O Internacionalista n° 40 / junho de 2026

Editorial Nacional


A Frente Ampla, constituída para “derrotar o fascismo” e eleger Lula como presidente nas eleições de 2022, demonstrou-se como a continuidade da política entreguista de Jair Bolsonaro, mas sobre nova forma e novos métodos de relações com as massas. O PT deu continuidade às privatizações e, apesar de retirar algumas empresas da lista, manteve o Decreto e a política de Bolsonaro quanto ao Programa Nacional de Desestatização (PND), e acelerou alguns segmentos como as hidrovias; não se opôs e não trabalhou para barrar a dita “uberização”, mas sim regulamentar formas de precarização das relações de trabalho; manteve o avanço da terceirização, sobretudo nas empresas estatais; silenciou a retórica de revogar as contrarreformas trabalhista e previdenciária; está gestando a contrarreforma administrativa; etc.
Longe do cenário de crescimento econômico dos anos 2000, quando o preço das commodities (matérias-primas) estava muito elevado e impulsionou grandes lucros, gerando também aumento de receita ao Estado brasileiro o que permitiu ao governo Lula outorgar algumas migalhas, hoje, Lula e o PT não podem oferecer políticas assistenciais, aumento do salário mínimo, e demais migalhas às massas. Ao contrário, a burguesia despeja a crise capitalista sobre os explorados, portanto impõem as contrarreformas, impedem novas medidas “progressistas” ainda que mínimas, e refletem na piora das condições de vida das massas, em prol da manutenção do lucro das diferentes frações da burguesia nacional e imperialista.
Neste cenário global de ataques da classe dominante, seus governos são a ferramenta utilizada para retirada de direitos e garantia do lucro burguês. Está aí a necessidade de direitização objetiva dos governos, seja pela substituição do governante ou pela sua manutenção, mas alinhada aos novos interesses das frações burguesas mais poderosas. A experiência da América Latina nas últimas duas décadas não está descolada desta realidade. A ascensão da direita e ultradireita, ou a direitização das ditas “esquerdas”, estão se intensificando em todo o mundo. A entrada de Milei na Casa Rosada, Rodrigo Paz (Bolívia), Santiago Peña (Paraguai), Daniel Noboa (Equador), e o próprio Bolsonarismo, não coincidem com o retorno de Trump à Casa Branca, nem com Giorgia Meloni (Itália), Luís Montenegro (Portugal), Erdoğan (Turquia), entre outros, mas sim representam na política burguesa a ofensiva do imperialismo para aumentar e acelerar o saque às semicolônias e a exploração assalariada em meio a um curso contrarrevolucionário. Lula, liberto da cadeia para poder concorrer no pleito de 2022, envolto pelo seguro da burguesia que é a Frente Ampla e Alckmin, assim como Temer foi em 2014 na reeleição de Dilma, não representou uma ruptura desta direitização, já que adaptou seu governo às novas necessidades da classe dominante.
A direitização de Lula e o PT, que, como dito acima, aplicam políticas de retiradas de direitos, privatizações, etc., é um fenômeno histórico de rebaixamento das reivindicações e da adaptação de seu programa às investidas da burguesia. Não está isolado do mesmo movimento das demais correntes de “esquerda” – reformistas, centristas e estalinistas – que estão, cada vez mais, subordinadas à tática eleitoral. Agem, com diferenças de grau, inclusive no interior das centrais, sindicatos e movimentos sociais, impondo e reforçando as ilusões da democracia burguesa sobre as massas exploradas, cercando e destruindo a democracia operária para converter a disposição instintiva de luta dos explorados em votos no pleito burguês. A Frente Ampla burguesa se refletiu na direitização de correntes mais próximas do PT, como é o caso do PSOL, que surge da cisão com aquele no contexto da contrarreforma Previdenciária de 2003; mas hoje se silencia diante de inúmeras retiradas de direitos em prol da reeleição de Lula, e deixa de ser uma corrente de oposição sindical para, na maioria dos casos, se juntar formalmente ao PT.
A tática eleitoral subordina à estratégia das principais correntes que se dizem de “esquerda”, enquanto, para os marxistas-leninistas-trotskistas, com o acúmulo teórico e prático das revoluções russas, das teses de abril, do congresso da III Internacional, da experiência de G. Lora na Bolívia, as eleições representam, em síntese, um momento para propagandear as ideias revolucionárias e denunciar a própria democracia burguesa, portanto, de subordinação da tática eleitoral à estratégia revolucionária. A intervenção eleitoral leninista deve estar ancorada nas reivindicações das massas e ser reflexo da luta de classes, rejeitando atrelar essa intervenção ao campo do domínio da ideologia burguesa, que reforça a pantomima na gestão do Estado, como se fosse possível reformá-lo ou conquistar avanços para melhorar as condições de vida dos oprimidos no capitalismo em decomposição.
Está colocada a necessidade de construção das oposições revolucionárias no interior dos sindicatos e movimentos sociais, que desmascarem a tática eleitoral como um fim em si, e demonstre às bases a necessidade de transformar suas reivindicações e canalizar sua disposição de luta em ações concretas na luta de classes, com independência completa de patrões e governos. Nesse processo é que as massas se aproximam, pela experiência, do seu programa revolucionário. Somente assim,sob a estratégia leninista, é que o conjunto dos assalariados e demais oprimidos elevarão sua consciência de classe, rompendo com a ideologia da classe dominante, assim, avançando com sua tarefa histórica de superar o capitalismo e a sociedade de classes.