
O Internacionalista n° 41 / NACIONAL / julho de 2026
O endividamento das massas assalariadas com as Bets como fonte adicional de lucros capitalistas, acirra a disputa econômica e política inter-burguesa
No Brasil, 80,4% das famílias brasileiras estão endividadas: o maior número em toda a série que começou a ser medida pela Confederação Nacional do Comércio em 2010. As dívidas com bancos, prestadoras de créditos e Bets cresceram nos últimos anos. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os compromissos das famílias endividadas chegam a atingir até 20% de sua renda, o que em um contexto de juros mais elevados que a média internacional, agravam ainda mais os rombos econômicos. Segundo o DIEESE, o salário-mínimo para uma família de 4 pessoas cobrir suas despesas básicas era aproximadamente de R$7.800, enquanto o piso nacional do salário-mínimo é aproximadamente de R$1.700.
Segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, a CNDL, e do Serviço de Proteção ao Crédito, o SPC Brasil, o ano passado havia 39,5 milhões de apostadores ativos. 29% destes, tiveram o seu nome negativado por dívidas ligadas às apostas, 41% sacrificaram seu consumo básico por conta dessa situação e 17% deixaram de pagar as contas. Em 2018, 10% dos gastos em lazer e cultura dos assalariados mais pobres eram destinados às Bets, enquanto em 2024 era de 38%. Assim, os gastos em apostas pessoais aceleram, por sua vez, o endividamento com créditos que são tomados (a juros exorbitantes) para pagar as dívidas contraídas e até para comprar produtos e serviços essenciais. O quadro piora se observarmos que desde 2018 até 2025, o IPCA acumulou alta de 53% enquanto os aumentos salariais ficaram por baixo desses índices, além de que os assalariados de mais baixa renda consomem até 22% apenas em alimentos. Essa foi a realidade de 13% das pessoas com mais de 16 anos: 22,13 milhões dos quais 52% ganham até dois salários-mínimos. O número de auxílio-doença concedidos por ludopatia aumentou mais de 2.300% – 276 benefícios concedidos nesse período.
Em 2026, são 85 as licenças para empresas de apostas on-line e 187 sites em funcionamento. Mas, o mercado é altamente concentrado e monopolizado. Em 2025, dez empresas (marcas) detinham 68,8% do total das receitas do mercado de apostas, com Betano, Bet365, Esportes da Sorte e Superbet sendo as maiores. Isto enquanto o número de apostadores cresceu exponencialmente até chegar a 25 milhões. A média mensal das apostas foi de R$123 (total apostado menos as premiações recebidas). Enquanto cresceu o número de apostadores, a concentração em volume e dinheiro apostados se concentrou em 4 empresas. Esses dados não têm a conta os sites ilegais, que representam 41% e 51% do mercado, movimentando até R$39 bilhões sem pagar impostos e sem cumprir normativas legais. Somando apostas legais e ilegais, estima-se que até R$51 bilhões foram apostados entre 2024 e 2025.
Até junho de 2025, foram taxados R$1,9 bilhão nos cinco primeiros meses de regulamentação da Lei das Bets, aprovada em 2023. Desse montante, 10% (R$40,8 milhões em 2025) devem ser repassados para o Ministério de Educação (MEC), e 86,4% que vão aos cofres da União (R$410 milhões em 2025). No primeiro semestre de 2026, as receitas das Bets dobraram apesar das restrições impostas por lei a beneficiários de programas sociais e pessoas endividadas. Assim, a arrecadação saltou de R$2,2 bilhões para R$4,5 bilhões (semelhante a setores da indústria do tabaco e agricultura). Tendo em conta que tributos, taxas e impostos representam até 37% da receita, isso significa que foram movimentados mais de R$12,2 bilhões (em todo ano de 2025 foi de R$36,9 bilhões). A Copa deve adicionar no segundo semestre de 2026 entre R$20 bilhões e R$25 bilhões, dependendo do resultado dos jogos.
As arrecadações são alocadas em fontes orçamentárias específicas de instituições, conforme a Lei de Diretrizes Orçamentárias e Arcabouço Fiscal. Contudo, o MEC não regulamentou a forma dos repasses (R$300 milhões em 2025) a serem enviados às escolas via Programa Dinheiro Direto na Escola, o PDDE, como previsto ainda na lei das Bets com os ingressos por taxação e apostas online. Faltam também a disposição de mecanismos claros para cobrir as brechas na legislação que congelaram o repasse de 7,3% do dinheiro. Essa situação se deve, fundamentalmente, aos efeitos do Arcabouço Fiscal que arrecada montantes exorbitantes da saúde e educação, dentre outros serviços públicos, para pagar os juros da dívida pública. A falta de legislação específica e o atraso na aprovação do marco regulatório da Lei das Bets permitiu que grande parte do dinheiro arrecadado via taxação das Bets acabe sem aplicação ou desviado para outros usos, como subsídios a capitalistas e parasitismo financeiro. Mas, sobretudo favorece às casas de aposta que não são obrigadas a repassar para o governo o montante real do que devem, porque operam nas margens da jurisdição fiscal e legal, ou bem servem de fachada a bicheiros e narcotraficantes que encontram nas plataformas mais um meio para lavagem de dinheiro e lucros de atividades criminosas.
