O Internacionalista n° 40 / MOVIMENTOS / junho de 2026


O PPRI apresenta este balanço geral do movimento grevista das estaduais como um aporte teórico e político para avançar na compreensão das tendências e perspectivas da luta pela defesa do ensino superior público. Após nossa participação na greve da USP, de 2023, não tivemos como recompor nossa presença organizada com corrente no interior da USP. Assim, este balanço é uma exposição geral das lições que aprendemos naquele ano e sua importância para confrontar e entender os elementos e aspectos centrais do curso grevista deste ano que nos foi possível avaliar. De forma que apesar das lacunas quanto aos fatos práticos, acreditamos que serve para pôr de relevo os elementos essenciais do balanço político que é necessário ser feito pela vanguarda estudantil e do funcionalismo.

***

Em 23 de fevereiro, começou a greve dos servidores técnico-administrativos (TAES) das federais. Mais de 30 universidades iniciaram a greve e chegaram a aderir 75, baixando recentemente para menos de 50. A principal reivindicação do movimento grevista é o cumprimento do termo de acordo da greve assinado entre trabalhadores e governo em 2024. A greve ainda continua pela profunda revolta das bases, mas essas estão sendo contidas, desviadas, e afogadas pelas direções sindicais que são parte da base social e eleitoral do governo de frente ampla burguesa de Lula/Alckmin. A Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos (FASUBRA) orienta-se para atividades de pressão a parlamentares e negociações procurando do governo promessas que possam apresentar como vitória e assim encerrar o movimento, sem comprometer a campanha eleitoral. Isso explica os três meses de greve sem qualquer medida de força que imponha ao governo negociar nos termos do movimento.
O isolamento dos técnicos foi conjunturalmente quebrado com a greve deflagrada pelos técnicos e administrativos da USP e, logo, pela greve dos estudantes, indicando a existência de uma profunda tendência grevista no setor da educação pública superior que é alvo de uma ofensiva de esvaziamento e privatizações. Os técnicos e administrativos da USP do sindicato SINTUSP chegaram a um acordo marco com a reitoria, saindo da greve quando o movimento estudantil ganhava projeção e se uniam a UNICAMP e a UNESP (campus de Barra Funda, Rio Claro, Araraquara e Assis) à greve dos estudantes.
Após mais de um mês de greve, essa foi encerrada por 323 votos a favor e 255 contra na segunda assembleia geral da greve. No momento em que se desarticula a greve, um grupo reduzido de estudantes tentou ocupar um prédio, mas foi rapidamente reprimido pela PM e vários estudantes presos. Segundo informes, o DCE se negou a tratar da situação na assembleia, o que nos fatos constitui uma traição e deixou nas mãos da repressão um grupo de estudantes que batalhou pela greve. Sem conquistar nenhuma reivindicação e assumindo uma posição criminosa, UP, PSOL, PCBR e PSTU enterraram mais uma greve que sequer conseguiu impor a não criminalização dos estudantes.
As reivindicações da greve deste ano eram as mesmas que não foram resolvidas na greve de 2023: garantia de permanência aumentando as bolsas para um salário mínimo estadual, melhorias no serviço de comida nos bandejões (houve de larvas e vermes nas comidas), imediatos reparos de prédios de moradia estudantil já muito deteriorados, fim da política de privatizações nos serviços técnicos, compra de equipamentos para garantir condições de estudo e ensino, fim dos cortes de água e energia etc. A revolta dos estudantes teve por conteúdo claro a não solução dos problemas colocados três anos atrás.
