O Internacionalista n° 39 / NOTAS OPERÁRIAS / maio de 2026


Como relatamos anteriormente, a empresa AVIBRAS, que tem seu principal ramo de atuação no desenvolvimento de foguetes e mísseis, boicotou o pagamento de salários e demais benefícios, além de demitir centenas de trabalhadores desde março de 2022 por uma suposta dívida de R$600 milhões. Somente em setembro daquele ano, o Sindmetal SJC organizou os assalariados para a greve, contudo, ficou a meio caminho da radicalidade necessária para combater a sanha da burguesia pelo lucro e defender incondicionalmente os salários e empregos: a ocupação da fábrica e impor ao governo estatizar a fábrica e reanudar a produção sob controle operário coletivo Ao invés disso, apostaram na greve por tempo indeterminado sem ações contundentes. As direções do sindicato e da CSP-Conlutas apostaram, fundamentalmente, na via jurídica, na negociata com a direção da empresa, imploraram por investimentos do Governo Federal e a estatização pela via parlamentar, métodos contrários à radicalização da greve e um freio à ocupação da fábrica e controle operário, colocando a disputa entre os trabalhadores e a burguesia no terreno do próprio governo burguês. Tampouco mobilizaram as bases metalúrgicas de SJC em uma greve unificada em solidariedade com a Avibras. Uma ação unificada em defesa dos operários da fábrica por outros destacamentos operários teria sido uma força que poderia ter resistido à medida e revertê-la. O resultado da política da CONLUTAS foi manter o “status quo”, ou seja, a justiça, o executivo e o parlamento mantiveram a empresa privada e os trabalhadores sem pagamento.
O sindicato divulgou que assinou com a AVIBRAS um ACT (Acordo Coletivo de Trabalho) que prevê “o pagamento da dívida trabalhista, em forma de indenização social”, sem deixar claro quem receberá, quando e como a empresa irá repassar os R$230 milhões. Ainda, o Sindmetal SJC atribuiu o ACT ao movimento grevista que durante três anos não conseguiu torcer o rumo da decisão de esvaziamento, sem fazer um balanço crítico e sem responder o porquê a empresa supostamente teria cedido. A resposta não veio de um movimento grevista radicalizado, porque, infelizmente, a base ficou subordinada à política centrista da direção sindical e não teve a sua frente uma vanguarda revolucionária para impulsionar e radicalizar a greve; mas sim dos próprios interesses burgueses: por um lado, há interesses em resgatar uma empresa que é estratégica para uma política de defesa nacional soberana, em meio à à escalada mundial belicista liderada pelos países imperialistas; por outro lado, João Brasil C. Leite perdeu o controle majoritário e a liderança da empresa para o Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, um fundo de investimento gerido pelo Banco Daycoval, que passa a ter 99% das ações da AVIBRAS como forma de reaver os empréstimos para a empresa. Se trata, portanto, de uma solução burguesa e um banco tomar para si o desenvolvimento de um setor que se mostrará altamente lucrativo no futuro próximo, ainda mais contando com volumosos subsídios estatais que poderão vir a sanar volumosos montantes de empréstimos.
O que o Sindmetal SJC propagandeia como “vitória”, na verdade é um engodo e pode vir a se manifestar como uma armadilha para os operários, pois a greve é encerrada sem que a força dos operários tenha servido para impor a retomada da produção em uma melhor correlação de forças, e no momento em que um setor da burguesia pretende retomar as atividades da fábrica para ter lucros garantidos pelo aumento do orçamento da Defesa, e que, além disso, já anunciou que pretende demitir cerca de 850 trabalhadores entre março e abril, e contratar outros 450 (que poderão sê-lo em regimes precarizados de trabalho), ou seja, no momento em que se confirmam as demissões, a direção sindical se senta com o patrão para negociar e aceitar o desemprego de uma parcela dos operários.
Os trabalhadores da AVIBRAS têm a hercúlea tarefa de tirar profundas e amargas lições dos três ano de “greve” e construir uma nova direção que supere à atual burocracia de esquerda capituladora, e se organizar e estar vigilantes contra o novo patrão em defesa de suas condições objetivas de vida (salário e emprego), utilizando-se dos métodos próprios do proletariado, a ação direta, retomando a greve assim que novos ataques vierem a tona, avançando para a luta pela estatização sem indenização, reativando e ampliando a produção sobre o controle dos operários, que devem ter total controle sobre todas as questões de produção e finanças.