O governo federal tem procurado ampliar a taxação sobre 79 operadores de apostas, que já pagaram R$2,37 bilhões em licenças para operar no país (Lei das Bets, de 2023). Têm sido aprovada uma medida provisória (n° 1.303) que aumenta a taxação de 12% para 18%, que aguarda sua aprovação no Congresso. O governo Lula.3 também acenou medidas tendentes a minimizar o impacto das apostas (ou seja, das perdas) para beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada, vedando por decreto seu acesso às plataformas de apostas. Entretanto, não houve qualquer avanço contra os operadores ilegais de apostas. Tampouco existe uma legislação que estabeleça um claro critério de normas para jogos “slot” (apertasse um botão para girar símbolos na tela) que, em poucos segundos, podem levar à perda e elevados riscos financeiros. A regulamentação não fiscaliza a velocidade máxima de rodadas, o valor máximo das apostas e nem o tempo máximo de sessão como acontece com o “Jogo do Tigrinho”. Está em discussão ampliar a legislação sobre as responsabilidades de artistas e criadores de conteúdo que utilizam de sua influência social para exacerbar o consumo das Bets. É nesse quadro que foi instalada a “CPI das Bets” que acabou sem qualquer decisão. Pretendia servir ao governo e aliados para realizar uma ofensiva capaz de impor a regulamentação da Lei das Bets. Um dos principais objetivos, segundo o governo, era esclarecer o vínculo entre as apostas e a lavagem de dinheiro e do jogo do bicho. Além de “igualar” as condições tributárias e legais das diversas empresas do setor.
Há empresas brasileiras reunidas na Associação em Defesa dos Jogos e Apostas e o Instituto Brasileiro de Jogo Legal, de pequenas e médias plataformas, que tem as regulamentações mais pesadas. De outro lado, há as empresas estrangeiras associadas ao Instituto Brasileiro de Jogo Responsável que dominam a maioria do mercado, e que sediadas em paraísos fiscais fazem repasses mínimos para os cofres públicos. Nessa disputa pelo mercado entram ainda as “indústrias da propaganda” como a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão- ABERT, que afirmou que a atual legislação é suficiente, almejando não sair atingida por novas taxações pelos bilhões em propaganda de jogos online. Especialistas afirmam que a legislação é deficiente porque não se responsabiliza (penal e tributariamente) quem incentiva o comportamento convulsivo de apostas.
O Banco Central (BC) publicou um estudo em que mostra que foram entre R$18 e R$21 bilhões os transferidos via PIX para 56 empresas de Bets somente em 2024. Já em 2025, superou R$30 bilhões. Isto significa que 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência para Bets em 2024. 5 milhões dessas pessoas tinham benefício do Bolsa Família, enviando até R$3 bilhões e R$100 em média, o que equivale a 15% do benefício médio por mês. Como se vê, são gigantescas as somas de dinheiro envolvidas nas apostas online, representando um parasitismo crescente de frações da burguesia sobre os orçamentos familiares, competindo diretamente com os Bancos e o grande capital comercial.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), em declaração de seu presidente Isaac Sidney, disse que o crescimento do endividamento tem potencial para criar uma “bolha de inadimplência” entre os consumidores brasileiros. Critica a falta de controle sobre as operações financeiras de fintechs e sistemas de pagamento específicos, como o PIX financiado, que cresceu como via para as apostas evitando a fiscalização. O Banco Santander assinalou que até 30% dos créditos vinculados ao PIX financiado podem estar sendo utilizados para apostas. É provável que essa situação possa comprometer o pagamento de créditos de seus devedores, daí os alertas do setor bancário. A Confederação Nacional do Comércio-CNC denunciou que o vício das Bets levou à queda de até 11,2% nas vendas varejistas (ao redor de R$117 bilhões). Se bem não há como comprovar essa relação, que pode ser o efeito da queda das condições de vida e consumo das massas, fica claro que os elevados lucros obtidos pelas Bets alimentam a disputa inter-burguesa pela taxação por se tornar uma fonte adicional de recursos para o parasitismo dos capitalistas sobre os orçamentos públicos e, pressionando sobre as instituições, garantir sua participação desse saque geral e massivo realizado sobre os assalariados pelas apostas online.
