
O Internacionalista n° 44 / NACIONAL / outubro de 2026
A vitória de Bolsonaro no primeiro turno não é um ponto fora da curva da democracia burguesa e sim de seu desenvolvimento em meio à decomposição burguesa
A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi, em certa forma, surpreendente porque não era cogitada em nenhuma das pesquisas. É possível que se repita o mesmo resultado no segundo turno e, talvez, com uma margem de apoios e votos ainda maior. A tragédia das massas exploradas e oprimidas reside em que uma vitória desse miliciano da política burguesa significará uma alteração violenta no ritmo e alcance dos ataques já desenvolvidos por Lula/Alckmin. Os orçamentos da saúde e educação serão rapidamente degradados, a privatização será ainda mais rápida, a escala 6×1 poderá não apenas permanecer como ser ampliada quanto a precarização e destruição de conquistas trabalhistas ainda existentes, a política de negociação de entrega das terras raras e riquezas naturais ao imperialismo romperá com a diplomacia das negociações se impondo diretamente os ditames imperialistas, dentre outras medidas, indicam que a burguesia imperialista e brasileira já não podem confiar e nem querem uma mudança gradual e negociada na exploração das massas e de saque da nação oprimida. E essa mudança lhes é imposta não por desejos e sim por necessidade objetiva de manter seus lucros e cota-parte no saque, na exploração do país e do proletariado em meio à derrubada do capitalismo mundial.
A direitização da política burguesa, que viemos nos referindo desde a constituição do PPRI em 2023, é um reflexo na superestrutura da crise estrutural do capitalismo que derrubou as bases econômicas em que vinha se desenvolvendo historicamente. Como afirmamos em nossa Resolução sobre as Eleições que consta neste jornal, não importa as massas “Qualquer que seja o candidato que vença as eleições para presidente”, porque “o Congresso manterá uma esmagadora maioria de partidos direitistas, obscurantistas e reacionários no controle das medidas e projetos legislativos”. Esse prognóstico feito três meses antes do primeiro turno foi confirmado. Essa “virada direitista da política burguesa que mudou as relações de forças no interior das instituições, sendo mais favoráveis à direita e ultradireita, e desfavorável aos “reformistas”” é produto de condições e tendências históricas determinadas pelas mudanças nas relações de força entre os estados e as classes em nível mundial e, sobretudo, pelo curso objetivo da crise capitalista e seus reflexos sobre a economia. Ainda a Resolução indicava que uma possível vitória de Lula não seria “um bloqueio à suposta “direitização do parlamento”, e sim mais um meio de seu fortalecimento”. A conquista de uma maioria parlamentar pela ultradireita é um reflexo também da política petista de ampliar o leque de alianças eleitorais ainda mais à direita e política de governar conciliando e negociando com a direita e também com o bolsonarismo medidas legislativas.
A direitização, por sua vez, excluí “o fortalecimento de uma candidatura burguesa da chamada “terceira via””. Os resultados eleitorais demonstraram que essa “via” não passou de propaganda de candidaturas testemunhais que visavam utilizar os apoios e votos obtidos como um capital político para negociar com Bolsonaro futuras cadeiras em ministérios e no judiciário, secretarias, acesso a orçamento para estados e municípios, participação na rapinagem de recurso públicos e orçamentos por meio de negociações de emendas e projetos de lei no parlamento etc. certamente há um componente “ideológico” e político no completo apoio de Cury, Caiado e Zema – portanto dos partidos e alianças que sustentaram suas candidaturas – a Flávio Bolsonaro para o segundo turno. O fortalecimento de candidaturas não “orgânicas” da burguesia (ou que não surgem historicamente da formação de frações internas dos partidos da ordem burguesa) se explica pela crise da democracia firmada sobre bases oligárquicas e “que dominaram por décadas a disputa eleitoral e se alternavam na direção do estado antes da primeira vitória eleitoral de Lula”. A possibilidade da burguesia se apoiar em uma candidatura não “orgânica” como a de Lula e continuar lucrando de forma absurda foi uma demonstração prática que a própria burguesia poderia se ajustar a governos reformistas, mas somente em condições de relativo crescimento econômico que permitia outorgar migalhas às massas. A desagregação e atomização dos partidos oligárquicos e burgueses históricos criou as bases para o surgimento da polarização e a burguesia e seus partidos acabaram se adaptando a ela. Os partidos oligárquicos agora “vendem” seus apoios e emprestam suas bases eleitorais para apoiar um ou outro candidato em troca de benefícios e benesses partidárias, econômicas ou políticas para suas bases, seus políticos, seus estados e municípios. Ou seja, para fazer seus negócios particulares ao redor do parasitismo dos cofres do Estado.
