


O Internacionalista n° 43 / setembro de 2026
Editorial Nacional
A burguesia imperialista intensifica sua ofensiva intervencionista e amplia o belicismo
Diante da decomposição capitalista e da ofensiva da burguesia imperialista, a tarefa é organizar a resistência das massas e construir uma direção revolucionária.
As ofensivas da burguesia imperialista impõem de forma drástica as mudanças nas políticas nacionais e internacionais que avançam de forma violenta contra as nações, em especial na América Latina e Caribe. Essas mudanças profundas se devem a crise estrutural do capitalismo em decomposição, onde é possível observar uma estrutura e contraofensiva política e militar abertas que assumem proporções cada vez mais violentas e contrarrevolucionárias, enquanto as tendências bélicas se ampliam e apoia-se na burguesia imperialista para a instauração de uma 3ª guerra mundial.
Ao direcionarmos nosso olhar para a América Latina, é possível observar o papel importante que ela ocupa nesse processo, em que o capitalismo é incapaz de superar suas próprias contradições e descarrega sobre as massas trabalhadoras e oprimidas o peso de sua crise. A ofensiva imperialista sobre o continente tem se intensificado e ampliado seu poder de dominação ao encontrar governos burgueses incapazes de romper com as dependências econômicas e políticas de seus algozes. Os atuais governos na América Latina demonstram que quando as eleições produzem governos que não correspondem aos interesses do imperialismo, a burguesia não hesita em recorrer à desestabilização deste governo utilizando de elementos próprios do seu campo como golpes institucionais e repressão. Quando a própria democracia burguesa não é suficiente para garantir a estabilidade necessária aos negócios do capital, a burguesia avança na direção de formas cada vez mais autoritárias de dominação, retirando direitos, rebaixando os salários, condições de trabalho e sobrevivência do conjunto dos trabalhadores, desempregados e demais oprimidos, fortalecendo mecanismos de repressão e centralização autoritária do Estado.
Peru, Bolívia e Colômbia expressam, sob diferentes aspectos, essa intervenção imperialista. A experiência peruana demonstra como eleições e golpes podem se constituir em momentos distintos de uma mesma política burguesa. Na Bolívia, a mobilização das massas revela a profundidade da crise e, simultaneamente, o obstáculo colocado pelas direções conciliadoras, que procuram conter a luta dentro dos limites institucionais. Na Colômbia, a experiência com o reformismo demonstra o limite de governos que buscam administrar o capitalismo ao invés de romper com suas estruturas fundamentais. Neste quadro, a América Latina e Caribe não podem ser considerados espaços externos à disputa imperialista, ao contrário, as nações semicoloniais constituem um terreno fundamental para essa disputa por recursos, mercados, influências políticas e posições estratégicas.
Nesse cenário ofensivo as massas nacionais e internacionais encontram-se diante da seguinte contradição ao conjunto dos explorados: a crise do capitalismo produz condições objetivas para a radicalização da luta, contudo, a ausência de uma direção revolucionária faz com que essa energia e insatisfação das massas seja canalizada para as instituições e levantes sob sua própria ordem, em defesa de um programa próprio dos explorados é uma trava a ser superada. Dadas as condições atuais, a burguesia segue alterando seus mecanismos de contenção das massas, hora utiliza de setores reformistas para canalizar e conter as insatisfações populares e em outra fortalece a direita e suas tendências fascistizantes, pela defesa e manutenção das instituições burguesas.
A dinâmica de contenção das massas expressa acima pode ser observada nos governos burgueses que conduziram o Brasil em seu curto espaço “democrático”, a ponto de vermos ano após ano a direitização de partidos ditos dos trabalhadores, como é o caso do PT e demais partidos reformistas e centristas que cada vez mais se alinham aos ditames do imperialismo e burguesias nacional e internacional para se perpetuarem no poder, esquecendo completamente das massas que os apoiaram e acreditaram em suas propostas enganadoras propagadas no período eleitoral. Ao abandonar as tarefas democráticas, que seguem pendentes, e a estratégia revolucionária – centristas, estes partidos se adaptam às exigências da governabilidade burguesa e passam a administrar os interesses do capital sob a exploração e através da conciliação de classes, contendo as reivindicações mais sentidas das massas e a organização instintiva dos trabalhadores.
A eloquente experiência brasileira no campo da conciliação de classes é um terreno amplo a ser estudado e observado, principalmente em períodos de campanha eleitoral, como o que nos encontramos agora. Apesar da polarização entre a frente ampla Lula/Alckmin e Flávio Bolsonaro vemos em suas falas nos debates, propagandas e entrevistas a manutenção de uma política econômica subordinada aos interesses do capital financeiro, ao mesmo tempo em que avançam sobre os gastos sociais e sobre a condições de vida das massas, ampliando a uberização, as terceirizações e privatizações. A antiga política traidora de negociação e conciliação com os sindicatos dá lugar, em meio ao agravamento da crise, à contenção das reivindicações e o fechamento dos espaços próprios dos trabalhadores para tratar de suas condições de trabalho e sobrevivência, uma vez que “em defesa da democracia” os sindicatos se fecham para se dedicarem, quase que exclusivamente, às campanhas eleitorais bem como as demais organizações e movimentos sociais que pensam apenas na disputa de quem irá administrar o Estado burguês.
