia fictícia do capital financeiro, que cada vez mais parasitária dos orçamentos do estado, agravam o retrocesso das forças produtivas das semicoloniais e a opressão nacional, arrastando nosso país para aprofundamento da crise econômica, que tende a agravar a crise política.
Esse processo também arrasta potências industriais em declínio, a exemplo do Japão e dos Estados Unidos, que já possuem dívidas públicas que ultrapassam 100% de seus PIBs. No caso do Brasil semicolonial, o endividamento já chegou aos 80,1% do PIB. Certo é que existe uma grande diferença com relação ao nosso endividamento e dos países imperialistas. Em nosso caso, pagamos sob nossa própria taxa de juros que, na atualidade, é de 14,5%. Assim, é sugado um enorme montante de valor por meio da dívida pública, enquanto nos países imperialistas (como Japão e EUA) os juros são baixos, cerca de 0,75% e 3,5%, respectivamente.
Nas economias semicoloniais, como a nossa, existe ainda uma pressão cada vez maior sobre os governos para que a dívida pública seja priorizada, em detrimento das necessidades mais básicas das populações como saúde, educação, moradia, etc. No caso do Brasil, essa pressão está em torno da política do arcabouço fiscal, que substituiu o teto de gastos, e de outros ataques que acabam por jogar a crise sobre a maioria explorada.
O governo Lula se vê numa corda bamba em ter que atender aos interesses do imperialismo em torno da dívida pública, de setores da burguesia nacional, como o agronegócio com o Plano Safra com investimento de mais de 516 bilhões. Soma-se aí a não incidência de receitas sociais de importação para esse setor. Os incentivos fiscais como desoneração da folha de pagamento e outros incentivos como empréstimos via BNDES a juros mais baixos para as empresas nacionais. Soma-se a esse montante a inadimplência dos bancos e da indústria com relação ao INSS e impostos à Receita Federal, esses são parte do saque ao tesouro público nacional. Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), o governo deixou de arrecadar cerca de 544,47 bilhões, aproximadamente 4,4% do PIB em 2025. Outros economistas apontam que o valor pode ser ainda maior, chegando na casa dos R$800 bilhões.
Outro elemento que enfraquece o governo ampliando a crise de governabilidade são as emendas parlamentares e o chamado orçamento secreto. Segundo dados do Portal da Transparência, em 2025 o governo destinou R$8,5 bilhões para as emendas parlamentares. No final do ano esse valor passou dos R$31 bilhões. Para esse ano os parlamentares exigem cerca de R$60 bilhões com um calendário para que o governo solte os valores, como forma de se prepararem para as eleições. Esses valores são destinados a obras e compras de produtos e mercadorias nos estados e municípios por parlamentares, que servem à campanha eleitoral das oligarquias ao atrelar a “entrega” de escolas, centros de saúde, obras públicas etc. em troca de votos. Uma parcela desse dinheirama é investida sem nenhuma transparência, ou é repassada para fundos de investimentos e paraísos fiscais, quando não acabam servindo à lavagem do dinheiro de milícias, narcotráfico e negociatas de inúmeras Igrejas. Com certeza a maior parte dos investimentos vai para empresas ligadas aos próprios parlamentares e a apadrinhados políticos, o que chega à população são produtos, serviços e mercadorias superfaturados e de baixíssima qualidade. Outra fração das emendas são “revendidas” aos municípios, que, por meio de lobistas, recebem os investimentos e repassam uma porcentagem ao parlamentar que a destinou. Mesmo o STF, tendo considerando desde 2022 a prática ilegal, a farra com o dinheiro público continua.
Os últimos escândalos de corrupção na Previdência Social e a falência do Banco Master que se misturou com a CPI do Crime Organizado, com as investigações apontando ligação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e importantes lideranças políticas como o governador do Distrito Federal afastado, Ibanez Rocha, e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, evidenciam o tamanho da crise política em que se encontra a república burguesa brasileira. A situação colocou os ministros do STF na defensiva. Isso se evidenciou com a posição de Dias Toffoli, defendendo a cassação do mandato de parlamentares que atacam a instituição. O problema envolvendo a falência do banco, lideranças políticas, e outros ligados ao alto escalão da justiça e demais instituições do estado burguês, vai longe. Sobretudo se Daniel Vorcaro resolver fazer a delação premiada, a crise institucional será ainda maior e colocará o governo e a institucionalidade burguesa numa posição ainda mais difícil. Com certeza os debates e acordos a portas fechadas vão no sentido de abafar e esconder as sujeiras que envolvem o sistema financeiro, o sistema jurídico, político e até o crime organizado.
