O Internacionalista n° 42 / agosto de 2026

Editorial Internacional


A destruição de MOU (Memorandum of Understaning, pelas siglas em inglês) entre o Irã e os EUA encerrou a aventura do imperialismo sem alcançar quaisquer de seus objetivos preestabelecidos antes da guerra. Sua continuidade lhe é ainda negada pela incapacidade de garantir a reposição dos estoques das mais avançadas (e custosos) de mísseis interceptores e de ataque em profundidade. Por sua vez, os contínuos destroços contra bases e interesses dos EUA e aliados provocados pela retaliação do Irã impôs uma derrota tática e estratégica aos EUA, marcada pela impossibilidade dos opressores e genocidas em impor seus interesses pela força militar. O acordo entre Omã e Irã para administração conjunta do estreito de Ormuz selou a guerra imposta ao Irã. Esse fato não será apagado com declarações mentirosas dos EUA.
O imperialismo e seus vassalos no Oriente Médio saíram enfraquecidos. Reforçam-se a capacidade chinesa e russa de incidir nos destinos do Oriente Médio e da Ásia. Porém, isso não deve obscurecer que o imperialismo não foi definitivamente derrotado, e menos ainda que decidiu por abandonar a região. Se apoiando no servilismo de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e as monarquias serviçais e no expansionismo colonialista de Israel, bem como no duplo jogo de Turquia e Qatar ou, mais recentemente, nas divisões sectárias e tribais estruturadas historicamente no Iraque e na Síria, para se servir de governos, milícias e sectarismo para continuar a guerra contra o Irã e enfraquecer o chamado “Eixo da Resistência” (pag. 18). Fracassada a guerra direta e mantendo o objetivo de destroçar Irã, e assim cercar e cortar o expansionismo chinês, os EUA recorrem agora a atiçar novas guerras civis visando impedir a acomodação de interesses e acordos que restrinjam sua capacidade de ação e de seus vassalos.
Na Ucrânia, a OTAN não consegue realizar qualquer ofensiva militar em grande escala. Os destroços causados à economia europeia pelas sanções contra a Rússia, o estreitamento dos mercados pela funesta guerra comercial travada contra China imposta pelos EUA fizeram insuportável o preço do financiamento à guerra contra a Rússia. Os métodos terroristas contra a população russa se espalharam, enquanto EUA se coloca como vendedor dos armamentos enquanto encontra dificuldades para voltar a enganar a Rússia como fez em Anchorage, Alaska. A Rússia tirou lições (tardiamente) que para vencer deve destruir sistematicamente a economia de guerra ucraniana, agora sem se importar em atacar empresas norte-americanas e alemãs em solo ucraniano que produz equipamentos utilizados objetivamente contra a Rússia. Trata-se de uma declaração de guerra contra o imperialismo ainda que acobertada com palavreado da “autodefesa” contra a produção de armas que assassinam civis na Rússia. Com as devidas particularidades e diferenças de processo histórico, a mesma tendência e dinâmica se manifesta como cerco sobre a China, ainda que este se estenda desde Ásia, África e até América onde EUA e China se digladiam pelos mercados e controle de recursos estratégicos. A participação de China, Rússia e Coreia do Norte ajudando o Irã na guerra contra os EUA são elos da guerra mundial que se desenvolve por caminhos tortuosos, mas que coloca em trincheiras irreconciliáveis aos estados operários degenerados e nações aliadas contra o imperialismo e seus aliados. A trama sobre a que se desenrolam esses fatos é objetivo final do capital monopolista de se sobreviver derrubando as burocracias herdeiras do estalinismo, restaurar a burguesia no poder, destruir os cimentos da propriedade estatizada privatizando quase toda a economia, destroçar a unidade nacional desses países e os transformar em estados multiétnicos fragmentados e submetidos diretamente ao capital financeiro.
Já temos escrito muito em nossos editoriais internacionais anteriores sobre como e por que a vantagem está do lado da Rússia e China, ainda que conjunturalmente. Importa retomar aqui as consequências dessa guerra mundial travada surdamente pelo imperialismo para sobreviver a sua decadência acelerada para os povos e nações oprimidas, as massas assalariadas e para os oprimidos em geral, e os que se erguem para combater esse percurso contrarrevolucionário em particular.
