


O Internacionalista n° 41 / SINDICAL / julho de 2026
GEOLOCALIZAÇÃO NA “SALA DO FUTURO”
COMO A PLATAFORMIZAÇÃO VEM SENDO UTILIZADA PARA AVANÇAR COM A PRIVATIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM SÃO PAULO
Por meio da Secretaria da Educação, o governo do Estado de São Paulo vem avançando em seu projeto de privatização da escola pública por intermédio de plataformas digitais. Hoje, a rede conta com diversas plataformas amplamente utilizadas pela SEDUC. Nas Unidades Regionais de Ensino (URE), essas plataformas são impostas a dirigentes, supervisores, diretores, professores e estudantes. O discurso demagógico do governo e de seus apoiadores, de que se trata de uma “modernização” do processo de ensino compatível com os novos tempos, oculta a verdadeira face da plataformização.
Não é de hoje que os serviços públicos vêm sendo sucateados em benefício da terceirização e da privatização, ou seja, da superexploração da força de trabalho e do parasitismo dos orçamentos públicos pelas empresas privadas. Para ilustrar esse processo, é necessário lembrar que, em São Paulo, o cargo efetivo de servente escolar (responsável pelos serviços de limpeza e cozinha) deixou de existir como função pública. O mesmo ocorreu com os cargos de Secretário de Escola e Assistente de Administração Escolar, extintos pela Lei Complementar nº 1.144/2011. Desde então, não há mais ingresso por concurso público para essas funções. Os cargos permanecem apenas até a vacância (aposentadoria, exoneração ou falecimento) dos atuais ocupantes. As funções desenvolvidas por esses trabalhadores, porém, não se extinguiram como funções auxiliares ao processo de ensino. Foram terceirizadas, isto é, transferidas para empresas privadas que recebem recursos públicos, e se aproveitando da precarização obtém elevados lucros.
Ora, o que a extinção de cargos públicos tem a ver com a plataformização? Embora sejam processos distintos, ambos estão relacionados. Como dito anteriormente, as plataformas digitais passaram a desempenhar um papel central no cotidiano de servidores e estudantes. A função antes exercida pelo Secretário de Escola foi substituída pela do GOE (Gerente de Organização Escolar), cujas atribuições incluem apoiar a direção da escola, acompanhar a frequência e realizar a expedição de documentos. Em maio deste ano, os professores foram surpreendidos com novas orientações sobre o registro de aulas na plataforma “Sala do Futuro”.
Atualmente, quando o professor registra a frequência dos alunos e o conteúdo da aula na plataforma, essas informações migram automaticamente para a SED (Secretaria Escolar Digital), servindo também como uma espécie de “ponto eletrônico” da frequência do próprio docente a cada hora-aula. No ano passado, os professores já haviam sido orientados de que a ausência desses registros seriam consideradas faltas, ignorando outras formas de comprovação da presença, como o livro-ponto. Agora, além de realizar obrigatoriamente o lançamento da frequência e do registro das aulas, o docente deve fazê-lo exclusivamente dentro da unidade escolar. As novas diretrizes para os registros na rede estadual serão utilizadas para ampliar o controle sobre a validação da presença em sala de aula por meio da geolocalização. Se antes o procedimento era realizado apenas por meio do aplicativo, agora o sistema cruza as informações de localização com os registros efetuados na “Sala do Futuro”, ampliando o nível de monitoramento das atividades. Na prática, registros realizados fora da unidade escolar podem não ser contabilizados pelo sistema, gerando pendências ou exigindo validações complementares antes de serem considerados regulares.
