PERU Primeiro Turno






O Internacionalista n° 40 / NOTAS INTERNACIONAIS / junho de 2026


No momento em que fechamos esta nota, não estavam ainda contabilizados todos os votos do segundo turno das eleições gerais no país. Porém, já estava marcada uma tendência clara com 95% das atas apuradas: por uma diferença mínima, a ultradireitista Keiko Fujimori (Força Popular) venceu o reformista Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru): 50,002% (9.032.651) contra 49,998% (9.032.000) respectivamente – um virtual empate técnico. Mais de 7 milhões dos habilitados não compareceram a votar: o mais alto registro dos últimos anos.
A vitória de Fujimori não teria sido possível sem o golpe contra Pedro Castillo, que pela primeira vez no país elevou ao comando do estado um governo reformista. A desestabilização de seu governo foi um objetivo deliberado desde o primeiro dia pela burguesia e o imperialismo. Essas forças dominantes da economia nacional e da política burguesa por décadas, não toleravam a eleição de um governo que pudesse ensaiar tímidas reformas em benefício das massas. O imperialismo já estava em ofensiva por desmontar e retirar os governos reformistas e nacionalistas-burgueses que na década de 2000 tomaram conta do continente. O capitalismo entrava em uma fase de completa decomposição e os monopólios exigiam de os governos ampliar o saque e as contrarreformas. Nesse quadro que logo eleito Castillo começaram as manobras de desestabilização. O golpe parlamentar que o retirou do governo e os governos prepostos que se seguiram tinham por objetivo criar as condições políticas e jurídicas para o retorno da direita ao poder. Foram capturados pelos partidos direitistas no Congresso o Tribunal Constitucional, o Ministério Público, a Defensoria do Povo, o Conselho Nacional de Justiça, a Controladoria e o Escritório Nacional dos Processos Eleitorais (ONPE) fazem que qualquer candidato reformista que consiga superar os entraves institucionais erguidos para garantir a vitória da direita, esteja sob a sombra do golpe. Foi criada uma estrutura institucional que não apenas facilita a fraude eleitoral como permite a perseguição e criminalização de qualquer candidato que não o escolhido pela burguesia, ou que ameace conseguir uma vitória apesar de todos os entraves colocados. Não foi por acaso que antes do pleito eleitoral foram processados e encarcerados de forma compulsória e com acusações farsescas Martín Vizcarra e Guillermo Bermejo, que poderiam ter vencido no primeiro turno à candidata ultradireitista. Tampouco foi por acaso a tentativa de criminalizar Sánchez dias antes do pleito.
Se Sánchez fosse vencedor, estaria já desde o primeiro momento sob ameaça do golpismo do Congresso dominado pela ultradireita e direita. Castillo foi vítima dessa correlação de forças parlamentar em que a Força Popular (primeira maioria) e partidos direitistas condicionam a governabilidade. A experiência dos últimos seis anos demonstra que ainda ganhando a eleição, não há como um presidente se manter perante a ofensiva golpista parlamentar com apoio da burguesia, as instituições, das Forças Armadas e do imperialismo. Sendo eleita Fujimori (seja porque as urnas apuradas lhe deem a vitória, seja porque a justiça eleitoral desconheça a vitória a Sánchez) terá respaldo do Congresso e, sem dúvida, avançará na centralização autoritária da vida civil e política. Assim que a filha do sanguinário ditador Alberto Fujimori tomar o poder, seguirá os passos de seu nefasto pai.
O processo político peruano é um indicador claro do percurso que segue a decomposição da democracia burguesa na América Latina. No Equador, Chile, Argentina, Honduras e Panamá ergueram-se ao governo figurões ultradireitistas títeres do imperialismo. Na Colômbia e Brasil permanecem governos reformistas que trazem à tona a ilusão da possibilidade de eleger governos ditos de esquerda para frear à direita e o “fascismo”. O certo é que a disputa entre candidatos “reformistas” e ultradireitistas é uma constante dos últimos cinco anos e reflete uma tendência mais geral da política burguesa. No Peru, a vitória de reformistas tem levado ao golpismo permanente. Os golpes de estado contra Castillo (Peru), Dilma (Brasil) e Lugo (Paraguai) deixaram em claro que eleições e golpes constituem uma relação dialética da política burguesa no momento de crise capitalista, de violenta ofensiva imperialista e de surgimento de governos ultrarreacionários. Se as eleições não favorecem os candidatos indicados a dedo ou favoritos do imperialismo, sua desestabilização e retirada (pelo golpe ou de novas eleições amanhadas) é a lógica que segue a intervenção do imperialismo das principais forças burguesas.
Verifica-se como verdadeiro o prognóstico histórico que apresentamos no OI n° 39 (abril de 2026): “Passados quatro anos desde a destituição de Castillo, e de mais de 10 presidentes empossados e retirados pela via do golpe de estado em uma década, ficou absolutamente claro que a democracia formal – supostamente baseada na soberania popular para determinar os rumos do Peru – não passa de uma farsa. A destituição e eleição de presidentes no Congresso foi uma tática aplicada pela burguesia e o imperialismo para impor a vitória dos candidatos mais palatáveis a seus interesses. Foram os golpes desde o Congresso que moldaram o curso dos acontecimentos políticos que culminaram nas eleições deste ano. As eleições sacralizaram formalmente essa política imposta pelos golpes de estado.”
Não obstante, há ainda um elemento imprevisível nesse prognóstico geral: qual será a atitude das massas. O abstencionismo indica não apenas desconfiança nas eleições e instituições como assinalam que existem condições para novos levantes operários e populares. Seguem vigentes as tendências dos levantes operários e populares de 2020 quando a burguesia nacional enfrentou uma crise de poder e uma luta radicalizada e nacional das massas. À época, caíram em consequência cinco governos em poucos meses. É massiva a desaprovação do Parlamento e das instituições pelos oprimidos.
Quanto mais aprofunda-se a crise no país, mais a burguesia ancorada no imperialismo destrói as ficções democratizantes, e dá passos à centralização ditatorial para avançar na ofensiva contra as massas. Por isso, as massas oprimidas não têm outra opção que continuar combatendo. E assim voltarão a ser colocadas as condições para organizar a luta unitária e nacional dos explorados, sob um plano unitário de reivindicações, favorecendo a penetração do programa e estratégia da revolução e ditadura proletárias. Mas, para isso é preciso avançar na construção do partido que possa liderar a maioria nacional oprimida contra a burguesia nacional e o imperialismo. Esta tarefa é urgente para evitar que se repita o ciclo de revoltas e novas eleições seguidas de golpes. É forjando a direção revolucionária que seja capaz de levar os explorados trocar seu instinto de revolta em programa consciente pela derrubada e expropriação da burguesia, constituindo o governo operário e camponês, que finalmente se abrirá caminho à revolução que está colocada também para a Bolívia.