Mais encurralado e enfraquecido se acha o imperialismo pressionado pela desagregação das economias capitalistas, e entravado pela impossibilidade de derrotar Rússia e China imediatamente, mas violentamente projeta sua ofensiva sobre as nações oprimidas visando manter sua influência direta, seja baseada na força militar, seja na coerção econômica. Uma ofensiva para controlar rigidamente recursos naturais e industriais, matérias-primas e minerais decisivos para a produção de bens de alto valor agregado e desenvolvimento tecnológico, sobretudo, voltado à concorrência e à indústria militar e digital. Para manter seus negócios parasitários procede a saquear e superexplorar violentamente orçamentos e aos assalariados das nações semicoloniais, aumentando seus lucros afundando na miséria às massas com violentas contrarreformas, destruição de direitos e serviços públicos, e aumentando o parasitismo financeiro sobre os cofres públicos. E agora sequer se preocupa por acobertar o recurso do genocídio e dos massacres, como na Palestina, se isso é necessário a seus monopólios para tomar posse de recursos, territórios e vias logísticas em benefício de seus negócios. A imposição ao governo do Panamá para a retirada da China do controle administrativo e logístico do Canal do Panamá foi mais uma medida da guerra que se prepara contra a principal economia mundial que desloca o imperialismo progressivamente do mercado mundial. O sequestro de Maduro levou à subordinação do chavismo e à tomada do controle da renda petrolífera pelos EUA que não apenas é sugada em benefício desses, como é agora usada para travar um bloqueio genocida contra Cuba.
Combinam-se aos métodos de guerra econômica e militar do imperialismo contra nações e governos que não se lhe subordinam a declaração dos grupos narcotraficantes como “terrorismo”, o que habilita o intervencionismo militar que leva à ocupação de território soberano de forma limitada, como acontece no Equador e no Paraguai. O objetivo em Cuba é destruir a referência histórica no continente de qual o caminho da nação oprimida para conquistar sua autodeterminação: expulsar o imperialismo avançando nas tarefas socialistas. É parte dessa ofensiva a manipulação de processos eleitorais (Honduras e Colômbia) e recorrer a golpes de estado constitucionalmente acobertados (Paraguai, Peru e Brasil) para forçar uma saída democrática de acordo aos interesses imperialistas e imponha governos abertamente entreguistas (Brasil e Peru) e remover os governos que entravam ou bloqueiam minimamente seus objetivos. O regime político burguês e suas eleições não abortam essa ofensiva, antes lhe proveem de novos métodos e táticas para completar a submissão das economias e estados nacionais aos monopólios. Combinam-se também à restrição das liberdades democráticas se utilizando das Constituições e leis para agravar a repressão política, o terrorismo estatal e a perseguição aos movimentos em luta de classes pelas reivindicações, contra os ataques e contra o genocídio e as guerras. É um fato que o totalitarismo fascistizante burguês cresce sob o manto constitucional e alça postos no estado e instituições recorrendo à deformação dos métodos democratizantes, não negando-os.
Chegamos assim ao que importa às massas entender da atual situação política que não tem qualquer solução no campo da economia, da política, das instituições e da diplomacia burguesas. As guerras de dominação, as guerras civis arquitetadas pelos carniceiros dos povos, o genocídio palestino e libanês, o militarismo e totalitarismo fascitizantes expressam a decomposição capitalista. As burocracias herdeiras do estalinismo se negam a ajudar na libertação dos povos e nações das cadeias imperialistas visando a chegar a um acordo com o imperialismo que as preserve de sua derrocada. Por isso, não cabe iludir as massas com saídas democratizantes e menos ainda as ludibriar que basta eleger governos e representantes progressistas aos Congressos para barrar a ofensiva e barbárie capitalista.
A revolução russa (1917), a revolução chinesa (1948), coreana (1950), a cubana (1959) e vietnamita (1973) demonstraram qual a via para romper os elos do capitalismo e avançar na transição ao socialismo, ainda que prematura e rapidamente degeneradas pela burocracia contrarrevolucionária. Ainda estão em pé as conquistas revolucionárias conquistadas com sangue operário e são graças a essas que esses estados operários (ainda que muito degenerados) conseguem resistir ao cerco imperialista. Libertados da casta burocrática e retomando o proletariado o controle da economia e do estado, se retomaria a via revolucionária mundial. É parte desse esforço da classe operária mundial pela defesa de suas conquistas e romper o ciclo de sua destruição física em benefício dos lucros capitalistas combatendo abertamente contra seus governos e defendendo as nações e povos oprimidos por meio do internacionalismo proletário com a ação direta e construindo seus partidos para a revolução e ditadura proletárias. Não existe outra alternativa ainda que retrocessos, derrotas parciais e sofrimentos sejam aderidos à luta de classe para barrar a barbárie social capitalista. Essa tarefa hoje está colocada peremptoriamente!