
PERU Primeiro Turno


O Internacionalista n° 40 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2026
COLÔMBIA – Eleições 1ro Turno
Colômbia: polarização entre reformismo e imperialismo dão o tom da disputa eleitoral no país.
No dia 31/03 foi o primeiro turno das eleições colombianas, Ivan Cepeda, reformista indicado pela frente eleitoral que elegeu o atual presidente, Gustavo Petro, ficou em segundo lugar com 40,9% dos votos; e em primeiro, o candidato pró-imperialista Abelardo de la Espriella com 43,7% dos votos. Este resultado causou nas forças reformistas certa surpresa, uma vez que o partido do atual governo, Pacto Histórico, teve um resultado histórico nas eleições legislativas de março deste ano. Pela primeira vez na história do país um partido de centro-esquerda consegue a maioria parlamentar na Câmara e Senado. Antes, a eleição de Petro marcou a primeira vez na história colombiana em que um partido reformista ou de “esquerda” chegava ao comando do estado. Qual o significado disto? Essa pergunta é essencial para compreender a atual disputa eleitoral.
A Colômbia destoa de outros países latino-americanos que já tiveram governos considerados sociologicamente de esquerda e “centro-esquerda” (reformistas ou nacionalistas burgueses) tanto no século passado, quanto neste. Nos últimos dez anos, uma série de protestos e greves irromperam no país em decorrência das péssimas condições de vida das massas. Deve-se destacar a greve de 24 horas que paralisou a Colômbia em 2021, e arrastou a luta p Abelardo de la Espriellaor quase dois meses, por conta da pandemia, do colapso do sistema já precário de saúde e do encarecimento dos alimentos. Todo o instinto de luta das massas foram canalizadas, no entanto, para as eleições que ocorreriam no ano seguinte. Neste cenário, Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, foi eleito presidente da República em 2022 com uma série de promessas de reformas.
Acerca das reformas propostas, existia a tributária, onde propôs-se o aumento de impostos por parte das classes dominantes e dos setores mineiro e petrolífero; um programa de transferência de renda, tal qual o bolsa família; uma reforma do sistema de saúde (rejeitada pelo Congresso) onde diminuiria a participação de gestores privados na educação básica e uma nova organização, com novos critérios de distribuição entre os gestores seriam colocados; uma descentralização fiscal, aprovada em 2024, em que os recursos seriam melhores alocados para os departamentos mais pobres e ficariam menos concentrados em Bogotá, dentre outras reformas. No entanto, uma reforma previdenciária exige agora que pessoas que ganham até 3 salários mínimos contribuam, sendo que antes estavam isentos, não muda o tempo de aposentadoria (62 anos para homem e 57, para mulher) e não diminui o poder do sistema previdenciário privado.
O governo reformista conseguiu avançar em algumas das pautas pelo grande apoio popular e pela permanente convocatória a mobilizar para pressionar o Congresso. A direita e ultradireita colombianas, que governaram o país por décadas a fio, aceitaram tratar das reformas e aprovar algumas delas, mas sempre modificando e limitando seu alcance. Contudo, a maior derrota para o governo Petro foi a não implantação da chamada “Paz Total”, que se caracteriza pela negociação do desarmamento de todos os grupos guerrilheiros e paramilitares, envolvidos com o tráfico de drogas ou não. A pauta é cara ao discurso político de estabilização do país no sentido de diminuir os altos índices de violência e criminalidade, mas é um fato que os partidos da ordem burguesa estão intimamente ligados ao narcotráfico de forma que não tem qualquer interesse em atingir uma fonte de lucros extraordinários da qual parasitam como sócios ou como facilitadores. O conflito armado interno é uma importante fonte de justificativas para selar uma aliança estreita com os EUA, que garanta estabilidade política e o domínio do aparato político pela direita.
É nesse quadro histórico que se deve assinalar que grande parte das reformas sejam progressistas se comparadas a décadas anteriores em que direitos quase eram inexistentes para a maioria dos assalariados, há de se notar que nenhuma delas de fato vai até às últimas consequências para enfrentar as grandes empresas de cada setor, e quando o fez, foi derrotada, que é o caso da reforma da saúde. Mesmo mobilizando suas bases a ir às ruas como maneira de pressionar o parlamento, ainda assim há o desenvolvimento da ilusão nas massas de que estas reformas, mais ou menos rebaixadas, poderão ser arrancadas num parlamento extremamente reacionário.
Os ataques e contra-ataques entre a direita e esquerda burguesas se processam no interior das instituições. A direita controla grande parte do aparato jurídico, parlamentar, policial e militar. Assim, o Pacto Histórico deveria avançar em uma reforma integral do estado caso queira criar as condições para garantir a governabilidade. Eis porque , o que determinará a derrota ou vitória de Cepeda será o apoio eleitoral que consiga mobilizar e sua capacidade de controlar as massas. Ao analisar o discurso político do candidato pró-imperialista de oposição, é nítido que sua principal proposta é relacionada ao tema da segurança pública, no sentido de construir enormes prisões e encarcerar enormes quantidades de pessoas, ao estilo de Bukele, presidente de El Salvador. O que estaria de acordo com a política terrorista e militarista da direita e ultradireita. Daí que a permanência dos conflitos é instrumental aos objetivos dessas forças reacionárias.
Se, por um lado, o candidato do imperialismo, utiliza-se de uma preocupação real das massas, a segurança (uma constante na realidade nacional), por outro lado, este em nada está preocupado com a destruição dos cartéis de drogas. O tráfico é parte da produção e da reprodução do capital. O tráfico foi e ainda é usado pela burguesia local e pelo imperialismo como maneira de controle econômico e político das massas, especialmente dos países atrasados e semicoloniais. O crime organizado é menos um corpo estranho, separado da reprodução da lógica do capital em seu período imperialista, mas está absorvido em suas engrenagens ao proveer de uma fonte adicional de capital-dinheiro que via bancos e fundos de investimento são “legalizados” e constituem uma quota parte dos investimentos gerais em outras áreas, mesmo existindo contradições entre as distintas frações das burguesias.
Ao mesmo tempo, o reformismo falha retumbantemente em combater essa fração da burguesia, pois apoia-se em outras frações para combatê-la e propõe, em última instância, a administrar o capital para dá-lo uma face mais “humana”. Se é verdade a relação dialética exposta acima entre crime organizado e o capital e sua indissociabilidade, o reformismo sempre fracassará em combater o crime. Mas, a burguesia narcotraficante se constituiu em parte do estado, instrumental aos objetivos do imperialismo e alimenta parte da economia nacional e mundial. Só acabando com o capitalismo seria possível começar a solucionar o problema das drogas e do narcotráfico.
O que colocamos demonstra que as eleições levarão a um novo governo burguês ao comando do estado. Se Cepeda vencer, o imperialismo que apoia o ultradireitista Espriella trabalhará, logo no primeiro dia, para o desestabilizar. É muito provável que a violência paramilitar e narcotraficante se amplie impulsionada e favorecida pela direita e imperialismo. A ofensiva imperialista para derrubar governos que não se alinharem completamente a seus ditames é uma política geral para toda América Latina (ver página 23 e abaixo). Diferentemente, a vitória de Espriella resultará em uma nova base de manobras, desta vez, contra o Brasil.
A única saída real para as massas será a partir de seus próprios métodos de organizações e com base em seu programa, construído e provado historicamente, com uma verdadeira direção revolucionária. Do contrário, a farsa do revezamento democrático burguês continuará imperando e o capitalismo seguirá sua curva descendente para a barbárie.