


O Internacionalista n° 40 / junho de 2026
Editorial Internacional
Reflexos do belicismo imperialista contra Rússia e China na América Latina
A irracionalidade da produção capitalista que se manifesta em sucessivas intervenções e guerras de dominação continua a levar o mundo à beira do abismo da Guerra Mundial
Os EUA e a Europa revelaram-se os principais impulsores políticos, ideológicos e militares do abismo social em que a humanidade se afunda. Como afirma nossa Resolução “O fundamento histórico da atual conjuntura histórica e o programa revolucionário para avançar à luta de classes sob a estratégia socialista”, aprovada na recente I Conferência do PPRI (junho de 2026), o choque entre as forças produtivas e as fronteiras nacionais, que marcam a fogo a fase imperialista do capitalismo, “passou a ser condicionado, em sua evolução histórica, pela luta até a morte entre os países que fizeram a revolução e iniciaram a etapa da transição ao socialismo, de um lado, e os estados capitalistas desenvolvidos (imperialistas) chefiados pelos EUA, de outro”. Esse choque assumiu hoje a forma de uma ameaça bélica em escala mundial. Veja-se que são as fronteiras russas as que são ameaçadas pelo militarismo europeu que alimenta e mantém a guerra na Ucrânia, como é um fato comprovado que a tomada por assalto das riquezas petrolíferas venezuelanas e a tentativa (até agora fracassada) de destroçar o Irã tem por objetivo último enfraquecer e cercar a China. O capitalismo está em franca e rápida decomposição e deve proceder à destruição “em grande escala as forças produtivas e, sobretudo, as desenvolvidas sobre a base da propriedade e economia nacionalizadas pelas revoluções proletárias”, o que necessariamente exige “derrubar as burocracias herdeiras do estalinismo”, reorganizar a fronteiras da Rússia e China “estilhaçando os estados operários” e, “sobre essa base, reconstituir a burguesia como classe dominante, completando a restauração capitalista”. Esse objetivo condiciona e com força de lei política e social “a relativa unidade das potências imperialistas” que enfrentam econômica e militarmente esses países.
Até agora os imperialistas não conseguiram avançar nesse objetivo estratégico. Às derrotas táticas e parciais das potências imperialistas na guerra contra Rússia e Irã seguem a aprovação de mais orçamento militar que só podem ser garantidos com mais cortes orçamentários aos serviços sociais e novas contrarreformas que retiram direitos e rebaixam as condições de vida das massas nos países capitalistas. Esse é o fundamento da maior centralização autoritária da vida econômica, civil e política nesses países. A mesma lei geral se manifesta nos países capitalistas atrasados. Uma maior transferência de mais-valia criada na produção social e de riquezas naturais está sendo instrumentada pelo imperialismo.
Nosso continente se tornou um alvo cobiçado e disputado pelas potências europeias e norte-americana, entretanto é essa que mais avanços têm conseguido por meio de uma ofensiva intervencionista que não poupa meios e métodos para impor uma política contrarrevolucionária contra a vida das massas e as soberanias nacionais. Antes do sequestro de Maduro foi o golpe contra Manuel Zelaya (Honduras), golpes tipicamente militares aos que se somaram uma sequência de golpes de estado pela via parlamentar que permitiram aos EUA derrubar governos pretensamente reformistas (Paraguai, Brasil, Peru) e impor candidatos e presidentes mais palatáveis a seus interesses. Outro método tem sido (e cada vez mais efetivo) o intervencionismo nos processos eleitorais para erguer visando garantir a eleição de governos direitistas e ultradireitistas que rapidamente entregam soberania e recursos em troca de apoio dos EUA para conter as massas e criminalizar a dissidência interna e até a oposição burguesa. Como se vê, não são episódios isolados e sim uma técnica de “domínio de espectro completo” para a colonização política e econômica das nações oprimidas.