Diferentemente de 2023, quando o Reitor e o Conselho Universitário de plantão apresentaram um plano rebaixado para negociar com os estudantes, professores e técnicos, desta vez a reitoria já desde o primeiro dia se negou a atender quaisquer das reivindicações ou apresentar um plano próprio. O movimento estudantil, assim, decidiu pela ocupação da reitoria da USP. Mas, não iria durar mais de três dias sendo desmontada pela repressão da PM no domingo 10 de maio pela madrugada. Entretanto, essa medida não conseguiu fazer refluir o movimento que, nos dias posteriores, realizou duas grandes manifestações com dezenas de milhares de estudantes. Isso obrigou o governo a marcar uma reunião com sua direção, mas sem mudar a política de “zero negociação”. Nessas circunstâncias de impasse, foi decretada greve pela ADUSP (Associação dos Docentes da USP), mas que fora encerrada após uma porca paralisação de docentes – e enquanto parte desses continuava a dar aulas. Ocorre que fora suas reivindicações próprias (3% de aumento salarial), a ADUSP não tem qualquer ponto de confluência com as reivindicações dos estudantes. Assim, a confluência grevista teve por único conteúdo se chocar com o mesmo patrão, o estado e seus agentes políticos ao interior das universidades nas reitorias.
É um fato historicamente comprovado que a “unidade formal” se opõe à unidade de ação sob um programa comum de luta que levaria a uma luta coletiva e permitiria impor, com a força dos três setores, uma derrota à política de ajustes e recortes da casta burocrática universitária, bem como do governo estadual. O certo é que após o SINTUSP e ADUSP saírem da greve, os estudantes ficaram sozinhos vendo o movimento definhar e a intransigência do governo e da reitoria se manifestar na ameaça de reprovação e jubilamento compulsório dos estudantes que não cumprirem a assistência às aulas.
A reitoria pôde ser intransigente porque viu que o governo não iria tremer em enviar a PM e porque a direção estudantil (UP, PSOL, PCBR e PSTU) visam principalmente usar os movimentos para desgastar eleitoralmente Tarcísio, portanto, priorizam a campanha eleitoral em favor dos candidatos do governo Lula. É por isso que nada fizeram para unificar com os técnicos e administrativos das federais que estão em choque direto contra a política privatista e de ataques ao ensino superior feitos por Lula. É também por isso que a UNE não chamou a uma greve nacional, enfraquecendo o movimento e o restringindo ao objetivo de fazer palanque do governismo na disputa por candidatos governistas em São Paulo.
As consequências da derrota deste ano serão mais duras que as de 2023, sobretudo, porque a reitoria não está disposta a discutir um termo de não retaliação contra os estudantes grevistas, como fez em 2023. Naquele ano, quando as direções negociavam no campo dos ataques da reitoria e preparavam-se para levantar a greve, um setor das bases impôs em assembleia a continuidade da greve e decidiu a ocupação do Bloco K, onde funciona o setor administrativo decisivo ao funcionamento da USP. Apesar da direção decidir que a greve tinha se encerrado, desconhecendo a decisão majoritária da assembleia, foi essa ação que impôs à reitoria a não punição dos grevistas que já tinha sido aprovada.
Este ano, a greve foi ainda mais massiva que a de 2023 e contou, desde seu começo, com setores das federais e do funcionalismo da USP já em greve. Mas, como naquele ano, neste evidenciou-se mais uma vez a ausência de uma direção classista capaz de superar à burocracia de esquerda do DCE, que mais uma vez deixou à luz sua traição ao evitar radicalizar a greve e criar condições para torcer o braço ao governo universitário e estadual. Eis como a greve de 2023 voltou a projetar sua sombra na greve deste ano. E as traições do DCE naquele ano tiveram seus reflexos na repetição do desfecho da greve em 2026.
O principal obstáculo para um movimento realmente vitorioso continua sendo a permanência na direção dos organismos e sindicatos de uma direção que se interessa mais pelas eleições e em fortalecer seus aparelhos partidários do que na radicalização e unificação real das lutas. Sem que surja do movimento uma direção classista, pautada por um programa e métodos revolucionários, não haverá como derrotar os governos e nem dar passos para conquistar a real autonomia universitária impondo ao governo o orçamento necessário para garantir o ensino e estudo a todos, com a luta de classes.