
O Internacionalista n° 42 / agosto de 2026
Editorial Nacional
AS ILUSÕES DEMOCRÁTICAS DAS MASSAS CONTINUAM VIGENTES
Votar no “mal menor” é uma expressão dessas ilusões ajustadas à polarização eleitoral burguesa na qual ficam encurraladas pela ausência de sua direção e da política revolucionárias
O cenário das eleições presidenciais no Brasil para o ano de 2026 permanece em grande medida incerto. As pesquisas continuam apontando uma tendência de vitória de Lula e, sobretudo, das massas em votar no “mal menor”, decidir seu voto por considerações mais imediatas de suas condições de vida ou suas simpatias políticas difusas. Recentemente, institutos como Datafolha, Quest e BTG/Nexus seguem apontando que os principais nomes na disputa ao Planalto acumulam índices de rejeição superiores a 49%, refletindo a insatisfação do eleitorado em não encontrar, fora dos candidatos cotados, outros que possam representar seus reais interesses ou possam sair vitoriosos contra Lula ou Bolsonaro. Os dados demonstram, especialmente, que a polarização empurra o eleitor para a lógica da “repulsa” ao adversário, em vez da adesão às propostas que estes apresentam. Nos fatos, não existem diferenças substanciais quanto ao programa de fundo de submissão aos ditames da burguesia e do imperialismo, embora sim quanto aos métodos para o fazer. Parte dos fatores que alimentam a polarização e a desconfiança se encontram ainda no retrocesso dos indicadores econômicos (rebaixamento das condições de vida) enfrentado pelo conjunto dos explorados e demais trabalhadores que percebem as dificuldades financeiras corroendo suas vidas, a carestia do custo de vida impulsionada pela inflação acelera o endividamento das famílias, alimentando o ceticismo com a atual gestão de Lula/Alckmin em modificar o rumo de destruição de direitos, salários e empregos estáveis. Um outro fator que tem influenciado a polarização é a repetição, por parte dos candidatos, de velhas fórmulas de política de prometer em época eleitoral para não cumprir uma vez eleitos, como na ausência de transparência e debates aprofundados sobre o futuro da economia, de investimentos produtivos que se reflitam na melhoria da vida das massas, na política fiscal e na segurança que se expressarão nas urnas, onde o eleitorado, ausente da direção revolucionária intervindo nas eleições com sua política, tende a se manifestar à favor do candidato que considera menos danoso a seus interesses ou menos rejeitado, retroalimentando as ilusões com a democracia burguesa (ainda que deformadamente) fazendo do voto uma miragem onde se avaliam promessas que nunca serão realizadas.
O prognóstico das dinâmicas estruturais, até a abertura das urnas, é ainda incerto. A fotografia atual da disputa presidencial permanece difusa e dinâmica, embora pelo momento tudo indica a repetição da disputa ideológica entre esquerda e ultradireita burguesas. Setores do eleitorado que se consideram de centro e direita “não bolsonarista” têm demonstrado oscilações diante dos desdobramentos das estratégias e trapalhadas de Flávio uma vez que, segundo pesquisas, 60% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de opção no último momento. Um outro fator que ainda faz permanecer o prognóstico em grande parte oscilando é o não posicionamento claro em favor de um ou outro candidato pelos grandes partidos que dominam o bloco do “Centrão”, como Progressistas (PP), União Brasil e Republicanos, estes permanecem neutros e aguardam o cenário mais próximo das eleições para se posicionarem na disputa eleitoral e começar a negociar seus apoios em troca de cargos, orçamento e ministérios com o seguro vencedor. No próximo dia 28 de agosto, iniciará o horário de propaganda eleitoral gratuita. Com o decorrer da situação política iremos observar como estes tendem a influenciar firmando ou mudando as tendências eleitorais. Candidatos como Romeu Zema e Renan Santos largam sem tempo de propaganda e sem estrutura nacional para concorrer com os principais candidatos, já Lula e Flávio Bolsonaro, com 5 minutos e 32 segundos e 4 minutos e 20 segundos, respectivamente, se favorecerão deste tempo e do gigantismo dos recursos que dispõem para fortalecer a polarização e aumentar suas chances de arrastar candidatos ou partidos que ainda estão indecisos para suas campanhas. Dentre os choques que poderão ser observados no discurso e na retórica encontra-se a pressão dos Estados Unidos contra o PIX, bem como o intervencionismo tarifário punitivo contra o governo Lula, que vêm transformando o debate simplesmente econômico em farsescas imagens de “modelos de soberania e patriotismo” que servem apenas para ludibriar às massas ainda mais.