Outro aspecto relevante que surge de um primeiro balanço dos resultados do primeiro turno é que a crise política e os choques institucionais que se agravaram na campanha eleitoral, se confirmada a vitória de Bolsonaro, irão se multiplicar e estender. Isto representará não somente o ajuste das instituições e de sua composição política e ideológica ao novo governo (todos os governos burgueses fazem isto para garantir uma base institucional a sua governabilidade), mas, sem dúvida, indicará uma progressiva mudança no interior do Estado sobre os métodos e formas do regime político. A constituição de uma expressiva maioria (1/3 da força parlamentar será do PL) no Congresso da extrema-direita permite usar à via democrática, institucional e constitucional a uma nova fase de ataques e ofensiva da burguesia imperialista e brasileira contra as massas exploradas e a nação oprimida. Portanto, e contrariamente ao que gritam os reformistas e aliados “marxistas”, isto não representará a instalação de uma ditadura bonapartista e sim a transformação “orgânica” dos métodos e instituições da democracia burguesa a uma nova etapa de ataques contra as massas e as nações oprimidas. Veja-se que não foi necessário o governo de Jair Bolsonaro “recorrer à centralização autoritária e à repressão das lutas, dos sindicatos e organizações de massas”, sobretudo, “porque as centrais, sindicatos e movimentos sociais apenas se orientaram a aprovar medidas judiciais e impor os ataques aos explorados para se apresentarem como garantes da democracia e do Estado de direito”. As “Traições, contenção de greves e subordinação das necessidades das massas às negociatas parlamentares visaram mostrar à burguesia que não haveria perigos à governabilidade burguesa por parte dos petistas e aliados. Assim, se transformaram em mais um dos instrumentos aos que recorre a burguesia para abortar e conter a luta de classes”. Note-se, assim, que a democracia nunca esteve em perigo nos processos eleitorais de 2022 e 2026.
É por meio dessa que as frações decisivas da burguesia se orientaram ao apoio maciço da maioria da burguesia nacional e do capital financeiro e monopolista imperialista à candidatura da ultradireita. Muitas dessas apoiaram Lula em 2022, e se ergueram contra a aventura golpista em defesa da democracia. Melhor dizendo, em defesa do candidato que escolheram para administrar seus negócios em uma conjuntura determinada. Agora fizeram o mesmo ao se posicionarem contra Lula neste ano, não porque esse não atendeu seus interesses e sim porque a conjuntura mudou e a prática lhes demonstra que é necessário impor uma mudança violenta e rápida em sua relação com os explorados e oprimidos. A troca de um governo calcado no assistencialismo e nas migalhas por outro de ataques e ofensiva, de rejeição das negociações com sindicatos, de aumento da repressão e de mobilização de setores da pequena burguesia reacionária como grupos de choques contra mobilizações e movimentos de rua, bem como a incorporação de setores das forças Armadas e das forças repressivas na vida política interna, não significa a destruição da democracia burguesa, mas sua acomodação às tendências fundamentais que movimentam a burguesia perante sua decomposição e crise estrutural.
O crescimento do caudal eleitoral da ultradireita se explica por todos esses fatores acima mencionados. Fundamentalmente se explica pelo profundo atraso do proletariado em conquistar sua independência de classe e sua fragmentação como classe com interesses e estratégia próprias antagônicas aos da burguesia. É nesse “vazio político” que um setor dos pobres e miseráveis e também do proletariado mais precarizado é arrastado pelas igrejas que se forjaram – de forma incontestável – como ator político de primeira relevância para decidir as eleições burguesas, e formador de “consciências” e posições ideológicas que defendem o individualismo, a concorrência violenta entre explorados, a defesa dos valores e organizações familiares burgueses que confluem com os interesses da burguesia que foi forjada na dependência das Igrejas do orçamento do Estado burguês e do apoio de suas frações a seu “doutrinamento”, de subordinação e cooptação das massas.