No Brasil, Flávio Bolsonaro atou sua candidatura aos ditames e medidas intervencionistas de Trump. No Equador, um narco-presidente sobrevive graças à direita intervenção no país de tropas e interesses estadunidenses. Milei, na Argentina, está vendendo a preço de banana o país e cria uma ponte ao intervencionismo sionista sobre os movimentos pro-palestinos do continente. Lula acredita que poderá frear a ofensiva democratizando o estado, o que se revelou impraticável em seus três mandatos. Longe disso, foi esse caudilho dito progressista que permitiu ao sionismo se firmar e estender situação no país, além de que privatiza e entrega recursos estratégicos ao desenvolvimento do país para os EUA e Europa.
A diferença entre reformistas e ultradireitistas que concorrem nas eleições não é se se aceitam ou rejeitam os ditames imperialistas, e sim com que métodos e com que ritmo essa entrega deve acontecer. Mas, quem decide em última instância não são os governos, e sim as necessidades e o agravamento das contradições ao interior das potências imperialistas. Não por acaso revelou-se em toda sua importância o intervencionismo direto nos processos eleitorais da última década. Nisso, a experiência peruana é sintomática: o congresso por meio de golpes constantes age como arma golpista da burguesia imperialista preservando a fachada democrática quase intacta. O que por sua vez empurra o reformismo a ir à direita tanto nas alianças quanto nos programas de governo. Como assinalamos na nota sobre a crise boliviana, publicada neste jornal, os processos eleitorais são condicionados por “uma virada radical da situação política mundial marcada pelas tendências fascistizantes e a contrarrevolução burguesa em toda a linha contra as nações e massas oprimidas”. A esse objetivo também serve o chamado “Escudo das Américas” como árbitro e executor da política intervencionista de comum acordo com os governos vendidos e apátridas do continente. Demonstrando assim “a impossibilidade de as instituições burguesas equacionarem os conflitos sociais e do esgotamento da democracia burguesa como via para a resolução dos problemas das massas”. Enquanto o bloqueio e ameaça intervencionista sobre a Cubase deve ao objetivo de esmagar a referência revolucionária neste continente, e desse modo reforçar que a única saída é democrático-burguesa, na qual os EUA intervêm para impor seus interesses e seus candidatos títere – pelas eleições ou pelos golpes parlamentares.
A potencialidade de uma Terceira Guerra Mundial – que está se convertendo em realidade – acaba se manifestando em nosso continente como centralização autoritária e golpismo, comparecendo como subprodutos do choque violento entre estados capitalistas imperialistas e estados operários degenerados. A destruição progressiva da formalidade democrático-burguesa acompanha as mudanças entre essas forças antagônicas. Não há como os governos burgueses (mais à direita ou mais à esquerda) se abstraírem de suas consequências. Por isso não será pela via democrático-burguesa que se afastará os perigos que trazem para as massas e as nações oprimidas. Instintivamente, são as massas bolivianas que trazem à tona a via da luta de classes. Querem derrubar o governo Paz, mas por trás desse e o armando e apoiando estão os EUA. As massas bolivianas estão em choque contra essa tendência reacionária e, instintivamente, se projetam pelo caminho da luta pelo poder político. Mas, falta às massas sua direção revolucionária para avançar na luta pelo poder político expropriado à burguesia e expulsando o imperialismo. O que permitirá, mais uma vez, à burguesia resolver a violenta contradição social pela via burguesa das eleições. As direções políticas, sindicais e populares trabalham para garantir esse desfecho contrarrevolucionário para abortar as tendências da luta de classes que a Bolívia traz à superfície. A vanguarda com consciência de classe deve agir e se organizar para ajudar os explorados a darem as costas às eleições, se reorganizar nacionalmente sob um programa comum e reivindicações antiimperialistas e anticapitalistas e, desse modo, avançar na revolução e ajudar Cuba a completar a transição ao socialismo que fora prematuramente condicionada pela burocratização de sua direção.