Esse aumento do controle ignora as reais condições do chão da escola. Muitas vezes, o professor gasta um longo tempo apenas para conseguir acessar a plataforma e realizar a chamada, isso quando existe acesso à internet de qualidade na unidade escolar. Utilizar a geolocalização como mecanismo para impedir o registro e, consequentemente, comprometer a confirmação da presença do docente constitui mais uma forma de controle exercida pelo governo. Ao mesmo tempo, esse processo retirou a autonomia do Gerente de Organização Escolar, que anteriormente era responsável pelo lançamento das ausências dos funcionários da escola. Atualmente, os GOEs relatam que já não possuem acesso às descrições das planilhas de pagamento para conferência. Quando ocorre algum problema na remuneração, só tomam conhecimento quando o servidor recebe o holerite em seu aplicativo.
É justamente nesse ponto que os dois processos se interseccionam. Ao extinguir o cargo de Secretário de Escola, o Estado criou a função do GOE por designação e, ao mesmo tempo, vem retirando gradativamente as atribuições que antes eram exercidas por esse servidor. A perspectiva é que, com o avanço das plataformas digitais, o próprio docente passe a ser responsabilizado por procedimentos administrativos que antes competiam à secretaria escolar, tornando-se, na prática, “responsável por fazer seu próprio pagamento”.
Outra mudança a longo prazo se relaciona com a tendência à precarização trabalhista de professores efetivos. Na medida que o professor vai se transformando em apêndice da máquina e as plataformas apresentam os conteúdos, fazendo do processo de ensino o repasse destes já digitalizados, os cargos vagos ou novos podem ir sendo preenchidos com força de trabalho mais barata, que não precisa de formação pedagógica e sim apenas técnica; os cargos com estabilidade podem ir sendo progressivamente trocados por contratos temporários etc.
Diante desse cenário, é necessário compreender que a plataformização da educação não representa apenas uma mudança tecnológica ou uma simples ferramenta de gestão. Ela faz parte de um processo mais amplo de reorganização do trabalho, de transferência de responsabilidades para os trabalhadores e de avanço da lógica privada sobre um serviço que deveria ser público, gratuito e socialmente garantido. A retirada gradual de funções administrativas, a extinção de cargos efetivos e a substituição de parte do trabalho humano por sistemas digitais revelam uma política que busca reduzir custos, ampliar o controle e enfraquecer a autonomia dos trabalhadores da educação.
A resposta a esse e demais ataques só pode ser dada de maneira coletiva. O sindicato e o movimento estudantil precisam erguer uma luta política, envolvendo professores, funcionários da escola, estudantes e a comunidade escolar, organizando o combate contra a privatização, a terceirização e o sucateamento da educação pública. É necessário exigir a revogação das políticas que submetem a escola pública aos interesses empresariais, impedir que plataformas digitais sejam utilizadas como mecanismos de vigilância e controle dos trabalhadores e defender que a tecnologia esteja a serviço do assalariado e da educação, e não da precarização do trabalho. A escola pública não pode ser transformada em um espaço de gerenciamento empresarial, onde professores e funcionários se tornam meros operadores de sistemas impostos de cima para baixo.
Mas, isso exige ainda compreender que esse processo é produto da crise do capitalismo, que é marcada pelos mais diversos tipos de ataques às condições de vida das massas. O desemprego, o subemprego, o arrocho salarial, a terceirização e a precarização dos serviços públicos são alguns desses exemplos. Quando surgem combinados, revelam a excrescência de um sistema econômico que se encontra em processo de putrefação, e que já não consegue avançar sem destruir forças produtivas e sem parasitar dos orçamentos estatais. O que se reflete nas políticas educativas dos governos burgueses.
Por isso, a integração da tecnologia ao processo de ensino e aprendizado só poderá ter um conteúdo progressivo em uma educação liberta das chagas e tendências da decomposição capitalista. Somente a revolução proletária poderá barrar esse avanço de destruição do processo de ensino e sua transformação em mercadoria, e construir um sistema único de educação público, laico, democrático, científico e voltado aos interesses das massas, unindo a teoria à prática, com o fim da propriedade privada e dos capitalistas como classe. A luta contra a plataformização é, portanto, parte da luta mais ampla contra a destruição dos serviços públicos e contra o capitalismo em decomposição que coloca o lucro acima das necessidades humanas.