Ocorre que “A dominação ideológica da burguesia por meio de sua educação de classe, a permanente propaganda partidária e midiática, a corrupção de lideranças e a degeneração democratizante dos partidos operários e reformistas que fizeram das eleições seu objetivo estratégico vão sedimentando” na consciência do proletariado e demais oprimidos “os preconceitos democrático-formais como um fato inquestionável e uma via “pacífica” para a resolução dos conflitos”. Ao defender a democracia burguesa e seus métodos, o reformismo e o centrismo junto às direções políticas e populares acabam fortalecendo as vias pelas quais a direita e ultradireita crescem e expandem seu domínio político. O fato é que “porque a oposição à “democracia” contra o “fascismo” é uma impostura porque esse “surge do parlamentarismo e da democracia burguesa, mas prescinde desses quando a luta de classes ameaça a dominação da burguesia”. Portanto, “não há como a democracia burguesa servir ao proletariado para defender suas reivindicações” e, muito menos, bloquear o desenvolvimento e fortalecimento das tendências fascistizantes da burguesia no momento histórico em que essas tendências se desenvolvem e se projetam no interior da democracia burguesa e se fortalecem utilizando as instituições” . A democracia burguesa e seu parlamento são veículos da ofensiva contrarrevolucionária contra as massas e as nações oprimidas.
Não duvidamos que as condições objetivas e um possível governo Bolsonaro obrigarão os explorados e oprimidos a recorrer à ação direta e a luta de classes. Mas, seu caráter e alcance dependerá sempre de sua direção política e do programa de luta. E está aí o problema concreto para as massas. Já assinalamos acima que as traições das direções das massas não apenas se manifestam nos governos de Lula. Após o golpe de estado parlamentar que destituiu Dilma e elevou o governo preposto de Michel Temer ao comando do estado, as mesmas direções sindicais e populares abortaram as tendências gerais e nacionais da luta de classes que se manifestaram na greve de 2017 contra a reforma trabalhista. Em troca de negociar com o governo, traíram ao proletariado e demais oprimidos que demonstraram disposição de derrotar os golpistas e a burguesia com seus métodos próprios. Assim como o petismo e seus aliados fortaleceram o avanço da ultradireita ao defender democracia burguesa pela qual esta crescia e expandia, assim também as direções sindicais e populares subordinadas ao petismo e aliados serviram ao fortalecimento da burguesia contra os assalariados aos desarmarem ideológica e politicamente, trair seus movimentos e negociar no campo dos ataques e da retirada de direitos.
O último aspecto a ser destacado é a capitulação de TODAS as correntes e partidos ditos “socialistas” que apresentaram candidatos a votar em Lula no segundo turno. Apesar de que trataremos novamente desta capitulação em próximos jornais, importa agora assinalar rapidamente que isto se deve a sua subordinação política e organizativa à democracia, aos métodos, instituições e preconceitos ideológicos da burguesia. São falsificadores e oportunistas. Nenhuma “alternativa” socialista subordinada à democracia burguesa poderá servir aos explorados para conquistar sua independência de classe e avançar na luta revolucionária enquanto a vanguarda e as massas que os apoiam não rompam com seu democratismo e sua política revisionista. Como já tínhamos assinalado na Resolução, os “reformistas, stalinistas e centristas convergirão no segundo turno na retórica de votar no “mal menor” e da defesa da “democracia” contra o “autoritarismo fascista”, sobretudo, quando a revolução “não está colocada” e a “classe trabalhadora” é incapaz na situação de erguer uma política e estratégia próprias”.
É sobre base dessa análise que o PPRI, na contracorrente da embriaguez dos centristas e capituladores, e tendo sempre por método e princípio ajudar os explorados, sobretudo o proletariado, a romper a camisa de força da democracia e métodos burgueses, que defendemos sua estratégia própria e seu programa e métodos para que as explosões da luta de classes se orientem a por trás dos objetivos da luta revolucionária. E isto somente pode ser feito mantendo contra todos os ataques e falsificações dos falsos “revolucionários” e reformistas a defesa do Voto Nulo Programático.
Não capitulamos às pressões do democratismo vulgar e ao oportunismo eleitoral. Somente quem se mantém firme nos métodos e princípios da luta revolucionária, e prepara a vanguarda para a próxima etapa da luta das massas para dar um salto à luta revolucionária, é que poderá ser direção do proletariado em luta quando a história colocar a alternativa socialismo ou barbárie.
