PERU Primeiro Turno






O Internacionalista n° 40 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2026


Já se passaram 50 dias desde que as massas oprimidas bolivianas se insurgiram contra o governo direitista e pró-imperialista de Rodrigo Paz. Apesar das diversas manobras para desativar o levante nacional dos explorados contra seu governo e da recente mobilização de setores da direita nacional e as bases de apoio do governo, dezenas e dezenas de rodovias e vias de transporte de mercadorias continuam fechadas por bloqueios massivos de operários, camponeses etc.
O governo acordou com algumas direções sindicais em desmobilizar suas bases em troca de promessas e algumas migalhas para suas categorias. Os setores cujas direções traíram as bases negociando com o governo, se negaram a desmobilizar e continuam em luta. Centenas de sindicatos operários, camponeses e dos trabalhadores e a Central Operária Boliviana (COB) continuam em greve indefinida até a derrubada de todas as medidas e políticas antinacionais e antipopulares e exigem, sobretudo, a renúncia imediata de Paz. O fechamento de rodovias e os bloqueios das principais cidades aceleraram a crise ao impor pesadas perdas econômicas à burguesia intermediária boliviana. Com o agravamento do desabastecimento, foram mobilizadas pelas igrejas e partidos da direita um setor das massas para enfrentar os bloqueios e exigir a imediata instalação do Estado de Sítio.
A situação política boliviana pode ser resumida como uma crise pré-revolucionária na qual o governo e as classes dominantes não conseguem impor suas medidas sem recorrer quase que exclusivamente à repressão e a militarização do funcionamento do estado e da economia, mas na qual as massas nacionais oprimidas se projetam instintivamente pela derrubada do estado, mas sob o controle de direções políticas sindicais conciliadoras e democratizantes. Essa contradição reflete a ausência ou fraqueza da direção revolucionária capaz de ajudar às massas a superarem suas ilusões e aproximá-las de sua estratégia, permitindo assim um salto qualitativo da crise pré-revolucionária para outra revolucionária.
Por isso não vai ser com retórica e medidas cosméticas (redução dos salários dos ministros e presidente, promessas etc.) que o presidente títere do imperialismo conseguirá combater e desarmar um movimento unitário nacional que exige sua saída do poder e está enfrentando a repressão, obrigando-a a recuar. Eis porque Paz recorre à “ajuda” e apoio dos governos fascistizantes de Trump (EUA), Noboa (Equador) e Milei (Argentina) para garantir suprimentos e recursos repressivos para esmagar os protestos. Em 16/05, o governo do palhaço Milei enviou um avião da Força Aérea Argentina (FAA) com medicamentos e mercadorias para uma suposta “assistência humanitária”. Mas, apenas serviu de operação de fachada para acobertar o envio de equipamentos e munição para reprimir protestos.
A decisão de Milei foi coordenada junto com os EUA para estabilizar o governo cambaleante de Paz, o apoiando e encorajando a avançar na repressão brutal das massas. Para dar ares de legalidade aos preparativos repressivos em larga escala, no dia 26/05, a Câmara de Deputados da Bolívia aprovou a retirada das restrições legais à intervenção das Forças Armadas nos conflitos internos, garantindo ao presidente plenos poderes para aprovar unilateralmente pelo Estado de Exceção (sem aval do Congresso como anteriormente) convocando as Forças Armadas contra os “distúrbios civis”. Trata-se não apenas de esmagar os protestos em sangue (cinco mortos até agora foram reportados), como também de avançar na destruição das liberdades democráticas, políticas e civis por tempo indeterminado.
Enquanto esses fatos se encadeiam, os EUA e Paz ativaram um plano para deter ou assassinar o ex-presidente Evo Morales. Ainda está gravada na memória das massas o sequestro de Maduro e a colonização, a ponta de fuzil, do governo chavista. Morales assinalou que seria possível desativar os protestos se se convocasse novas eleições. Esse cenário poderia vingar caso a repressão não consiga esmagar o levante operário e popular, e o governo Paz perder seus pontos de apoio entre empresariado, pequeno-burguesia e, sobretudo, na polícia e nas forças armadas. Não seria a primeira vez que uma revolta contra um governo leva a uma fratura ao interior das forças repressivas. De forma que atingir um dos políticos de maior influência de massas seria uma medida preventiva para evitar que a queda de Paz leve de novo o MAS ao governo e à vitória de Evo. Mas, também poderia levar a acelerar e radicalizar a maioria nacional. Evo oferece à burguesia uma saída institucional que preservaria o regime e desativar os protestos, evitando que possam vir a superar o dique de contenção democratizante que barra sua potencial projeção revolucionária. O principal obstáculo a essa solução burguesa é a intransigência dos EUA em retroceder a seus objetivos de impor à Bolívia seus ditames.
