O Internacionalista n° 41 / julho de 2026

Editorial Nacional


As pesquisas eleitorais mais recentes mostram que Lula (PT) mantém a liderança em relação a Flávio Bolsonaro (PL) nos cenários de 1º e 2º turnos da disputa presidencial de 2026, com a diferença de 48% das intenções de voto à Lula contra 42% de Flávio, em um possível segundo turno. Contudo, as pesquisas realizadas mostram altas taxas de rejeição para ambos os lados (47,6% e 45,4%, respectivamente).
O declínio do candidato bolsonarista se deve a fatores já tratados nos OI anteriores, resgatamos neste editorial os elementos que permanecem repercutindo entre o eleitorado. 1) O caso Daniel Vorcaro gerou instabilidade na candidatura uma vez que os diálogos e encontros de Flávio com o banqueiro, causaram um impacto considerável na imagem do senador dentre os eleitores caracterizados de “centro-direita” e independentes. 2) A crise interna com a madrasta, Michelle Bolsonaro, expõe as fissuras e as disputas internas dentro do clã Bolsonaro em buscar seu quinhão dentro dos espólios eleitorais do encarcerado Jair. A ex-primeira-dama possui uma base expressiva dentre os eleitores conservadores e religiosos, tal movimentação no cenário familiar/político obrigou Flávio a reafirmar sua posição nacional como o interlocutor do pai, que endossou o pedido o declarando seu candidato. 3) O desdobramento da proibição de visita ao pai após a divulgação de uma carta redigida por Jair Bolsonaro nas redes sociais, que viola as restrições judiciais impostas pelo STF. A suspensão de 90 dias sem poder visitar o pai, repercute diretamente na estratégia comunicacional de apresentar o miliciano Flávio como recebendo aconselhamento direto durante a fase de pré-campanha eleitoral.
Conforme as pesquisas indicam, o 2º turno tende a se dar por eliminação, uma vez que as ilusões depositadas no “poder do voto” e “no voto útil” ainda estão presentes no seio das massas, e a experiência com a democracia burguesa ainda não se esgotou. Neste sentido, há uma forte tendência destas escolherem o “menos pior” ou, no segundo turno, o candidato mais próximo de suas posições político-ideológicas. Como reflexo disso, veremos uma reedição da campanha eleitoral de 2022, onde o discurso da esquerda era chamar voto em Lula contra o “fascismo”, enquanto a direita e extrema-direita chamava voto em Bolsonaro por “Deus, pátria e família”, abandonando ambos os candidatos às reivindicações mais sentidas dos explorados. É nesse quadro em que as massas são forçadas a escolherem seus algozes pelos próximos quatro anos.
O candidato petista possui em sua trajetória um histórico de associação com a corrupção, diversos escândalos do passado que o levaram à prisão persistem como um dos elementos de rejeição por parte dos eleitores brasileiros. Um outro ponto de desagregação se dá pela frustração na estagnação econômica e a inflação que atinge diretamente a compra de alimentos e demais questões básicas de sobrevivência (como aluguel, água, medicamentos e etc.); a perda no poder de compra enfraquece o discurso de “fartura” propagandeado como a assinatura de seus governos anteriores, impactando diretamente, independente da renda, no eleitorado. No Brasil, o aumento de 1,1% do PIB no 1º trimestre o destacou como o 6º país que mais “cresceu”, atrás apenas de Hong Kong (2,9%), Taiwan (2,8%), Dinamarca (1,9%), Coréia do Sul (1,7%) e China (1,3%). Esse crescimento se deu, principalmente, pelo aumento da agropecuária (2%), em partes refletindo um acordo comercial entre Brasil e China, remodelado no segundo semestre de 2025. Este aumento não refletiu uma melhoria nas condições de vida dos explorados. Um outro elemento de desaprovação ao governo petista é que, apesar das iniciativas de “políticas identitárias”, Lula vem perdendo popularidade entre a população feminina que demonstra desapontamento com a atual gestão em relação a defesa e proteção de seus direitos, reverberando também no setor religioso do país que se posiciona contra a pauta “identitária”, assim como são influenciados pelos pastores, bispos e padres à votarem em defensores de pautas mais “conservadoras” ligadas ao “papel tradicional” da mulher na família burguesa. Diante da alta rejeição e do fracasso da candidatura de Jorge Messias para o STF, rejeitada pelo Senado Federal, um claro sinal de enfraquecimento político, o presidente é impelido a se fechar em negociações intensas e diretas com frações da direita que possam garantir palanques estaduais fortes, como é o caso de Minas Gerais, com o objetivo de projetar sua reeleição nacionalmente ampliando a frente eleitoral ainda mais à direita.
