O Internacionalista n° 44 / outubro de 2026

Editorial Nacional


A disputa para o 2º turno está marcada pela polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obteve 45,16% dos votos, e Flávio Bolsonaro (PL), com 47,03% de votos. Como se pode ver, a disputa entre os dois candidatos foi bastante acirrada, com a diferença de 1,87 pontos percentuais dos votos válidos.
As porcentagens avaliadas em relação às projeções das pesquisas indicam que 2,22 milhões de pessoas a mais depositaram seu voto em Flávio. O crescimento do caudal eleitoral da ultradireita que obrigará o PT e aliados por um lado, e ao PL e aliados por outro lado, de tentar mobilizar os eleitores que não votaram (33 milhões segundo o TSE) e ampliar as alianças visando a conquista dos votos daqueles que se posicionaram por outras candidaturas, bem como daqueles que votaram nulo ou branco, para reverter ou consolidar o resultado do primeiro turno. É o que conseguimos observar ao longo das semanas que iniciaram o mês de outubro: a movimentação de ambos candidatos na arregimentação de votos.
Trump não declarou abertamente seu apoio antes do pleito, mas afirmou que “foi uma vitória acirrada” e que “temos acompanhado de perto as eleições brasileiras, o Brasil é muito importante para nós”. Também fez elogios sobre a rapidez da apuração dos votos em um país continental como o nosso, criticando o processo eleitoral em seu país que é moroso e, segundo ele, fraudulento. É importante observar que a potência Norte-Americana utilizou ao longo deste ano e ainda utiliza de instrumentos diplomáticos, econômicos, políticos e comunicacionais para defender seus interesses. Apesar de não declararem apoio abertamente, os Estados Unidos e a Austrália fecharam temporariamente suas embaixadas e consulados em solo brasileiro quase às vésperas da eleição, enquanto o Canadá e o Reino Unido emitiram alertas baseados em uma suposta ameaça digital anônima sobre um possível ataque, informado pelo Departamento de Estado dos EUA. Da mesma forma, foi apresentado em setembro pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) o elevado risco de influência dos EUA no processo eleitoral, uma vez que Trump afirmava a necessidade de hegemonia de seu país na América Latina e a contenção da influência chinesa na região. Trump declarou por diversas vezes seu apoio a Bolsonaro, ainda que negocie novos arranjos nas relações comerciais e mantenha boas relações diplomáticas com Lula. O objetivo do imperialismo é trabalhar pela vitória da ultradireita sem se expor publicamente, e assim atrair o Brasil para o “Escudo das Américas” e completar a colonização política do continente.
Está aí porque uma intervenção declarada dos EUA, neste momento, é pouco provável, principalmente para alterar os resultados do 2º turno, uma vez que existem setores e frações da burguesia nacional que ainda não compactuam completamente com a total subordinação aberta e escancarada à burguesia imperialista, sobretudo, aquelas que estabeleceram lucrativos negócios com a China e setores da burguesia que antes apoiavam Lula e hoje voltaram-se para apoiar Bolsonaro exigem que esses negócios sejam poupados, apesar de compartilhar da ultradireita de ampliar a subordinação aos EUA.
O quadro mais geral em que se processam as eleições burguesas no Brasil é de acirramento dos choques e da disputa geopolítica na América Latina (como no mundo todo) entre o imperialismo Norte-Americano e a China. O Brasil integra os BRICS e mantém relações comerciais importantes com a China que não agradam Washington, que tem interesse em setores estratégicos como a infraestrutura nacional, energia, tecnologia e minérios e demais matérias primas, sendo as terras raras brasileiras uma questão importante nas negociações. Devido aos recursos naturais – matérias primas para a indústria militar e de alta tecnologia – os EUA visam impor acordos mais favoráveis vindos de uma maior subordinação, o que demonstra uma tendência a uma preferência eleitoral específica pela vitória de Bolsonaro. Contudo, se a mobilização petista e o apoio dos partidos como PSTU, UP, PCB, PCBR entre outros trouxerem resultados positivos para o PT e seus aliados no 2º turno, isso não significará que os interesses imperialistas dos EUA sejam atingidos ou diminuídos no Brasil. Pelo contrário, ao analisarmos a direitização do PT nas últimas décadas, compreendemos que caso vença, Lula continuará se subordinando aos interesses do imperialismo, em especial o estadunidense, e seu novo mandato será mais direitizado ainda, pois sua manutenção no poder significará ceder às pressões internacionais e do Congresso Nacional com maioria de partidos reacionários e defensor dos interesses do PL, lacaios do bolsonarismo e do imperialismo, dos interesses mais reacionários das frações oligárquicas e parasitárias da burguesia brasileira. Mesmo que saia vitorioso, Lula precisará, mais uma vez, golpear o conjunto dos trabalhadores e demais explorados de forma mais aprofundada e cruel, usando todos os recursos que tem na mão, isso inclui os sindicatos e movimentos sociais, para se prevenir de possíveis golpes e a destituição de seu mandato. O que já está claramente definido é que a conformação de ambas as casas do Congresso colocará a correlação de forças favoráveis à direita e extrema-direita, e caso Lula seja reeleito, estará obrigado a se submeter às imposições do Congresso. Por outro lado, caso vença Flávio Bolsonaro, contará com uma maioria cômoda para impor seus planos e medidas de governo, tendo o caminho menos tortuoso para aprovar o que desejar. Esse prognóstico presente na Resolução sobre as Eleições (pág 13) aprovada na I Conferência do PPRI de junho – três meses antes do primeiro turno – confirmou-se.
