O Internacionalista n° 44 / NACIONAL / outubro de 2026

Crítica a posição da Unidade Popular nas eleições de 2026


Com uma chapa integralmente feminina, a UP concorreu à presidência do Brasil no 1º turno das eleições de 2026. Sua presença nesta disputa trouxe para o debate eleitoral pautas que são muito caras para todos os que se reivindicam classistas e do socialismo, tais como: fim da escala 6×1, redução da jornada sem redução salarial, estatização de bancos e reestatização de empresas privatizadas, o fortalecimento do SUS e da educação pública entre outras, procurando “associar” as reivindicações imediatas dos trabalhadores com uma “perspectiva” de transformação socialista. Os 122.911 votos demonstram a ”influência” alcançada pela UP entre setores da vanguarda e adesão das propostas por uma parcela dos eleitores. Contudo, para o 2º turno a UP declarou apoio crítico a Lula contra Flávio Bolsonaro, convocando sua militância a participar das atividades da campanha petista, ao mesmo tempo reafirmou que continuará defendendo suas próprias pautas e mantendo as críticas ao governo Lula/Alckmin.
Apesar da UP trazer em seu programa reivindicações identificadas com a luta de classes e sua candidatura se declarar socialista, duas perguntas fundamentais devem ser feitas neste segundo turno: Qual estratégia política orienta essas reivindicações que, agora, se utilizam não para as identificar com o socialismo e sim com a defesa da democracia e de um governo burguês? Como suas decisões eleitorais no segundo turno afetam a independência política e de classe dos trabalhadores e demais explorados que dizem defender?
Para começar tais questionamentos devemos voltar às origens da Unidade Popular – UP. Fundada em 2016, obteve seu registro eleitoral em dezembro de 2019, tornando-se um partido legalizado. Sua origem traz em sua formação o envolvimento de movimentos sociais e populares tais como: Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), a União da Juventude Rebelião (UJR), o Movimento de Mulheres Olga Benário e o Movimento Luta de Classes (MLC). Sua primeira aparição e participação publicamente registrada como UP foi no 6º Congresso Nacional do PCR – Partido Comunista Revolucionário, em 2019, sendo o PCR uma organização comunista mais antiga – que possui vínculos políticos e históricos estreitos com a UP – apesar de não serem juridicamente a mesma organização, tanto uma quanto a outra são organizações de tradição stalinista-maoista e com políticas que preservam elementos da revolução por etapas e a constituição das frentes populares/poder popular associados à Internacional Comunista sob a direção de Stalin. O que se vê, na prática, é a deturpação da concepção leninista de partido legal e ilegal, e a adoção de uma linha frente-populista stalinista.
Eis a base teórica e programática de sua defesa da construção de uma “ampla frente popular”, com a “articulação” de setores sociais diversos, conquista de poder político e implementação de medidas estruturais em “direção ao socialismo” fazem parte de uma estrutura etapista, que por momentos é associada com os interesses de supostas frações progressistas da burguesia nacional. A abstração constituída ao redor da “perspectiva” da construção do socialismo não deixa claro em qual momento o operariado tomará o controle das empresas estatizadas ou reestatizadas, conforme expresso em seu programa, limitando na prática a política dos trabalhadores e suas reivindicações aos interesses e manutenção do capitalismo.
Não se trata aqui de discordar ou não de uma proposta eleitoral, mas de trazer concretamente para análise questões que tratam diretamente da tática e métodos que permitem avançar na independência do conjunto dos explorados de seus exploradores; bem como de avaliar o conteúdo das propostas práticas de alianças realizadas no campo da burguesia, que nunca serão o meio para avançar à revolução socialista, ao contrário, elas preservam as amarras da ditadura do capital sobre o conjunto dos explorados. Neste sentido, o apoio crítico a Lula neste segundo turno não passa de uma negação objetiva entre a “identidade socialista” declarada e o comportamento eleitoral abertamente pró-burguês que irá subordinar a UP à política reformista e ao governo de conciliação de Lula e aliados.
Ademais, colocar pautas dos explorados em sua campanha eleitoral, sem delimitar os meios e métodos para conquistá-las, e participar do pleito sem denunciá-lo como método para reforçar a ditadura de classe da burguesia, reforça as ilusões das massas na democracia burguesa, negando a experiência e teoria bolchevique-leninista de todo o percurso entre a primeira e a segunda revoluções de 1917, em especial, as Teses de Abril.
A posição da UP para o 2º turno está subordinada à disputa entre candidaturas que administram o Estado burguês. Não obstante sua participação no 1º turno, apesar de reivindicar do socialismo, também traz em seu bojo a ilusão estalinista da possibilidade da administração do mesmo Estado. Não há como se denominar anticapitalista e se moldar a ele. As propostas da UP devem ser analisadas por seu conteúdo, táticas e métodos. Por fim, a posição de que o apoio a Lula no 2º turno se faz necessário para “derrotar a extrema-direita” não alterará a correlação de forças entre as classes antagônicas. Muito menos ajudará aos explorados a se libertarem da ideologia e métodos burgueses. Uma política revolucionária precisa explicar como irá combater a extrema-direita ou qualquer governo da burguesia sem transformar a disputa eleitoral em um horizonte estratégico para a classe operária e demais assalariados.