O Internacionalista n° 44 / outubro de 2026

Editorial Internacional


Lênin afirmou que a “Política é economia concentrada”. Essa premissa preserva toda sua validez como critério geral para compreender como o processo de choques políticos e entre estados no mundo, expressando as tendências fundamentais da crise capitalista, se refletem e adotam formas particulares em nosso país. Ou seja, como a decomposição do capitalismo impõe e determina o curso mais geral da polarização eleitoral inter-burguesa, rearranja as relações entre as frações burguesas e se manifesta politicamente no apoio ao candidato capaz de aplicar seus ditames em uma determinada conjuntura.
Em 2022, o governo democrata de Biden trabalhou para a troca do governo esgotado de Bolsonaro pela ascensão de um outro calcado em uma frente ampla liderada por Lula que devia aplicar os ataques e contrarreformas nas condições de avanço ao controle e estatização dos sindicatos. A alternância democrática de um governo burguês esgotado por outro apoiado em profundas ilusões das massas foi imposta pelo imperialismo nas condições em que ainda não se manifestaram em toda sua violência a crise e desagregação dos EUA. A mudanças nas condições mundiais com o contínuo crescimento e expansionismo comercial e industrial chinês, em meio ao retrocesso violento da economia e indústria norte-americana, bem como a projeção do descontentamento de amplos setores operários e oprimidos com o governo Biden, impuseram na maior potência imperialista uma mudança política. Trump acede ao poder do estado sobre a base desse descontentamento, mas para cumprir os ditames das frações burguesas que tem no parasitismo do orçamento público, das guerras, da expansão colonial, no maior saque de recursos e das nações oprimidas a razão do vertiginoso crescimento de seus lucros.
Assim como a virada no governo e nos métodos da política exterior dos EUA favoreceu a Lula no passado, a mudança e ascensão de Trump expressando uma outra fase na política e métodos de dominação da burguesia imperialista deviam refletir na América Latina e, particularmente, no Brasil. Afirmar que “política é economia concentrada” significa afirmar que os processos operados na base econômica em um momento dado se manifestam e expressam no campo da superestrutura política. Portanto, que as mudanças operadas na economia capitalista se refletem na mudança de política aplicada pelas frações da burguesia mundial e nacionais contra as massas assalariadas e oprimidas. Está aí porque tanto a elevação eleitoral do governo do PT como sua queda correspondem às condições de alta e queda da economia capitalista e as mudanças operadas nos métodos e medidas necessárias à burguesia para manter seus lucros à custa de afundar na miséria às massas e nações oprimidas.
A ofensiva política contrarrevolucionária de Trump sobre América Latina que adquiriu sua forma caricaturesca no chamado “Escudo das Américas”, uma organização ao serviço da colonização do continente pelo imperialismo norte-americano, consequentemente, uma ferramenta da guerra comercial e da projeção bélica estadunidense contra seus concorrentes mundiais que avançam em seus territórios, seja pela força, seja intervencionismo nos assuntos internos dos países semicoloniais. O apoio aos sucessivos golpes de estado parlamentares operados pelo fujimorismo no peru até criar as condições de sua vitória eleitoral, o processo eleitoral fraudulento em Honduras que levou à presidência ao candidato escolhido por Trump, os sequestro e Maduro e a imposição da subserviência aos chavistas que capitularam, as ações militares em território mexicano e venezuelano, a derrota de Petro e perante o palhaço e miliciano Abelardo de da Espriella na Colômbia (com a interferência eleitoral dos EUA e Israel, dentre tantos outros métodos intervencionistas, demonstram que as eleições em nosso país não podiam ficar alheias aos objetivos, interesses e manobras e medidas imperialistas.
As eleições deste ano no Brasil estiveram, desde seu começo, condicionadas pelos choques mundiais do curso das guerras de dominação imperialista sobre o leste europeu (Ucrânia) e na Ásia (Oriente Médio). Para manter certas vantagens nesses choques, os EUA precisam colonizar abertamente recursos humanos, industriais, minerais e naturais que lhe permitam se preparar para um choque e guerra mundial contra os estados operários degenerados. Além dos golpes institucionais no Peru, no Brasil, no Paraguai etc. que permitiram impor governos e retirar dos governos outros que não avançavam tão rápido como almejado pela burguesia, se preservou e ampliou o método da democracia formal para impor a troca de governo que entravavam esse expansionismo rápido do imperialismo e levaram ao comando dos estados a governos reacionários e entreguistas, mais adequados a esses interesses e aos ritmos de sua aplicação exigidos pela burguesia mundial.
Eis porque não há e nem haverá como frear esse expansionismo colonial e ascensão de governos de tendências fascistizantes pela via institucional burguesa ou de seus métodos. As greves na Itália contra o genocídio palestino, as revoltas estudantis na França e as manifestações por toda Europa contra as guerras e os ajustes e ataques dos governos mostram que as massas resistem e se erguem instintivamente contra a barbárie capitalista, mas lhes falta a direção revolucionária para transformar seu instinto em consciência avançando a sua estratégia revolucionária e socialista. Eis porque como também nos ensinou Lênin, somente organizando o proletariado como direção das massas oprimidas do campo e da cidade, avançando na luta revolucionária que a vanguarda se funcionará com as massas e sobre a base da expropriação da burguesia e da estatização da grande propriedade, construirá um estado operário. Somente assim será possível derrotar a contrarrevolução burguesa e abrir caminho à verdadeira conquista da soberania nacional e do desenvolvimento das forças produtivas não apenas em escala nacional, como continental sob a estratégia dos Estados Unidos Socialistas da América Latina.