A desmoralização do STF com as acusações surgidas pelas investigações do caso do banco Master, não apenas acirrou os choques entre instituições do Estado como colocou contra a parede o judiciário que já não pode se vestir com o manto da imparcialidade e da ética, saltando aos olhos a corrupção dessa casta burocrática que enriquece parasitando do estado e dos negociados. O que vem sendo aproveitado pelas forças políticas do Centrão, e do bolsonarismo, para condicionar o último ano de governo Lula e favorecer seus objetivos eleitorais, além de enfraquecer a capacidade de ação do STF que tem servido à ofensiva direcionada contra certos focos de corrupção que envolvem deputados, senadores, governadores etc.
Esses escândalos vêm sendo canalizados pela extrema direita contra o governo Lula, e tem ampliado a crise de governabilidade acirrando a polarização política entre o PT e a extrema direita. A recente derrota do governo Lula no Congresso Nacional com a reprovação de Jorge Rodrigo Araújo Messias, Advogado-Geral da União, para uma vaga no STF, que era uma indicação direta de Lula, expõe mais uma vez a queda de braço entre o governo e o Congresso Nacional que acaba favorecendo a este. Soma-se agora a derrubada do veto de Lula ao PL da Dosimetria, ou seja, uma manobra do centrão aliado à ultradireita para reduzir as penas pelas ações golpistas de 8 de janeiro de 2023, e poderá facilitar a via da anistia.
A crise institucional no Brasil tem raízes históricas, e seu fundamento reside em que diferentes frações da burguesia, com suas oligarquias regionais, estiveram e estão no controle de alavancas essenciais do estado, a exemplo do Congresso. O que também se reflete na disputa eleitoral com o lançamento de candidaturas da “terceira via”, a exemplo do lançamento da pré-candidatura de Ronaldo Caiada, governador de Goiás (PSD). As oligarquias regionais e as distintas frações da burguesias se organizam ao interior do Congresso para negociar seus interesses. A polarização eleitoral impede uma “terceira via” de vingar. Mas, as candidaturas “alternativas” servem a essas oligarquias para negociar cargos, ministérios e orçamentos com o próximo governo eleito. Esse é o real objetivo dos candidatos da “terceira via”. A venda recente da empresa de mineração de terras raras Serra Verde Group, em Goiás para a empresa norte americana USA Rare Earth, é também parte dessa disputa e manobras ao manifestar a decisão de entregar riquezas ao imperialismo, e abre uma via à negociação com Flávio Bolsonaro que, tudo indica, contará com a campanha de Trump desde os EUA.
Como podemos perceber, o governo de Frente Ampla de Lula/Alckmin, mesmo sendo subserviente dos Estados Unidos e do capital financeiro descarregando a crise econômica sobre os explorados brasileiros com o arcabouço fiscal, congelamento salarial e continuação do desmonte das estatais e dos serviços públicos; e mesmo sendo subserviente das diferentes frações da burguesia e das oligarquias regionais, sobretudo a do agronegócio, se vê refém das forças da crise econômica imposta de fora para dentro do país e, sem capacidade de reagir com uma política soberana e de industrialização, logo se transforma em crise política.
O proletariado e demais oprimidos devem perceber que historicamente as diferentes frações da chamada “elite brasileira”, na verdade as diversas frações da classe dominante (latifundiários, industriais, agroindustriais, capitalistas comerciais e bancários etc.) disputaram entre si qual a fração que lhe corresponderá gerir o estado em aliança com o capitalismo monopolista imperialista, administrar os negócios da burguesia em seu conjunto. As eleições burguesas apenas trocam um partido da ordem e uma fração (ou frações) burguesa por outra no poder do estado, enquanto a maioria nacional explorada e oprimida é arrastada a escolher seu próximo verdugo. Não podemos aceitar que nos arrastem para as suas disputas inter burguesas, sermos peões no tabuleiro da burguesia. Temos que lutar na defesa do método da luta de classes, defender nossas reivindicações, avançar na independência de classe e defender antes, durante e depois das eleições nossos métodos e nossa estratégia pela tomada do poder para a instauração do governo Operário e Camponês surgido não das urnas, mas da luta de classes que derrubará à burguesia e demolirá suas instituições, erguendo novas baseadas na mais ampla democracia direta dos operários e oprimidos.