A questão central não é saber qual setor da burguesia administra melhor o Estado burguês, mas sim saber como os trabalhadores e demais explorados poderão romper com a condição de classe explorada e constituir seu próprio poder. Por isso, após as eleições e dos anos que se seguirão, nada estará resolvido para as massas uma vez que a eleição de um ou outro candidato não interrompe a ofensiva da burguesia. O resultado das eleições presidenciais poderá modificar apenas a forma pela qual os ataques serão realizados, mas não irá eliminar a contradição fundamental entre capital e exploração do trabalho. A experiência latino-americana demonstra que mesmo em governos reformistas eleitos sob forte apoio popular as massas permanecem submetidas às estruturas fundamentais do Estado burguês que podem ser facilmente pressionados, desestabilizados ou derrubados no momento que entrarem em choque com os interesses estratégicos do imperialismo. Por estes e outros motivos que não basta rejeitar as alternativas eleitorais, é necessário construir uma alternativa de classe e o voto nulo está nesta perspectiva. Não como uma simples abstenção política ou como uma postura individual de descrença, mas sim na possibilidade de constituir uma expressão política de rejeição às alternativas oferecidas pelos governos burgueses, vinculado à mobilização independente das massas, com a organização dos trabalhadores em torno de suas próprias reivindicações, de seus próprios métodos de luta e de um programa revolucionário.
O voto nulo programático está vinculado à construção de uma oposição revolucionária ao governo burguês de plantão e à organização independente das massas. Seu conteúdo é afirmar que nenhum dos campos da polarização burguesa representa uma saída para o conjunto dos trabalhadores e explorados e que a resposta às suas necessidades não está na escolha de qual setor da burguesia administra o Estado, mas sim na organização para enfrentar o capital e lutar pelo poder político. Essa posição torna-se fundamental diante da atual polarização eleitoral. Ressaltamos que não se trata de dizer às massas simplesmente “não votem”, mas de dizer: não entreguem sua força política a nenhum dos campos burgueses; organizem-se em torno de suas próprias reivindicações e métodos de luta.
É neste ponto que o instinto de revolta das massas assume importância decisiva. Como é o caso das mobilizações dos metroviários da CPTM após terem de assumir temporariamente a Linha 12 – Safira devido ao incêndio ocorrido, reflexo da privatização e da instabilidade dos trabalhadores. Diante desse cenário, onde os trabalhadores assumiram seus antigos postos de trabalho e atividades por 90 dias, de modo emergencial, e da falta de garantias formais sobre a manutenção dos empregos, os funcionários da estatal paralisaram suas atividades das zero horas do dia 4 de agosto até o final da tarde do dia 5 de agosto, após a aprovação em assembleia da realocação profissional “oferecida” pelo governo estadual. A mobilização destes funcionários, assim como as greves e lutas operárias demonstram que existe uma disposição concreta de enfrentamento. Quando os trabalhadores paralisam serviços estratégicos para defender seus direitos, não estão reivindicando apenas melhorias econômicas, estão demonstrando, ainda que de forma inicialmente espontânea, a força que possuem quando interrompem a engrenagem da produção e enfrentam coletivamente o poder econômico.
A tarefa revolucionária consiste em ampliar a capacidade de combate das massas e preparar as condições para que avancem politicamente sem se prender às direções burocráticas de seus sindicatos e nas ilusões, que ainda existem, relacionadas a eleger um representante no campo da democracia burguesa. A revolução proletária não será produzida simplesmente pela profundidade da crise. A crise abre possibilidades, mas somente uma direção revolucionária poderá transformar o instinto de revolta em consciência política e programática. Essa é uma das formulações centrais que atravessam a análise do PPRI sobre os processos recentes na América Latina.
A defesa da revolução e da ditadura proletária não são palavras de ordem deslocadas da realidade. Elas correspondem à necessidade de responder à própria decomposição do capitalismo com uma estratégia de superação da ordem burguesa. A alternativa à barbárie capitalista não será encontrada em uma administração mais eficiente do mesmo Estado, nem na tentativa de “humanizar” o capitalismo. A experiência histórica demonstra os limites dessa perspectiva. Está colocada a necessidade na organização das massas, na construção de uma direção revolucionária e na preparação política para que as reivindicações imediatas se transformem na luta do proletariado pelo poder.
A tarefa colocada diante dos revolucionários é, portanto, urgente: reconstruir os partidos revolucionários em cada país e avançar na construção de uma frente única anti-imperialista, pela reconstrução da direção mundial da revolução, a IV Internacional. A crise de direção revolucionária é, portanto, o problema central de nossa época. As massas lutam. As greves acontecem. As revoltas explodem. Os governos entram em crise. As instituições perdem legitimidade. O imperialismo intensificou sua ofensiva. As tendências de guerra se aprofundam. A barbárie não é inevitável. Mas a superação do capitalismo tampouco ocorrerá espontaneamente. Entre a barbárie capitalista e a revolução está a organização consciente do proletariado. É nesse terreno que devemos avançar.