É nesse marco que noticia-se que a empresa norte-americana de mercenários Blackwater propagava informação falsa de que “grupos insurgentes” colombianos atravessaram a fronteira para apoiar os setores ligados a Evo Morales. A criação de um falso “cenário” de insurgência armada (orquestrada supostamente por Evo e Petro) visa apresentar uma retórica favorável a uma intervenção estrangeira conjunta para preservar a “democracia” perante a conspiração “da esquerda”. A esse objetivo responde também o grupo “Escudo das Américas” recém-criado por Trump e o narcotraficante cubano Rubio.
A ação coordenada dos governos ultradireitistas sob uma espécie de “Internacional reacionária” visa erguer uma “frente de ação comum” para a defesa dos governos serviçais do imperialismo. É parte integrante dessa estratégia o objetivo de desestabilizar os governos que ameaçam os interesses da burguesia imperialista e suas sócias nacionais. Já vimos no dia 3 de janeiro (sequestro de Nicolás Maduro) como as mentiras e falsificações servem ao intervencionismo imperialista. Progressivamente, e bem na frente dos governos reformistas que ainda se mantêm em pé na Colômbia e Brasil, cria-se uma arquitetura político-diplomática para intervir nos assuntos internos e nos processos eleitorais dos países semicoloniais do continente. Por enquanto, o imperialismo não recorre a golpes militares já que a própria democracia burguesa lhe permite impor presidentes a dedo (como em Honduras) por meio de fraudes, manipulação e ameaças. Quando isso falha, impõe a “passagem institucional” para regimes mais ditatoriais por meio de golpes de estado institucionais (Paraguai, Brasil e Peru). Isto não significa que não se recorram a métodos próprios das ditaduras. Um exemplo disso é o estabelecimento da coordenação dos governos direitistas e fascistizantes para agir coletivamente na defesa dos governos reacionários e na ajuda à ação repressiva sobre as massas, como demonstramos.
Bolívia é um espelho das tendências fundamentais em que se desenvolve a luta entre as classes antagônicas da sociedade burguesa no nosso continente. Nela se refletem as consequências de uma virada radical da situação política mundial marcada pelas tendências fascistizantes e a contrarrevolução burguesa em toda a linha contra as nações e massas oprimidas. Mas, também nesse país se reflete a impossibilidade de as instituições burguesas equacionarem os conflitos sociais e do esgotamento da democracia burguesa como via para a resolução dos problemas das massas.
As massas bolivianas só imporão suas reivindicações radicalizando seu enfrentamento contra o imperialismo, a burguesia nacional e o governo de Paz. Para isso, devem dar um passo em sua unificação sob uma frente única anti-imperialista sob o objetivo imediato de derrubar o governo antinacional, a expulsão da DEA e de todos os agentes e diplomatas norte-americanos do país e organizar as milícias operárias e camponesas sob um comando único de representantes eleitos (e revogáveis) por uma Assembleia Popular firmada na autodefesa das massas. Deve-se ainda rejeitar o chamado de Morales a desmobilizar as massas se o governo se compromete a convocar eleições. Essa é uma manobra à qual poderia recorrer a burguesia se as massas avançam na luta pelo poder.
Uma vitória das massas abriria uma via à revolução proletária e uma nova etapa da luta de classes. Objetivamente, “A revolução proletária se ergue instintivamente no seio das manifestações…” afirmamos no Manifesto do PPRI n° 110 de 21/05. Mas, “Para que a estratégia revolucionária se constitua no farol e guia da luta das massas oprimidas é urgente que a vanguarda com consciência de classe ajude os explorados a superarem e romperem com o democratismo impotente e servil do MAS, retomando os métodos e objetivos da Revolução de 1952 e da Assembleia Popular de 1971” afirmamos. O que somente é possível retomando “os fundamentos das Teses de Pulacayo e do programa revolucionário da COB que desenvolveu Guillermo Lora” antes da burocratização da central.
Eis como se bloqueará o avanço da barbárie social à que o capitalismo empurra a todos os países do continente. Essa lição, que surge do próprio processo político e história bolivianas, é um guia para a vanguarda com consciência de classe da América Latina começar a resolver a crise de direção reconstruindo seus partidos em cada país e sua direção mundial da revolução, a IV Internacional.