O Internacionalista n° 39 / NACIONAL / maio de 2026


A liquidação (falência) do banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, arrastou junto suas afiliadas Banco Letsbank S.A. (atual Banco Bluebank S.A.) e a Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários. Veio à luz o plano muito bem elaborado e bem articulado de golpe de Daniel Vorcaro, principal acionista e chefe da instituição financeira, que, resumidamente, sustentava uma espécie de “esquema em pirâmide” insustentável a médio e longo prazo, mas que permitiu imediatamente uma transferência e acumulação de capital de forma parasitária. Em outras palavras, ele devolvia dinheiro aos investidores sobre a forma de juros com dinheiro de novos investidores, que eram iludidos com taxas de rentabilidade muito acima da média. Assim, pôde pilhar bilhões de reais enquanto contava com a proteção parcial de agentes da burguesia e da burocracia estatal.
A fraude em si se assemelhava ao famoso esquema de pirâmide: o banco oferecia rendimentos muito superiores ao da concorrência, como na modalidade de CDBs (Certificado de Depósito Bancário) a 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário – uma espécie de taxa de juros), trazendo assim um número crescente de clientes que investiram dinheiro e poupanças com promessas de lucros rápidos. Os investimentos dos novos clientes que se somavam ao “esquema” constituíam os novos fundos que eram responsáveis pelo pagamento dos juros dos investimentos dos clientes mais antigos, criando um ciclo no qual o resultado não poderia ser outro a não ser o calote generalizado e a falência da instituição.
Para sustentar esse esquema, Vorcaro contou também com investimentos financeiros volumosos de setores públicos, como o BRB (Banco de Brasília) e de RPPS (Regime Próprio de Previdência Social) de estados e municípios, diretamente (como Rioprevidência, Amapá Previdência, Maceió/AL, Cajamar/SP, São Roque/SP, entre outros) ou indiretamente por meio de fundos de investimentos, que é o caso de São Sebastião/SP, Betim/MG, Uberlândia/MG, Cascavel/PR, Maringá/PR, Angra dos Reis/RJ, etc. Estima-se que são 19 entes federativos com investimentos diretos e 108 com investimentos indiretos. Os investimentos eram próximos de R$2 bilhões antes da liquidação do banco Master, e com a divulgação do esquema fraudulento, os títulos simplesmente “derreteram” com a desvalorização dos papéis. Não há qualquer dúvida que o parasitismo do Master sobre capitais públicos não poderia ter acontecido sem a cumplicidade de agentes e funcionários das instituições.
A investida de Vorcaro e seu bando só foi possível se sustentar por tanto tempo graças a uma rede de influência empresarial e política gigantesca, montada sobretudo na base da propina e interesses financeiros e políticos. A lista de influência de Daniel Vorcaro tem desde funcionários do Banco Central (BC), que repassavam informações internas e o assessoravam clandestinamente em procedimentos do próprio BC, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e os presidentes Temer e Lula, que se reuniram com o banqueiro. Para se ter uma ideia de como a quadrilha do Master tentou amarrar as autoridades, somente a esposa de Alexandre de Moraes (ministro do Supremo Tribunal Federal) recebeu cerca de R$80 milhões em um contrato hiperinflacionado, por meio de seu escritório de advocacia, uma média de R$3,6 milhões mensais para consultoria e atuação jurídica. Outro ministro do STF que está sob suspeita de recebimento de propina é Nunes Marques, pois o Master e a JBS repassaram R$18 milhões para outra consultoria, sendo que Kevin Marques (filho do ministro Nunes) recebeu cerca de R$280 mil, durante uma disputa judicial no próprio STF que envolvia a J&F (JBS) e a Paper Excellence pelo controle da Eldorado Brasil Celulose. Ciro Nogueira, do Progressistas, e Antônio Rueda, do União Brasil, também são acusados de envolvimento direto com Daniel Vorcaro, pois, enquanto dirigentes partidários e parlamentares, teriam impulsionado uma espécie de “bancada” oculta do Master para defender os interesses do banqueiro e seus aliados, incluindo outros políticos e ministros do judiciário. A aparente interminável lista de influência de Vorcaro também tem nomes muito relevantes, como ACM Neto, Tarcísio de Freitas, Ibaneis Rocha, Jair Bolsonaro, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Rui Costa, Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, Jaques Wagner, João Doria, entre outros.
