O Internacionalista n° 40 / NACIONAL / junho de 2026


Após uma reunião entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump, em 29 de maio, Marco Rubio anunciou a classificação do PCC e CV como “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Aprovada por Ordem executiva (Decreto) do presidente estadunidense. A medida entrou em vigor em 5 de junho. Lula, o PT e aliados denunciaram a decisão como uma medida que atenta contra a soberania nacional e poderia fixar um precedente para justificar o intervencionismo militar dos EUA, a exemplo do feito na Venezuela.
Segundo a avaliação de especialistas em direito, não haveria alteração da soberania por não existir relação entre a legislação e sua aplicação que pudesse abrir caminho às ações militares em território brasileiro. Restringir-se-ia, dizem, a uma maior capacidade legal de impor bloqueios de ativos, sanções a indivíduos e empresas etc. É um fato que a medida cria as condições para os EUA intervirem e condicionarem as instituições, a Polícia Federal (PF) e as agências nacionais de inteligência. Essa relação já é umbilical, mas agora haveria melhores garantias para impor a “cooperação” e facilitar a ação de agentes estadunidenses no país. Razões de “segurança nacional” (reais ou fabricadas) poderiam ainda ser erguidas para intervenções pontuais de forças estadunidenses em cooperação com as brasileiras.
A decisão do Departamento do Estado dos EUA se orientará, fundamentalmente, a abrir expedientes para acusar falsamente a organizações, partidos e políticos vinculados com o narcotráfico, ou até semear suspeitas sobre essas ligações, para condicionar determinados processos políticos, a exemplo do eleitoral. Isso iria municiar a oposição direitista em suas campanhas e operações de falsa bandeira que associam o PT ao PPC diretamente, ocultando a cumplicidade e as sociedades com o narcotráfico de políticos e partidos de centro e da direita. O judiciário é um aparelho que se mostrou favorável às manobras e operações intervencionistas estrangeiras em solo brasileiro. Muitos juízes, procuradores e fiscais têm se mostrado agentes políticos dos interesses norte-americanos. Quem não se lembra de Sergio Moro sendo o braço executor dos EUA para impedir Lula de concorrer eleitoralmente em 2018? A Lava Jato não serviu para encerrar empresas estratégicas do nosso país que concorriam ou afetavam os interesses imperialistas?
Não se deve esquecer que são os EUA, principalmente por meio de sua agência de inteligência, a CIA, que fizeram desse país o principal mercado das drogas, espalhando o veneno dos entorpecentes entre sua população pobre e minorias nacionais (é fartamente conhecido o papel da CIA no alargamento do narcotráfico entre as comunidades negras nos anos de 1960 para abortar um processo de radicalização política e apodrecer física e intelectualmente gerações inteiras), o principal centro de lavagem do dinheiro do narcotráfico e o centro para impulsionar a formação de cartéis latino-americanos para financiar a guerra dos “contra” contra a revolução sandinista ou financiar a produção de heroína no Afeganistão durante sua ocupação militar para inundar à Rússia e desestabilizar seus governos, dentre outros exemplos.
Foi com o objetivo de obter uma manchete e uma foto que revitalizará sua candidatura que os Bolsonaros recorreram a Trump. Afinal de contas, Trump e MAGA foram decisivos para a projeção e sobrevivência eleitoral de Jair Bolsonaro após se mostrar um incompetente e corrupto como presidente. Como seu pai, Flávio foi solicitar ao imperialismo para intervir ativamente nas campanhas e nas eleições. A decisão do Departamento de Estado é a primeira intervenção “direta” dos EUA nas eleições. Flávio demonstrou a melhor qualidade que o imperialismo exige aos candidatos: uma coluna flexível para se curvar e total disposição a sacrificar os interesses e soberania nacionais. Mas, tal ato de servilismo não alterou ainda a tendência de queda das intenções de voto em sua candidatura após revelado o escândalo que envolve Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, comprovado fraudador e corrupto. Ocorre que a própria direita alimentou a maquinaria das denúncias do Banco Master para atingir o STF e Lula, mas logo essa ofensiva adquiriu feições ameaçadoras ao se revelar os laços entre o dono do Master e o candidato a presidente.