Ao contrário do que almejam alguns centristas que procuram soluções mágicas nas pesquisas que projetam seus candidatos, a rejeição aos candidatos burgueses não significa o avanço na consciência classista dos explorados – incluindo sua independência de classe – em superar o capitalismo e destruir o seu Estado. No atual cenário da América Latina,,,,,, a polarização entre uma figura da direita ou extrema-direita abertamente pró-imperialista e uma figura caracterizada de reformista com roupagem de defensor dos oprimidos, é a expressão da atual disputa eleitoral inter-burguesa. A rejeição a um ou outro nome não altera o conteúdo da própria polarização entre as candidaturas que são expressões da burguesia.
A chamada “terceira via”, como já assinalamos em OI anteriores, não tem espaço como elementos capazes de alterar as disputas interburguesas dos últimos anos, pois a “ascensão da direita e ultradireita, ou a direitização das ditas “esquerdas”, estão se intensificando em todo o mundo”, e as “esquerdas direitizadas”, como o PT entranhado na Frente Ampla, ocupam este espaço que antes era tido como uma alternativa que buscava uma posição intermediária entre a esquerda e a direita burguesas. A polarização crescente entre frações da burguesia, a qual os métodos e formas de governo mais adequadas para sua ditadura de classe pela via “democrática”, fecha os caminhos às terceiras vias. O agravamento das tendências bélicas impulsionadas pelo intervencionismo imperialista à procura de colonizar territórios, submeter países a seus ditames, saquear riquezas naturais em proveito dos monopólios imperialistas, de brutal ofensiva contrarrevolucionária contra as nações e as massas oprimidas, e especialmente a acelerada desagregação de sua base econômica, refletem-se nas relações políticas ao interior do estado e entre os partidos da ordem burguesa como direitização em suas medidas e políticas de governo. A polarização eleitoral exclui, portanto, a defesa pela esquerda burguesa e o reformismo dê mínimas concessões às massas, bem como favorece o crescimento da revolta fascistizante contra a situação de crise e barbárie social impulsionada pelo desespero de setores do operariado e, principalmente, da pequena burguesia. Sobretudo, exclui a projeção de candidaturas de esquerda marxista e socialistas uma vez que essa não encarna a penetração do programa revolucionário entre as massas e nem seu avanço à independência de classe.
A defesa do programa e estratégia revolucionária ao interior do processo eleitoral burguês, aplicando a tática eleitoral leninista, significa combater, de um lado, a disputa eleitoral assinalando-a como uma armadilha para as massas e, de outro, aos programas e candidatos democratizantes que “disfarçados de vermelho” em sua retórica eleitoralista, arrastam setores da vanguarda (que se elevaram em sua consciência de classe) a reforçar as ilusões nas saídas democráticas como uma via de projetar a luta pelo fim do capitalismo.
A luta pela independência de classe se desloca ainda para o interior dos sindicatos, transformados em palanques eleitorais do governismo. É necessário que as massas avancem em sua consciência na luta por suas reivindicações e estratégia própria o que somente pode ser realizado por meio da construção das oposições revolucionárias, de modo que possam passar por cima de suas direções sindicais traidoras e caminhar para a superação dos problemas e demais questões imediatas com seus próprios métodos, e que nenhum dos candidatos poderá oferecer, pois, conforme exposto no editorial do OI 40, os dois candidatos à presidência do Brasil “são as duas faces da mesma moeda em torno as políticas que atendam aos interesses da burguesia nacional e imperialista”. Está assim colocada a tarefa para a vanguarda: desenvolver e ampliar as frações revolucionárias para que possam penetrar no seio das massas e que estas, através do programa próprio dos explorados, alimentado por suas questões imediatas mais sentidas, possam romper a barreira ilusória depositada no pleito eleitoral e na ideia de que é possível, através das urnas, decidir condições melhores de vida às massas. Apenas assim, conseguiremos avançar com o programa revolucionário para o Brasil e América Latina.