O uso do PIX como “patrimônio do povo” é, sem dúvida, uma cartada de trunfo propagandístico que o atual governo utiliza em sua campanha, convertendo a sanção norte-americana em um ativo político em sua campanha para a reeleição, baseado na retórica de “combater o imperialismo econômico dos EUA” e beneficiando a narrativa da “soberania nacional” entre os eleitores. Em contraponto, o mesmo aspecto coloca-se como um obstáculo para a oposição que se alinha à política externa e de mercado dos EUA (especialmente sob a influência de Donald Trump), colocando Flávio e seus apoiadores em uma saia justa perante setores da direita que não compactuam com seu entreguismo descarado e corrupção comprovada. É nesse quadro que o PIX comparece como um ponto sensível entre os eleitores, alcançando 80% de confiança e uma aprovação de 93% entre os brasileiros. Por oposição, uma ataque a este cria desconfiança e gera uma repulsa contra candidatos contrários a seu uso.
As igrejas e religiões obscurantistas ganham nesse cenário maior relevância como curral de mobilização eleitoral, e tendem a ser um peso na balança eleitoral, em sua maioria contrários à continuidade do governo de Lula e da Frente Ampla. É parte dos objetivos da ultradireita retomar a desconfiança nas urnas eletrônicas retomadas por Flávio Bolsonaro, recentemente,, visando preparar um terreno de contestação às eleições caso essa janela de oportunidades seja aberta pela pressão imperialista.. As alegações foram prontamente rebatidas pelo Tribunal Superior Eleitoral e por agências de checagem, inclusive ligadas a setores da oposição direitista. O episódio gerou ainda forte repercussão pelo conteúdo semelhante aos fundamentos da tentativa golpista de 8 de janeiro de 2023, obrigando a campanha do senador a ser recalibrada por sua equipe, onde ele mesmo, em entrevistas, admitiu ter se confundido e afirmou “sua integral confiança” no sistema eleitoral brasileiro. Apesar de “recalcular sua rota” pelo GPS do oportunismo eleitoral, a falsificação e a desinformação são parte do arcabouço de todo político burguês para ganhar eleições.
Um dos principais problemas da ultradireita é a disputa interna pelo espólio político de Jair Bolsonaro, a profusão de três candidaturas que se reclama do bolsonarismo e seus movimentos internos revelam tensões e rearticulações de rota entre os principais nomes da família e caciques partidários, transformando a ex-primeira-dama em um polo incontornável para o futuro do campo conservador para 2030. Michelle Bolsonaro vem ampliando expressivamente seu espaço no cenário nacional, tornando-se uma figura central e um pivô nada desprezível para a mobilização do eleitorado feminino conservador e de matriz evangélica. Analistas políticos apontam a construção de um capital próprio e a projeção de uma “mulher bíblica” na política com vistas para 2030 também. Eis porque as divergências e atrito público com sua madrasta mantém o desgaste de Flávio, embora os dois tenham sinalizando uma trégua de ocasião que teve por objetivo mitigar os danos e impactos negativos na pré-campanha de Flávio.
Importa assinalar que utilizar a rejeição das massas e sua tendência a votar no candidato “menos pior” como se se tratasse de um elemento de assimilação e avanço de consciência das massas, é um erro cometido por diversos partidos estalinistas e centristas para propagandear seus candidatos próprios. Qualquer que seja a narrativa eleitoral, nenhum dos candidatos burgueses tratam em suas propostas temas que melhorem a vida das massas e as condições objetivas condicionadas à sobrevivência delas. Qualquer que seja o governo burguês eleito, governarão em benefício da burguesia, nacional e imperialista para chegar e se manter no poder. Mesmo com a frustração contínua com os representantes que elegem, o ciclo se repete entre o conjunto dos trabalhadores e explorados, uma vez que apesar da democracia burguesa se mostrar completamente decomposta e sem qualquer possibilidade de realizar as mudanças almejadas pelas e para as massas, a ilusão destas na democracia burguesa ainda está longe de se esgotar. E isto se passa porque não existe no cenário atual uma direção revolucionária enraizada entre o proletariado, capaz de o mobilizar por trás de seu programa e estratégia de poder próprios. O que não muda em nada a tarefa historicamente colocada: romper com a camisa de força colocada pela institucionalidade e pelas traições impostas pelos sindicatos, que blindam os interesses de seus candidatos se sobrepondo ao dos trabalhadores, e ajudar às massas a conquistar sua independência de classe. Daí a extrema urgência e importância de construir as oposições revolucionárias que precisam atingir e combater a crença na democracia burguesa nas organizações de massas, dando pequenos passos para resolver a crise de direção revolucionária.