O encontro trouxe à luz do dia que dois criminosos podem se vestir de arautos da moral e da política burguesas, apesar de Bolsonaro ter vínculos comprovados com milicia que financiou parte de sua campanha pelo estado de Rio de Janeiro, e de Trump ser o máximo exponente político de uma casta empresarial envolvida até o tutano no tráfico de pessoas e na prostituição de adultos e menores. No capitalismo em apodrecimento, a violência criminosa nutre-se de alianças políticas e institucionais para progredir em sua riqueza e garantir sua impunidade. Bilhões de lucros do narcotráfico lubrificam empreendimentos imobiliários, prestação de serviços, grilagem e compra de terras e financiamento de bancos – a exemplo do Banco Master. Assim como Trump foi amigo do criminoso Epstein, o próprio Flávio Bolsonaro é amigo de Rodrigo Bacellar, indicado como responsável do “núcleo político” (encarregado de acordos políticos e financiamento de campanhas) do CV. O clã Bolsonaro esteve também intimamente envolvido na aventura golpista de 8 de janeiro de 2023 que cogitou (e tentou) realizar atos terroristas para criar condições para um golpe de estado. A tentativa de explodir um veículo-bomba no aeroporto de Brasília é um claro ato terrorista dirigido contra a população civil. O bolsonarismo está ligado aos “narcoterroristas” e até incentivaram atos reais de terrorismo. Mas, como são servis ao imperialismo, nada há por que aplicar a designação dos EUA para tão fiéis aliados.
O que interessa à vanguarda com consciência de classe e às massas nacionais é compreender que designação do PCC e CV como “organizações terroristas” têm um objetivo político claro: desenvolver uma campanha política centralizada para ampliar o intervencionismo dos EUA na América Latina. Recentemente, organizações bolivianas denunciaram a existência de acordos entre o governo reacionário de Rodrigo Paz com o Departamento de Estado dos EUA para que se facilite a entrega de ajuda militar, inteligência e coordenação operativa para esmagar a revolta operária e popular que entrou em choque aberto com o governo entreguista (ver aqui), bem como para “armar um caso” por narcotráfico contra Evo Morales. Não é por acaso que décadas depois de ser expulsa, a DEA retorna a operar na Bolívia após Paz retirar os entraves legais; mas também no Paraguai onde se lhes outorgou total impunidade para agir no território sem qualquer ameaça de processos jurídicos ou legais por seus atos.
Como se vê, a ameaça militar se combina à intervenção nos processos eleitorais como em Honduras e na Colômbia (ver aqui). Mas, terá também reflexos no aumento da violência policial. Se a oposição direitista e ultradireitista conseguir emplacar no Congresso que se integrem as designações imperialistas à legislação nacional, será utilizada contra qualquer movimento que afete os negócios da burguesia imperialista. E poderia ainda favorecer o ressurgimento dos “esquadrões da morte” voltados aos massacres de pobres e miseráveis e movimentos revolucionários e partidos políticos de oposição.
É o capitalismo e seu parasitismo sobre as nações e massas oprimidas a fonte da podridão e do crime. Os EUA apenas se utilizam dos efeitos da decomposição para alavancar uma política intervencionista e reunir ao redor das tendências fascistizantes às camadas de classe da pequena burguesia que se inclinam para governos e medidas ditatoriais. Se o regime burguês é a fonte primigênia dessa barbárie, não será com os métodos democratizantes que a perpetua que se resolverá a decomposição social, econômica e política. As massas exploradas não podem servir de base de manobra eleitoral da demagogia de Lula e Bolsonaro que estão ao serviço dos lucros de um punhado de magnatas do capital. Devem romper com o circo eleitoral e a farsa democrática burguesa, se aproximando de sua estratégia e programa próprios, única via para começar a criar as condições para acabar com a opressão, a exploração, a fome e miséria que são o caldo de cultivo para violência reacionária em todas suas formas.