Isso explica por que a “CPI das Bets” foi um palco de disputas políticas acirradas. Os partidos do “Centrão” defenderam a Comissão por constituírem os principais beneficiários potenciais dos repasses tributários. O Ministério do Esporte e do Turismo, presidido por André Fufuca (PP) e Celso Sabino (União Brasil), esteve à frente de impulsar a CPI visando receber os maiores percentuais da arrecadação de impostos ligados a casas de apostas esportivas. A ultradireita se viu “fraturada” entre o Partido Novo, que defendeu uma regulamentação mais “permissiva”, e setores da bancada evangélica e de bolsonaristas (Ricardo Salles, por exemplo) que criticam duramente às Bets. Essa “divisão” entre os partidos direitistas e reacionários expressam a disputa das frações da burguesia e pequena burguesia que representam, e que vem alavancados ou reduzidos seus lucros particulares pelas apostas online, mas especialmente a luta pela distribuição “igualitária” dos recursos arrancados às massas pelas Bets.
A disputa no Congresso diz respeito ao fato das frações da burguesia pressionarem o Estado a estabelecer um mecanismo legal claro para a distribuição desse gigantesco montante. Disputa essa que tenderá a se acirrar na medida em que indicadores econômicos sejam mais desfavoráveis e os negócios da burguesia. As disputas atingem ainda às frações da burguesia ligadas aos crimes, como bicheiros e narcotraficantes, que acharam nas apostas online uma via para a lavagem de dinheiro e financiamento de suas atividades. O que conflitua, por sua vez, como o lugar que ocupavam os Bancos nesse processo do crime organizado como intermediários para “legalização” dos lucros, do qual obtinham uma fatia. É isso que precisamente leva às disputas ao redor do estado pela taxação e regulamentação das Bets. Trata-se de um fenômeno derivado da concorrência capitalista no quadro de decomposição econômica.
Quem mais sofre com as consequências das casas de apostas on-line são os assalariados e desempregados, os mais pobres e miseráveis. Como afirma o site The Intercept, o buraco financeiro das famílias proletárias por conta das plataformas de apostas on-line já ultrapassou as dívidas dos juros bancários, especialmente entre setores com ingressos de até três salários-mínimos. O vício das apostas atinge também as famílias da pequena-burguesia, mas suas consequências são bem diferentes dada a diferença de ingressos. Para as famílias de até três salários-mínimos, 55% da renda é consumida na cesta básica, aluguel, luz, água, transporte etc. Assim, fica claro que as dívidas por apostas dificultam ainda mais a sobrevivência e reprodução de suas aptidões físicas e intelectuais para trabalhar. As Bets pouco se importam com isso, uma vez que implementam algoritmos capazes de estimular apostas rápidas, repetidas e de alto risco que, finalmente, após ganhos conjunturais, os envolvem em perdas constantes. Dessa forma continuam a sangrar as economias proletárias e demais oprimidos sem remorso, uma vez que as “responsabilidades” recaem por inteiro no viciado, que deverá arcar com seu próprio tratamento.
As consequências das apostas dizem respeito à preservação da saúde pública de aqueles que com seu trabalho produzem ou reproduzem valor do qual parasitam todas as frações da burguesia. Vêm crescendo os casos de viciados no jogo que perdem dinheiro próprio e, não poucas vezes, recorrem à apropriação do alheio ou até desviar fundos públicos para sustentar seu vício. Essa situação prejudica milhares de assalariados e afunda na decomposição social a milhões de famílias que procuram uma solução mágica para a sua miséria. Inadimplência para uma família de trabalhadores significa uma pesada carga que não apenas consome grande parte dos miseráveis ingressos salariais, como aprofunda a decomposição dos laços familiares proletários. Como o vício nas drogas e no álcool, o vício das apostas destrói progressivamente a saúde psíquica, intelectual e física da força de trabalho.
Os marxistas não se fazem ilusões com medidas legais ou tributação que apenas servirá de campo de disputa das frações da burguesia para continuar roubando até o último centavo dos explorados. Diferentemente, se trata de combater e destruir o capitalismo para acabar com essa barbárie social. Importa por isso à vanguarda com consciência de classe compreender como as Bets criaram uma via de fuga para milhões de assalariados que abandonam a luta coletiva para defender falsas saídas individuais. De forma que uma posição de classe deveria começar por entender e compreender como o vício nas apostas, na droga e no álcool se entrelaçam (e complementam) com o obscurantismo religioso para fazer acreditar que os pobres e miseráveis devem se acostumar ao mundo real e à exploração, porque obterão sua recompensa na vida no além ou na pura sorte. Portanto, trata-se de libertar as massas trabalhadoras das falsas promessas de libertação e melhoramento de sua vida que lhes oferecem os mercadores da fé e do vício que partilham do roubo da riqueza social criada por seu trabalho.
A cada passo que o capitalismo dá em caminho à procura de lucros, mais se afunda na barbárie a classe operária, os demais assalariados, camponeses e desempregados, que são trucidados e atomizados favorecendo à burguesia como classe e abrindo uma via para que todas as doenças e chagas de a decomposição capitalista caírem pesadamente sobre as massas oprimidas. Trata-se, portanto, de combater a ilusão vã de ser possível fugir da pobreza por meio de saídas individuais, defendendo a luta coletiva e a estratégia revolucionária como única via para melhorar a vida das massas sob o capitalismo, e abrir caminho a sua verdadeira emancipação pela via da revolução e estrangeira proletárias.