A operação da Polícia Federal denominada de Compliance Zero, que investiga lavagem de dinheiro e pagamentos de propina a agentes públicos envolvendo o Banco Master e o BRB, assim como gestão fraudulenta, organização criminosa e emissão de títulos de crédito falsos, foi a responsável por expor esses e outros nomes, pelo cumprimento de 96 mandados de busca e apreensão e 13 prisões, até agora. Destaca-se o fato de os presos mais influentes serem os gestores dos bancos BRB e Master, enquanto as autoridades comprovadamente ligadas ao esquema se manterem em seus cargos e livres. Contudo, e especialmente em ano eleitoral, é nítido a queda de braço iniciada pelo dito centrão e a direita – dos quais predominam o envolvimento no esquema – contra Lula, tencionando pela limitação ou encerramento da operação da polícia, operando para que as consequências da roubalheira se limitem à condenação de alguns funcionários e gerentes bancários, mas que não acabe salpicando nas eleições. Não porque Lula e o PT são paladinos da justiça e honestidade, mas sim porque a Compliance Zero colocaria a faca e o queijo na mão dos petistas para impactar a seu favor no pleito de 2026. Ao mesmo tempo, esta faca possui dois gumes, e poderia sangrar os próprios aliados da frente ampla envolvidos nos esquemas, como os partidos do chamado centrão, parte da base parlamentar do governo Lula/Alckmin, além, é claro, de pôr luz às frações parasitárias da burguesia que não só contribuem financeiramente com a campanha eleitoral, mas possuem imensa influência política.
Essa queda de braço do parlamento e executivo já impôs duas derrotas significativas ao governo federal, como a derrubada dos vetos do PL da dosimetria e a rejeição de Jorge Messias à cadeira do STF, e promete intensificar as fraturas inter-burguesas na disputa eleitoral de 2026. Se, por um lado, Lula intensifica o entreguismo das estatais e dos recursos naturais – fontes de matérias primas –, por outro lado, o imperialismo ianque abre mão de qualquer via de conciliação com o enterro do multilateralismo, cercando e intervindo diretamente sobre as semicolônias. Essa conjunção de fatores atingiu e continua atingindo à governabilidade e aprofunda a crise institucional.
Este “escândalo” não apenas cabe para cálculos no tabuleiro eleitoral, mas, principalmente, irá refletir em algum momento no futuro sobre os assalariados, os quais viram seus regimes previdenciários jogarem volumosos montantes de dinheiro, fruto do confisco da contribuição previdenciária, em investimentos fraudulentos, o que poderá comprometer a continuidade do pagamento de pensões e aposentadorias. Um prejuízo inestimado aos explorados causado pela sede de ganância rápida orgânica da burguesia e seus agentes econômicos e políticos corruptos. Assim, este episódio está longe de ser apenas um fato isolado, juntando-se aos muitos ataques da burguesia contra as condições de vida dos oprimidos pela manutenção de seus lucros.
Ao conjunto dos trabalhadores e demais oprimidos, fica a difícil tarefa de entender que o capitalismo em decomposição somente pode se manter levando a exaustão os assalariados, e roubando-lhes até a última moeda de seus ingressos, e assim se organizar para superar suas direções sindicais pelegas que freiam e traem suas lutas e incorporar às reivindicações mais elementares de defesa das condições de vida as bandeiras de fim do confisco da aposentadoria, controle coletivo dos regimes de previdência e abertura dos livros de contabilidade, somada à necessidade de avançar em luta contra a burguesia, expropriando-na e efetivando a completa estatização dos bancos, sob controle dos trabalhadores e demais oprimidos, e se encaminhando sob a direção de sua vanguarda o em marcha a derrubada do governo burguês e instauração do governo operário e camponês, sob a política operária, rumando para a extirpação da burguesia e da sociedade de classes.