Conforme nós temos desenvolvido em nossa linha editorial em jornais anteriores, as eleições nada tem a ver com as reais necessidades das massas. Ainda vencendo, Lula sequer poderá manter a sombra de sua política assistencialista diante das investidas do imperialismo e os rumos da política burguesa que se orienta a impor mais ataques e contrarreformas. Destaca-se também nessa relação a dependência do país dos mercados externos, o que cria condições para colocar o Brasil no centro das disputas entre os EUA e a China, como temos referido inúmeras vezes. O importante a ser avaliado na oscilação atual entre um alinhamento do Brasil a Washington e/ou também a Pequim diz respeito aos interesses de frações da burguesia e de seus lucros e negócios particulares, nacional e não à defesa das massas e nem da nação oprimida. Isso explica porque é falso confundir a “defesa da soberania nacional” com a defesa de Lula ou de qualquer outro governo burguês como sinônimo da defesa da soberania da nação oprimida. Portanto, trata-se de compreender a polarização eleitoral inter-burguesa como parte das relações econômicas e políticas mais amplas do capitalismo e nos permite estabelecer uma linha capaz de ajudar ao desenvolvimento da elevação da consciência de classes dos explorados, que devem lutar com seus métodos próprios contra seus exploradores e seus governos de plantão. É neste cenário que a defesa da estratégia revolucionária do proletariado se concretiza na defesa do voto nulo programático. Sua defesa, apesar da correlação de forças desfavorável às ideias revolucionárias colocadas, é a via para preparar a organização da luta dos trabalhadores contra a burguesia quando se abre uma crise revolucionária e as massas se orientam instintivamente a lutar pelo seu próprio poder. Eis porque o voto nulo programático não é sinônimo de abstenção política e sim uma obrigação para manter em alto a luta dos operários e demais oprimidos pelo socialismo contra a barbárie capitalista
Esse fundamento e princípio da tática leninista para abrir caminho ao socialismo se choca frontalmente com a política pró-burguesa do PT e seus aliados que têm requentado o discurso no voto em Lula como uma vitória das massas sobre o fascismo. Nos fatos, para os reformistas se trata da defesa da democracia burguesa. Para isso, distorcem o que é verdadeiramente o fascismo. Trotsky, em 1931, escreveu uma frase “atemporal” que se encaixa perfeitamente na atual conjuntura política: “Falar dele agora [do fascismo] como um perigo iminente não é um prognóstico, mas uma mera profecia. Para que possamos prever as situações em relação ao fascismo, é necessário ter uma definição desta ideia”. Ainda que o bolsonarismo possa expressar tendências bonapartistas e fascistas, o fascimo é a cartada final da burguesia, principalmente a burguesia ligada ao capital financeiro, que se apoia e instiga o pequeno-burguês a se voltar contra o proletariado e promove sua aniquilação política e até mesmo física. Estas tendências não se consolidaram com Jair Bolsonaro, que teve campo fértil para aplicar contrarreformas mais profundas que Temer; e seu filho, Flávio, encontra um campo ainda mais fértil para avançar nos ataques sob o manto das instituições e legalidade da democracia burguesa, pois terá um parlamento favorável. Tampouco imediatamente uma ditadura de tipo fascista precisa ser instalada porque as direções das centrais e sindicatos nos últimos anos deixaram as massas serem atacadas com pouca ou nenhuma resistência, traindo e abortando suas tendências de luta negociando no campo dos ataques dos patrões e governos, situação que pode se repetir – e provavelmente se repetirá – quando requentarem a colaboração de classes.
Finalmente, é necessário compreender que a elevada abstenção política no 1º turno das eleições – o maior percentual registrado em um primeiro turno desde 1998 – não é expressão de uma ruptura com as ilusões democráticas e muito menos da inserção das ideias revolucionárias no seio das massas. Apesar das condições objetivas na sociedade brasileira estarem mais que maduras para que se opere essa ruptura, as condições subjetivas para esse salto que se produzem com a fusão da luta de classes com o programa revolucionário ainda estão pouco desenvolvidas produto da crise de direção revolucionária e da pouca penetração da vanguarda revolucionária entre as massas. É nessas condições que as massas serão mais uma vez conduzidas, neste segundo turno, a escolher, obrigatoriamente, entre dois candidatos da burguesia, empurrando-as cada vez mais para a barbárie e crises profundas em que o capitalismo as afunda. Eis porque ainda há um longo caminho que estas deverão experimentar dentro das ilusões democráticas que as impedem de se organizar de forma independente e se fundir com uma direção revolucionária à altura das mudanças que devem realizar.
É neste quadro complexo e convulsivo que o voto nulo adquire toda sua importância estratégica para a propaganda e trabalho de organização das massas e sua vanguarda. Denunciando a polarização eleitoral como uma disputa inter-burguesa, expondo seus limites políticos e sociais, e chamando os explorados e oprimidos a romper com a política de conciliação de classes, em defesa dos empregos, salários, jornada de trabalho, serviços públicos, direitos democráticos e sociais, livre organização sindical etc. bem como de uma saída ao capitalismo apodrecido pela via da revolução e do socialismo.
Assim, cabe a vanguarda revolucionária e com consciência de classe que não se ajoelha ao democratismo e política burguesas de continuar a defender a estratégia de poder do proletariado e combater a subordinação das massas à ditadura da burguesia e seus métodos de governo. A distinção fundamental para este momento histórico é que o voto nulo programático não é a ausência de política; mas sim a tentativa de expressar uma posição política com independência de classe por meio de uma campanha ativa através da via revolucionária denunciando os limites colocados pela democracia burguesa.